19.6.06

À Maneira de David Hockney (2ª entrada)

À Maneira de David Hockney (1ª entrada)

Moldura Humana

O GRITO

A mulher tem vestido um casaco de fato de treino com as cores da bandeira de Portugal. O tecido do tronco é vermelho, os braços verdes e o capuz amarelo. Mas não há aqui motivo para festa. A mulher tem a boca e as narinas muito abertas e, na ponta do braço direito em riste, o punho fechado, à excepção do indicador que sublinha a indignação. Tem o corpo, que parece franzino, ligeiramente inclinado para a direita (visto daqui, do lado de quem segura o jornal: DN, sábado, 17 de Julho de 2006, secção Sociedade, página19).

A foto, de Pedro Ferrari – Lusa, ilustra a notícia que leva por título “Avó e pai de Vanessa condenados a 18 e 14 anos e nove meses de prisão”. Para legenda, os editores do jornal escolheram a seguinte frase: “Afluência – Mais uma vez os moradores estiveram em peso na sala de audiências do Tribunal de S. João Novo para assistir à condenação dos seus antigos vizinhos”.

Do lado esquerdo da mulher com o casaco-bandeira (ainda na perspectiva do leitor) está uma mulher gorda, a quem uma blusa de alças com riscas horizontais faz ainda mais gorda. Também tem a boca aberta mas num jeito de falta de ar, olhos cravados na lente do fotógrafo. Do outro lado da mulher-bandeira está uma mulher mais nova com uma camisola igualmente às riscas a deixar surgir a barriga, logo acima dos jeans. Tem a cabeça de lado, a boca aberta, deixando ver a fileira dos dentes de baixo. Os olhos estão fechados e o braço direito ligeiramente erguido acima da cabeça, de modos que parece dançar. A fechar o friso principal da indignação, outra mulher larga, com uma blusa preta de manga curta e um fio dourado com duas medalhas a pular, imóveis, sobre o peito XXXL. Também tem a boca escancarada, num esforço que lhe enruga a testa, mas os olhos estão cravados na mulher-bandeira, como quem grita ao desafio.

Em segundo plano há outras pessoas, homens e mulheres. Um aponta, outro sorri, aquela faz uma careta misteriosa, mais sorrisos, lá no fundo. Espectadores, participantes numa novela da vida real, “moradores em peso” para assistir e comentar. Acredito que alguns, de forma genuína, queiram demonstrar público repúdio pela morte da criança. Estou convencido que outros teriam optado pela final do “Dança Comigo”, no Campo Pequeno, se pudessem escolher.

Sobram os gritos, aqui num silêncio de papel, e algumas perguntas, em rodapé. Porque gritamos nós? O que nos faz expulsar o ar com tal ribombância de cordas vocais? Qual foi a última vez que gritaste, a plenos pulmões? Porquê?

18.6.06

Vai desejar factura?

De vez em quando, numa volta a gavetas e velhas pastas e fundos de armários, enche-se um saco, dos grandes, de papel para reciclagem. Facturações detalhadas como poucas outras coisas no nosso quotidiano, fotocópias de artigos muito interessantes que vão perdendo o interesse na proporção inversa do pó, folhetos de espectáculos que sairam definitivamente de cena, free postcards com piada fora de prazo, etc. Na triagem, os papéis condenados formam uma pilha e os papéis com interesse formam outra. A primeira pilha costuma ser bastante maior do que a segunda que, por sua vez, é o embrião de uma nova coluna de papel que será vistoriada dentro de semanas, meses ou, nalguns casos limite, anos depois.

O essencial da nossa vida não se pode rasgar em tiras finas e voltar a rasgar em quadrados minúsculos. E, não, não estou a falar de memória RAM.

17.6.06

enganei-meeaindabem!

enganei-meeaindabem!

Jarhead

7 em 10 possíveis ...
Uma vez mais gostei/gostamos do trabalho do Jake Gyllenhaal ...

16.6.06

Força,

Angola!

A adidas mata para se darem uns pontapés


Aqui!

Bar


Não sei se conhecem mas vale a pena ver ...

A Tempestade

No intervalo da chuva de golos argentinos (3 a 0), saímos para as compras de fim-de-semana. Assim que nos encontramos na estrada, somos apanhados por uma forte "tromba d'água" (bela expressão!), que inunda tudo. Os relâmpagos e os trovões rebentam logo por cima de nós ("Ai, Santa Bárbara!"). Alguns carros encostam à berma, com os piscas ligados. "Quem anda à chuva, molha-se". Mas nós avançamos, cautelosamente. Só queremos chegar ao Centro Comercial mais próximo, visto, com surpresa nossa, como um porto de abrigo. Conseguimos. Mas nem chegamos a entrar, porque está toda a gente a sair: os canos deram de si e há água por todo o lado. No átrio, dentro das lojas do primeiro piso, no Continente fechado. Voltamos, portanto, para trás, notando, com alívio, que entretanto a chuva acalmou. Sim, "depois da tempestade, a bonança", que permite a redacção deste post. Mas eis, também, como as forças da natureza nos dão, de quando em quando, lições de humildade. Seremos capazes de as aprender? Falando de forças da natureza: os servo-montenegrinos sentiram-nas bem fundo na carne. Resultado final - Argentina: 6 / Sérvia-Montenegro: 0. Pois, "quem semeia ventos, colhe tempestades!".

