
(Fotografia de Seamus Murphy, de uma reportagem sobre a preparação dos atletas da Serra Leoa para os JO de Sidney.)
três velhos amigos e uma mesa de café junto à janela