Fotografia Ligeiramente Desfocada Na Terra Do Nunca

Ela diz que ele lhe faz ver, regularmente, que “a vida não é um conto de fadas”. Acrescenta que isso lhe faz bem. Eu penso que gostava que ela tivesse umas asas pequeninas, transparentes, como a Sininho do Peter Pan. Mas não lhe digo porque também sei que as fadas só existem no nosso desejo de felicidade.

15.6.06

O Abismo


No ecrã do blogue, a imagem cobre (esconde) a listagem dos últimos posts (em cima, à direita). Então temos de voltar atrás, para a editar de novo, dando-lhe a forma (o tamanho, a dimensão) adequada. Mas o tempo passou e, em vez de andarmos para trás, fomos em frente. Podia ser uma definição do presente: mesmo os passos à rectaguarda são passos em frente. E, claro, quem avança, recuando, não pode ver onde põe os pés... Tropeçar é um verbo que se declina apenas no presente?

Bolas de Granizo

Alguns cromos do dia.

Os céus castigaram as uvas no Alto Douro. Dois portugueses carregaram um buda de 95 quilos até à Alemanha, para a festa do futebol. Os trabalhadores da Opel gostavam de jogar até à final. Sócrates, em Bruxelas, diz que só fala da Europa. Golo?

O Intervalo


O que é a actualidade? Se calhar estamos sempre no intervalo, entre qualquer coisa que aconteceu e outra que vai acontecer. Estamos aí, meio perdidos, no meio, na deriva, deste dia para aquele. A C. diz-me, no fim da tarde: "Parece que hoje é domingo." Pois parece. Mas não é. Um céu de chumbo, com abertas por instantes. Entre um lugar e outro, no mesmo sítio. O eterno retorno do que perdemos a cada momento. Pacheco Pereira fala disso, hoje, no Público, a propósito disto: dos blogues como "apoteose do presente". Mas o que é o presente? É quando os ponteiros se sobrepõem?

- Fala Charitos.

O Corpo de Deus passa-me ao lado mas sempre é um feriado. Resolvo fazer vista grossa a uma papelada à espera de ordem e outros afazeres e aproveito a folga. Depois do almoço, M. sai para cumprir compromissos familiares e eu estico-me no sofá, com um livro novo. Os cadáveres sucedem-se, num mapa que o inspector Kostas Charitos acabará por decifrar nas últimas páginas, que devorei há pouco. A capa portuguesa é fraquinha mas o recheio deste primeiro romance de Petros Markaris é um divertimento muito recomendável.

Opção Editorial

Não é a actualidade que me interessa. É o intervalo entre as notícias. Uma espécie de abismo de sentidos.

14.6.06

Uma Pergunta Redonda

Será que é desta que a Espanha passa dos quartos-de-final?

(Ainda) O Presidente & Os Símbolos

Uma pergunta, a propósito da irritação do amigo PB (e da nossa) com os políticos. Será que "o menino da G3", um cravo abstencionista, é que estará certo, no seu alheamento? Não creio que seja esse o caminho mas também não me parece que um voto, de quatro em quatro anos, seja suficiente como acção. (À atenção do SIS e quejandos: não, ainda não estou a pensar na via das armas...)

"Entre os homenageados pela Presidência da República, na cerimónia de ontem em Serralves, estava Diogo Bandeira Freire: o menino que, em 1974, aparece a meter um cravo numa G3. Uma imagem da Revolução de Abril que perdura na memória de muitos. O menino, ícone de Abril, emigrou há 18 anos para Inglaterra, onde agora é director financeiro numa empresa de distribuição. E, para espanto de muita gente, pertence ao partido dos abstencionistas: tem 35 anos e nunca votou, nem em Portugal, nem nas municipais em Inglaterra. Dos políticos portugueses, Diogo Bandeira Freire, que promete repensar a sua atitude nos actos eleitorais, apenas destaca um, precisamente o que o convidou a participar pela primeira vez no Dia de Portugal."

Diário de Notícias, 10.06.2006

Aqui encontram uma entrevista, feita há dois anos, onde o menino do cravo diz, entre outras coisas, que "é um bocado irónico que o miúdo, o símbolo de Abril, tenha saído do país".

Manhã Submersa 3


Depois de tanto calor, os dias começaram a ficar mais frescos, cinzentos. Tudo culminou de madrugada: trovões, relâmpagos, fortes cargas de água. A C. acordou, ficou assustada. De manhã, diz-me que não se lembra de coisa assim nos últimos anos. Eu digo-lhe que exagera, que tem fraca memória. Os planos de fim-de-semana parecem ir por água abaixo, o que é pena. Vamos esperar por melhorias... Mas eu que gosto tanto das chuvas de Verão!

Manhã Submersa 2


Aula de Literatura Portuguesa, ontem à tarde. Visionamento do filme, Manhã Submersa (1980), de Lauro António, a partir do romance homónimo de Vergílio Ferreira. Como já acontecera em outra ocasiões, os rapazes e as raparigas dividem-se completamente na sala: elas para a esquerda, eles para a direita. O que diria o narrador, o António Santos Lopes, o Borralho, disto? O filme sublinha, de forma clara, a ideia da repressão da sexualidade dos jovens seminaristas. E, como seria de esperar, os jovens alunos de hoje, mesmo não (tão?) reprimidos, são muitíssimo sensíveis a este ponto do filme (também do romance, mas as imagens são, claro, mais imediatas que as palavras...). Cenas mais apreciadas? Três: pela sua dimensão dramática, a elipse final, da auto-mutilação do protagonista; e duas cenas de natureza sexual: o Dr. Alberto com Carolina, a criada, vistos de relance, pela porta entreaberta; e a cena entre a mesma Carolina e António, na cozinha, quando o rapaz espreita os seios da jovem mulher enquanto come a sopa. É então que ela pergunta, em jeito de troça "- Já te apetecia, não?". Sim, foi a frase mais repetida, por entre risos e gargalhadas, no átrio da escola, logo após a aula. Por eles e por elas. Nisto não houve separações, nem divisões para a esquerda e para a direita. Estavam todos misturados... E, pelos vistos, alguma coisa decoraram do romance...

Manhã Submersa 1


Literatura Portuguesa. Ficção contemporânea: Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira (1955). Uma história de aprendizagem, narrada na perspectiva de um rapaz de 12 / 13 anos, o António Santos Lopes, o Borralho (uma espécie de projecção das vivências do próprio Vergílio Ferreira). O romance denuncia, a partir de uma experiência de Seminário, a contradição entre os valores e as práticas religiosas e clericais na província, atrasada e conservadora, dos anos 30 / 40 portugueses (quando o elogio abstracto do amor cristão se manifesta na prática quotidiana como violência concreta sobre os seminaristas). Há ainda a denúncia da opressão que uma instituição rígida, com as suas regras e hierarquias, exerce sobre o indivíduo, especialmente fragilizado porque criança ou adolescente. Pode ler-se, aqui, claro, uma denúncia política mais vasta, do Estado Novo salazarista, de que o Seminário é a maqueta ou o microcosmos. Mas o romance mostra também como a liberdade e a libertação são possíveis, ainda que com custos elevados (o sacrifício da auto-mutilação final do protagonista). Aliás, a existência do romance é a melhor prova de sobrevivência que se pode apresentar: ele foi escrito por alguém (António / Vergílio Ferreira) que sobreviveu para contar a história. Um romance excepcional, do melhor que o autor escreveu (portanto, do melhor que a literatura portuguesa pode apresentar). Pelo que este post é um convite à leitura. A história (não o romance...) começa assim: "Tomei o comboio na estação de Castanheira..." Dispostos para a viagem?

12.6.06

Liberdade de expressão (imagem)


Vem também no Público de hoje. Página inteira:43. É uma imagem atroz, que não consigo (por razões técnicas, acima da minha vontade) colocar aqui. Uma boca-vagina castanha, selada ou cosida com um cordão escuro; se boca, no canto esquerdo vê-se uma espécie de afta ou borbulha; se vagina, um clitóris, ou o que resta dele (uma cicatriz?) Legenda, no canto inferior esquerdo: "Mutilação genital feminina. As mulheres da BBDO agradecem ao jornal PÚBLICO por ter falado num tema de que ninguém fala."
(Notas:
1) A BBDO é uma agência de publicidade; 2) a jornalista Sofia Branco escreveu um livro sobre a mutilação genital feminina: Cicatrizes de Mulher, edição do Público, "já nas bancas" (ver p. 61, também da edição de hoje do jornal); 3) a reprodução alternativa apresentada é, como devem saber, uma obra de Gustave Courbet: A Origem do Mundo, de 1866).

Liberdade de expressão (palavras)


Uma escola de 1º ciclo, no Lumiar, fechou porque familiares de um aluno insultaram e agrediram uma professora. Qual é a preocupação do Ministério da Educação em relação ao caso? Não quer que a escola divulgue publicamente o que se passou. Vem no Público (hoje, p. 32). Podem confirmar.

11.6.06

Fraquinho ...

Muito fraquinho mesmo ...

Mundial

Portugal, 0 - Angola, 0
o meu prognóstico para o resultado final ...

Limões & Laranjas Mecânicas


Enorme jogo de Robben, a pintar o verde da tela com o golo da vitória, corridas e lances de um egoísmo genial: "permanentemente ligado à corrente do jogo!", segundo José Marinho. Penso, aliás, que as duas figuras do desafio foram mesmo o avançado holandês e o locutor português. Exemplos? "Cocu é uma espécie de governanta do meio-campo da Holanda." Ou: "Esta defesa era uma espécie de betão armado. Mas falta-lhe agora o melhor cimento, que era Bilic." De Zigic, jovem e poderoso ponta-de-lança, disse que era "aquela masmorra que a Sérvia tem no ataque." De tal maneira que Toni, o treinador-comentador da ocasião, deixou escapar: "As metáforas estão a entrar por aqui..." Ainda bem. Antes metáforas que tácticas do losango ou do triângulo invertido! O futebol, se bem falado, é muito mais divertido...

Auto-retrato (Fragmento de Autor Desconhecido)


"Os escritores & os poetas que importam são aqueles que se descentram de si próprios para falarem e mostrarem aos outros aquilo que eles são sem o saberem. Por isso (& muitas outras coisas), eu não poderei nunca aspirar a ser um escritor que importa: contra o meu próprio desejo, só sei falar de mim, e mal. Não sou capaz de escrever simplesmente, sustentadamente, sobre os outros. Não é que eles não me interessem (de facto, interessam-me muito), mas não tenho talento para esse voo imaginativo. Por outro lado, a verdade é que ando à procura de me entender a mim mesmo. Escrever é uma procura de algum entendimento, mesmo que precário. O que há-de estranho nisto é que, ao escrever sobre mim, descubro-me sempre outro. Ao escrever sobre mim não é sobre mim que escrevo, mas sobre mim como um ser de ficção, alguém que não existe de facto, uma existência de papel, como dizia um poeta que levou a vida a escrever sobre ele mesmo. Ao escrever sobre mim descubro, afinal, que não existo."

As Casas & os Escritores (retorno)

A Feira do Livro termina hoje? Este ano, só fui uma vez. É um sinal da crise. Houve também muito trabalho pelo meio, & outros impedimentos. Mas gostaria de dizer que gosto da Feira ao ar livre, ali, na encosta escorregadia do Parque. À chuva (às vezes) e ao sol (quase sempre). Gosto daquelas barracas coloridas, rústicas, com qualquer coisa de inacabado, uma espécie de habitações provisórias dos editores que são, por algumas semanas, as casas dos escritores. E eu penso que devemos preservar as casas dos escritores. Visitá-las, dar-lhes vida, torná-las quentes e verdadeiras (mesmo que sejam barracas de feira...): não Casas-Museu, no sentido mortal do termo. Por isso quero, um dia destes, visitar e conhecer a casa de Camilo em Ceide, a casa de Eça em Tormes. Embora todos saibamos que a única casa verdadeira dos ecritores é a língua, a casa do ser. O que significa isto? Significa que todos os grandes escritores são, realmente, homens e mulheres sem casa, "sem abrigo". Porque a língua, ao mesmo tempo que se deixa apropriar, ou habitar, pelo escritor e pelo poeta, escapa-lhe por entre os dedos. É isso que leva, de resto, à escrita, à continuação da escrita - a perpétua perseguição da palavra e do sentido que sempre escapa. Por consequência, até o escritor que se refugia para escrever no seu quarto é um homeless, alguém que está irrevogavelmente na rua, à mercê da violência dos elementos. À chuva (quase sempre) e ao sol (às vezes). Porque escreve. Porque a língua é a morada esventrada do ser. Aí onde se ouve e sente o vento a passar, por entre as frinchas do corpo e as estrias do espírito.

10.6.06

Estatuto


Descobri este texto através do blogue Da literatura. É um texto que explica pormenorizadamente tudo o que importa em relação à proposta do Ministério da Educação de alteração do estatuto da carreira de professor do ensino básico e secundário. Se tiverem interesse em perceber o que está verdadeiramente em causa, para além de todas as cortinas de fumo do Ministério e de colunistas como Pedro Rolo Duarte ou José Miguel Júdice (no Público de ontem)...

9.6.06

Frente a Frente? Diálogo de Surdos?


Debate (?) sobre o estado da Educação, SIC Notícias, 22:20. Participantes: Maria de Lurdes Rodrigues, Ministra da Educação; Paulo Sucena, Secretário Geral da Fenprof. Moderador: João Adelino Faria. Avaliação: de 0 a 20 valores. Critérios de avaliação: qualidade / conteúdo das intervenções; presença televisiva.
Maria de Lurdes Rodrigues: nota 8. Porque, apesar da insistência na ideia de que é preciso distinguir os professores excelentes ou muito bons dos somente regulares, não consegue mostrar como é que isso se faz objectivamente (em relação com os níveis de sucesso dos alunos? com as taxas de abandono? com a avaliação dos pais?...). Porque também não é capaz de mostrar objectivamente como é que a sua proposta de estatuto vai melhorar o que quer que seja nas escolas (pelo contrário, previsivelmente, vai abrir autênticas guerras civis; vai colocar, por exemplo, professores mais velhos contra professores mais jovens...). Porque não diz que este estatuto tem o objectivo inconfessável de impedir a progressão do maior número de professores ao topo da carreira e poupar a maior quantidade possível de dinheiro (objectivo legítimo, sem dúvida, mas que terá custos ao nível da motivação e do desejo de progressão profissional dos professores... quando estes se derem conta de que os lugares para professor titular estão já todos ocupados nos próximos 10, 12, 15 anos... Pode haver qualidade de ensino com professores desmotivados e "congelados" permanentemente?)... Porque... Porque... Mas a presença televisiva foi politicamente correcta: supostamente aberta à negociação; correpondendo aos projectos e ideias dos professores de Matemática, etc. Tudo muito longe das declarações sobre o mau profissionalismo dos professores, ouvidas e noticiadas nos últimos dias. Os gestores de imagem fizeram o seu trabalho.
Paulo Sucena: nota 7. Falhou no discurso e na presença televisiva. Parece mal preparado (talvez não esteja; mas, então, por que motivo precisa de deitar um olhar meio disfarçado aos papéis?). Parece acomodado no seu papel institucional de representar o maior sindicato de professores deste país (mesmo depois de uma eleição, bem recente, por margem mínima, sinal de grande insatisfação da parte de muitos professores sindicalizados). Parece esgotado na capacidade, urgente, de organizar a classe, de forma criativa, no sentido de esta recuperar confiança e ser capaz de responder firmemente às provocações (inexistentes no debate desta noite, mas factuais, sistemáticas e propositadas ao longo do último ano) da ministra e da sua equipa. Depois de tantos anos à frente das lutas dos professores pela dignificação da profissão docente, talvez seja altura de compreender que essas lutas precisam de novos rostos e de ideias mais firmes e claras.
João Adelino Faria: nota 14. Porque mostrou estar informado e conseguiu acompanhar, pontuando-o, o desenrolar da conversa. No entanto, manifestou, por vezes, uma tendência algo perturbadora para interromper o dirigente sindical, facto sem a mesma correspondência em relação à ministra, cujo discurso praticamente não foi interrompido. Mas foi, claramente, o melhor dos três. O que, valha a verdade, não pode deixar de constituir um sintoma preocupante dos muitos problemas do sistema educativo português.

O Presidente & Os Símbolos

O senhor Presidente da República está no Porto, para as comemorações do 10 de Junho. Hoje, via televisão, fiquei a saber que Cavaco Silva recebeu o cidadão Diogo Bandeira Freire, o homem que foi "o menino do cravo", que a imagem documenta. Palavras do senhor Presidente da República, acompanhadas de sorrisos, e dirigidas ao cidadão Diogo Bandeira Freire: "Você foi o símbolo do 25 de Abril, sabe? A pôr o cravo na espingarda...". Parece-me que há, aqui, um pequeno reparo a fazer. Parece-me, na verdade, que o símbolo do 25 de Abril é, afinal, o cravo. O mesmo cravo que o senhor Presidente da República, de resto, se recusou a colocar na lapela do seu casaco no dia 25 de Abril de 2006, aquando das comemorações do trigésimo segundo aniversário do Dia da Liberdade. Parece-me, também, que há coisas que não devemos esquecer. Que não podemos esquecer.

Boletim Clínico da Selecção (Familiar)


C., a guarda-redes, está à beira da exaustão, com ataques de ansiedade à mistura. O mais velho, defesa central, desatina e chora por todos os motivos e mais algum (escola, compras, arrumação do quarto, irmão, etc.). O mais novo, extremo-esquerdo, cheio de febre, está a meio de uma traiçoeira investida de bexigas doidas. Quanto a mim, o número 10, o homem do último passe, arrasto-me no campo à espera do apito final, incapaz de marcar o decisivo golo de ouro.

8.6.06

Fernando Variações & António Pessoa


Alguma coisa se passa. Primeiro, não querem ir à rua; depois não querem vir para a casa. Não querem tomar banho; depois não querem sair da banheira. À noite, não se querem deitar; de manhã, não se levantam por nada. O mais novo, quando quer que eu acenda a luz, pede-me que a apague. Quando desce umas escadas, diz que as está a subir. Quanto ao mais velho, é do contra. Sempre. Não importa o que dizemos. E, se por táctica calculada, invertemos o sentido do discurso, logo ele se opõe, com todas as armas, ao que lhe propomos, mesmo tratando-se do oposto do que primeiro lhe tínhamos proposto e que ele também, como calculam, contrariara. Sim, alguma coisa se passa... Andarão, secretamente, a ouvir António Variações: "Estou bem onde não estou / Só quero ir aonde não vou"? A ler Fernando Pessoa às escondidas: "Ah, poder ser tu, sendo eu! / Ter a tua alegre inconsciência, / E a consciência disso!" Parece que sim, que alguma coisa se passa. Eu só não sei o quê.

The Power of Love 2



A N. é católica e portuguesa. O J. é protestante e alemão, de Bremen. Vivem em Berlim. Vão casar este Verão em Portugal. No dia-a-dia entendem-se na língua de Goethe. Ele não se importa nada com a ideia (dela) de casar catolicamente à portuguesa. Mas o padre que oficiará a cerimónia exigiu que ele aprendesse a dizer, em português, as palavras sacramentais. Estou certo de que o J., digno representante da bem conhecida eficácia teutónica, acabará por consegui-lo... mas, de momento, a coisa está preta! Da última vez que ensaiou o discurso, saiu-lhe isto, com o proverbial sotaque germânico: "Prometo amar-te e espetar-te (em vez de respeitar-te), na algéria (em vez de na alegria) e na tristeza, na saúde e na doença, etc." O padre diz que, para haver casamento, para que este tenha legitimidade religiosa, o noivo tem de compreender o que diz e ao que se compromete. O caso é sério! Alguém tem, pois, maneira de explicar ao J., para além de qualquer dúvida, a diferença semântica entre as formas verbais espetar-te e respeitar-te da nossa tão bela e atrevida língua? As relações luso-alemãs agradecem. Danke. Obrigado.

7.6.06

The Power of Love


Segunda dose, e reforçada, de festas, adulação, coca, sexo, mentiras e música pop, tudo rematado com uns passos de dança da "Dama de Ferro" Ela-Mesma, na Inglaterra de meados de 80. A série, excelente, é sobre as tradicionais públicas virtudes & vícios privados, desmontando, sem exibicionismo nem pudor, os periclitantes fundamentos morais de um meio social que se alimenta da hipocrisia, da ambição e dos favores políticos e económicos. Tudo visto através do olhar cândido e curioso do rapaz da província chegado à cidade, cada vez mais realista e desiludido. Queda de um anjo? Bom, a SIDA faz a sua aparição no meio de um jantar de férias em França... "Não amamos as pessoas porque são belas. Elas são belas porque as amamos", diz Catherine, a mais autêntica das personagens. Mas o que acontecerá à beleza se o amor desaparecer? A não perder, portanto, o 3º, e último, episódio.

Tiro pela culatra


Um tiro pela culatra é uma das situações mais horripilantes que podem acontecer. O sr. André Franquin (Grande mestre da Banda desenhada europeia, Gaston, Modeste e Pompon, Spirou, Fantásio etc etc etc) desenhou uma colecção que se chamavam IDEIAS NEGRAS (tenho 2 ou 3 albuns) com ideias completamente NEGRAS. Tem algumas situações HILARIANTES com caçadores em que lhes saiem invariavelmente o tiro pela culatra ... hihihihiiihihhihihiiii ... mas tem outras ... assim que puder digitalizo umas quantas e coloco-as aqui ... entretanto coloco uma para terem uma ideia das IDEIAS NEGRAS de André Franquín.

Um Tiro Pela Culatra ?

Vamos lá ver no que dá isto.

6.6.06

Cantar & Andar à Mocada


Eles até podem saber navegar na internet. Ir a comícios neo-nazis em Dresden. Desejar "uma sociedade perfeita, só com brancos portugueses". Afirmar que vivem "para defender a nossa nação". Mostrar uma "arma calibre 12" e dizer que, "se o dia chegar", vão "tomar de assalto as nossas ruas". Ou, pérola entre as pérolas, resumir: "Eu não sei cantar. Eu só sei andar à mocada." O problema é que nunca conseguirão explicar como é que isto tudo se relaciona com a "defesa da nossa identidade e os nossos valores". Lerão, porventura, os clássicos portugueses? Talvez pudessem começar por um pequeno volume do esquecido Professor Jorge Dias: "(...) O Português assimilou adaptando-se. Nunca sentiu repugnância por outras raças e foi sempre relativamente tolerante com as culturas e religiões alheias. A miscigenação portuguesa não tem só uma explicação sensual, embora a caracterize uma forte sexualidade. Ainda hoje o Português tem decidida inclinação por mulheres doutras raças e é capaz de mostrar grande afeição ou profundo amor. É célebre o amor de Camões por uma escrava, cantado em versos sentidos. (...)". Título do livrinho no qual se podem ler estas palavras? Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa, Imprensa Nacinoal-Casa da Moeda, Lisboa, 1986, pp. 53 e 54. Os versos de Camões? Por exemplo, estes: "Pretidão de Amor, / tão doce a figura, / que a neve lhe jura / que trocara a cor. / Leda mansidão / que o siso acompanha; / bem parece estranha, / mas bárbara não." Versos dedicados "A uma cativa com quem andava d'amores na Índia, chamada Bárbara". Outro exemplo clássico? O Padre António Vieira e a sua defesa dos índios brasileiros contra os colonos portugueses que os queriam escravizar. Gil Vicente escreveu em castelhano. Pessoa em inglês. Deveremos excomungá-los? "Se o dia chegar", inspirados pelas imagens a preto e branco dos anos 30 e 40 da Alemanha hitleriana, não podendo queimar o Homens, lançarão ao fogo os Livros destes multiculturalistas traidores?

(Reportagem "A Extrema-direita Existe?", hoje, na RTP 1, logo após o Telejornal; reportagem, de resto, na minha opinião, pouco conseguida).

Tranformar Tudo em Pedra

De regresso aos clássicos, voltando um pouco atrás. Paulo Sucena, secretário-geral da Fenprof, no dia 1 do presente mês de Junho: "Os professores e educadores estão fartos dos descontrolados impulsos persecutórios da ministra da Educação de Portugal e não suportam mais o seu olhar de medusa."

Sem Tempo Livre!

A esbracejar para me manter à tona no oceano de testes, trabalhos & processos de avaliação do final de ano lectivo, descubro duas sugestões bem interessantes, na página 10 do último número da revista do INATEL, Tempo Livre, aquilo precisamente que eu não tenho: um livro sobre as gentes e as tradições do Porto e uma notícia sobre o primeiro festival de cinema digital da Europa, a realizar em Lisboa, entre 21 e 25 do presente mês de Junho. Excelentes ideias, não acham? Ah, já me esquecia!, e também uma notícia sobre um prémio de jornalismo a que talvez valha a pena dar atenção...

Dois Sol?


Afinal há mais do que um?

Pssssssssst!

5.6.06

Brokeback Mountain - Banda Sonora

Excelente a banda sonora do filme, particularmente as músicas do sr. Gustavo Santaolalla!
O tema "The Wings" é fabuloso ... Assim como o tema "De usuahia a la quiaca" dos Diários de Che Guevarra ... Sou fan incondicional do trabalho do Gustavo Santaolalla.

4.6.06

"...a fazer pontaria a uma menina?"

Só para descansar alguns comentários mais ansiosos: não, eu não sou o Hommer Simpson!

Vocês Viram O Que Eu Vi?

Sempre aos Domingos foi uma excelente ideia de televisão de Maria João Seixas, no Canal 2 da RTP, aqui há uns anos. Uma conversa/entrevista da Maria João com um convidado, por norma, inteligente e bom conversador. E, de seguida, um filme ou um documentário, escolha do entrevistado. Alguém se lembra? Eu lembro-me, por exemplo, da sessão dedicada aos filmes inacabados de Orson Wells ou aquela sobre a perseguição e tentativa de extermínio dos ciganos do leste da Europa pelos nazis. Ou ainda um belíssimo documentário sobre os taxistas de uma cidade sul-americana (qual?): Metal & Melancolia. Vocês viram o que eu vi?


Agora vêem-se outras coisas. Ligam a televisão por volta das 8:45 e apanham o Jornal de Domingo, da SIC, a meio. Alinhamento das notícias: na rubrica (muito boa) "Nós Por Cá...", da Conceição Lino, ficamos a saber que uma mãe de 38 anos, nascida e registada em Portugal com o nome de Nereida, não pôde dar este mesmo nome, por decisão das autoridades competentes, à filha recém-nascida (a quem, notem, foi em alternativa dado o nome de Catarina Alexandra). Entrevista com a avó da bebé: "Nereida é um nome bem português; as nereidas até vêm nos Lusíadas do Camões! Estavam no Tejo!" (na verdade, essas são as Tágides; mas também ninguém se lembrou ainda, creio, de chamar Tágide a uma filha!). Outra notícia: uma "rotunda" em Viseu. Rotunda é maneira de dizer, pois esta está "desenhada" apenas, em esforçado trabalho de calceteiro, na via. E, por isso, não recebe o devido respeito de ninguém (a não ser do senhor vice-presidente da autarquia, entrevistado na reportagem). Eis o que as imagens, entretanto, mostram: os veículos dos descendentes de Viriato a passar, a todo o momento, por cima da supra-dita "rotunda". Em marcha rápida, seguimos para outra matéria: Portugal, é verdade, foi notícia no estrangeiro. Já sabemos o que esperar, o mais certo é não ser coisa boa. Pois foi o caso: mais precisamente, a notícia, no Libération francês, foi sobre os deputados da nação que, depois de uma famosa ponte, agora reincidem, e decidiram desmarcar os trabalhos parlamentares a fim de poderem assistir, daqui a duas semanas, ao importantíssimo Portugal-México do Mundial de futebol na Alemanha. Se calhar, não é má ideia... se calhar, evita-se alguma proposta legislativa mais espúria (o Dia Nacional do Escaravelho da Batata?)... Se os deputados sabem fazer as suas contas, o que dizer dos adoradores de capicuas & outras loisas? Cá vai: a notícia que se seguiu foi sobre a próxima 3ª feira, o dia 6 do mês 6 do ano (dois mil e) 06. E sobre algumas maneiras mais estrambólicas de ler essa conjugação convencional de números formando uma data (no nosso calendário, em mais nenhum outro!). 666. O número da Besta e o fim do mundo, etc. e tal. Vocês viram o que eu vi? Bom, fim do mundo ou não, para mim chegou. Não aguentei nem mais uma gota de tamanha dose de informação & cultura clássica (ah, as Nereidas!...). E, comando na mão, resolvo-me a carregar no botão. Sabem que mais? Não podendo rever o documentário metálico & melancólico dos taxistas sul-americanos, vou reler Camões! Antes as Tágides!...

Um Arco de Sombra

(Foto de Chema Madoz)
Ontem à tarde, Feira do Livro de Lisboa. Sol fortíssimo, o ar queima. A partir de certa altura, mais do que de livros precisámos de um arco de sombra e de água fresca.

Autografia


Ontem à tarde, Feira do Livro de Lisboa. Longa fila de visitantes ordeiramente à espera. De quê? C. diz: "Deve ser o Lobo Antunes." Era. Por causa de um autógrafo. Admiro muitos escritores, mas nunca me pus numa fila por causa de um autógrafo. Qual é o valor acrescentado do livro autografado? Coisa que não alcanço... No caso de Lobo Antunes, então, parece-me que há uma dupla, e estranha, vontade de sofrer. Por parte dos leitores, os quais, não lhes chegando a verdadeira barragem de fogo de frases dos romances do autor, ainda se dão ao trabalho de se porem em filas, sob o sol inclemente de Junho, para ele rabiscar à pressa uma saudação e a assinatura. Por parte do escritor, porque de facto deve ser um aborrecimento tremendo, ano após ano, Feira após Feira, ter de rabiscar, à pressa, dezenas ou centenas de saudações-standard e assinaturas quase ilegíveis. Ossos do ofício, claro. Respeito pelos leitores, sem dúvida. Mas antes escritor maldito! Um último ponto, já agora: será possível descortinar alguma relação entre estes massacres a que um autor se sujeita e a visão das coisas do mundo que a sua obra mostra? Seria Lobo Antunes outro romancista se pudesse apenas escrever, e não tivesse que rabiscar tantos autógrafos? Um escritor mais feliz? Mais legível?

Brokeback Mountain

Nota 6.
Não achei nada de especial.
O argumento é razoável mas falta qq coisa no fim do filme.
Jake Gyllenhaal, nota 7
Heath Ledger, nota 6

3.6.06

Outras Casas & Outros Casos


Mais modesto que outros casos, tirando a parental, que foi a primeira, vou em 3 casas, número das que verdadeiramente habitei (excluo uma, que, por 9 meses, serviu mais como espaço de acampamento do que de habitação). E parece haver uma lei: na minha segunda casa, éramos dois. Na terceira, passámos a ser três. E na quarta, onde me encontro agora, somos quatro. Não sei, como ninguém sabe, o que o futuro me reserva. Mas, perante estes factos, que não me parecem meras coincidências, sinto-me obrigado a colocar uma questão algo estranha, talvez mesmo absurda: serei eu o dono do meu próprio destino? Ou limito-me a cumprir as poderosas, mas insondáveis, subterrâneas, impenetráveis, determinações & leis das casas? Ou, dito de outro modo: haverá uma quinta casa? E passaremos a ser cinco? Seremos, em suma, a fonte de inspiração de algum desenhador mais sarcástico? Como esses da imagem aí de cima?...

O Peso de Granito do Mundo

Deixamos, por um par de horas, a dupla de filhos em casa dos avós. E fazemos, como namorados livres, cheios de calor na tarde, uma pequena incursão à Feira do Livro. Passaram tão poucos, mas já parecem tantos os anos desde essa primeira vez... Levo comigo uma pequena lista, mental, de compras mas, como sempre, há um livro desconhecido à minha espera. De resto, só podia ser um livro de poesia. De amor: Qual é a Minha ou a Tua Língua? - Cem poemas de amor de outras línguas (edição Assírio & Alvim, organização de Jorge de Sousa Braga). Pouco depois, regressamos a casa, em silêncio, a tempo de recolhermos os filhos para lhes darmos de jantar. Então abro o livro e leio: "Como cariátides / os nossos braços erguidos /seguram o peso de granito do mundo // e derrotados / venceremos sempre." Versos de Miroslav Holub, poeta que desconheço por completo. Enquanto escrevo isto, os meus filhos comem na cozinha, lá ao fundo, o que a mãe lhes preparou. Massa, carne, sopa de agriões, fruta. O sol declina, o dia fica mais fresco. É o momento de fechar o livro. Agora. Alguém chama por mim, lá de dentro.

2.6.06

Fundo Negro

01. Lendo

"Todos calibram, entre si, o brilho do ébano na testa do outro. Não vêem que trazem carimbado no rosto, como uma maldição, o desenho do fruto que lhes deu berço, muitas gerações antes de terem nascido. Ou são pretos cor do açúcar, ou são pretos cor do cacau."

Pedro Rosa Mendes (com ilustrações de Alain Corbel), Lenin Oil, Dom Quixote, 2006

02. Lido

"As novas paisagens de Cannes" - a crónica de João Lopes na 6ª do DN. Entre as Imagens de Teresa Villaverde (Transe), Pedro Costa (Juventude em Marcha) e Alejandro Gonzalez Iñarritu (Babel). Com vontade de ver/aprender.

03. Segredo

Lá para o final da outra semana. Outro bairro. Sabura.

Aqui Há Gato! (um dia de cada vez)

Projecto de Resolução na Assembleia da República para o Dia Nacional do Cão

Parece-me que isto é sério. Eu vejo aqui mais um episódio da longa querela que tem oposto os Clássicos e os (Pós)Modernos. Portanto: se D. Quixote é o cavaleiro da triste figura, será Marques Mendes o paladino da pecanina figura?

O Melhor Filme de Spielberg?

Revisão da matéria dada: hoje, Auditório Municipal, plateia central, 21:30, fila H, nº 1.

Os Animais São Todos Iguais (ou uns são mais iguais do que outros?)


Público, edição de hoje, p.12: "A proposta do PSD surge na sequência da apresentação no Parlamento, no passdo dia 2, de uma petição, subscrita por 7162 pessoas, pedindo a criação do Dia Nacional do Cão." Burros de todo o país, uni-vos! Dia Nacional do Burro Já!

Proposta Cinéfila para 6 de Junho



Ão, ão, ão!

1.6.06

Quarto Com Vista Para Dentro (2)

Xanana

Não sei bem porquê mas acredito que este tipo é genuíno.
Fonte: Público

Xanana entre o povo - Presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, abraça habitantes de Díli depois de um apelo à polícia, à juventude e às autoridades locais para que colaborem na restauração da ordem. Xanana pediu também o fim das distinções étnicas no país. Foto: António Dasiparu/AP

Polaroid Cool

15:40. Avenidas Novas, Lisboa. Vidros fechados, ar condicionado, La Folie dos Stranglers na Radar, com volume generoso. A ponderar a possibilidade de fazer um trabalho sobre a agressividade ao volante, suspendo a mão da buzina, no último instante, quando o parceiro da frente tarda em arrancar ao verde do semáforo. Ajeito o retrovisor com um sorriso e trauteio, em francês.

Segredos Públicos

R. perguntou-me hoje se tenho um blogue. Quis saber porque perguntava. Disse que achava que, se eu tivesse um blogue, devia ser interessante. Revelei-lhe que tenho um, secreto, com dois amigos, "uma espécie de mesa de café". Quis saber dela. Que também tem um, secreto, com uma amiga. Acrescentou que, se algum dia o tornar público, terá que apagar alguns posts. "Que coisa adolescente, não é?" comentei a fechar o diálogo SMS.

Quarto Com Vista Para Dentro

Gosto da casa onde moro. Diz-se apartamento, não é? T3, espaçoso, sossegado, com história e muita luz. Claro que tem os seus quês (M. diz que passo a vida a queixar-me deles) mas, caramba, é um belo apartamento e, com uns toques, ficará ainda melhor! Não estou a pensar em ser-lhe infiel mas, às vezes – não consigo evitar! – fico a pensar em que é que a minha vida seria diferente se morasse numa outra casa. Por exemplo, nesta.

Quer dizer, bem sei que somos nós que fazemos as casas onde moramos mas não será possível que elas nos sintonizem os humores?

("Y" House, Catskill Mountains, New York, USA - projecto de Steven Holl)

Lembro-me de, em pequeno, ler livros de astrologia que diziam ser o Caranguejo um tipo caseiro, prezando muito a família e o seu ninho. Olho por cima do ombro e conto as casas por onde passei, desde que abandonei o ninho paterno: vou na sétima. Penso que está na altura de criar algumas raízes e regresso a uns versos de Fernando Guimarães, que anotei num pequeno caderno, há poucos anos.

“As árvores crescem agora mais depressa.
Procuram os seus frutos.”

E essa memória traz de volta outra, feita com palavras de José Tolentino Mendonça

“As casas percebem
antes de nós

que nos tornamos felizes”

Nota: encontrei as imagens da casa aqui, onde também anotei o pertinente comentário sobre alguma falta de ousadia dos arquitectos portugueses. Claro que isto não é a Amérika mas...

"The world saw evil that day"


Já podemos espreitar o mais recente filme de Oliver Stone, que há-de estrear lá mais adiante. Uma pista colhida aqui.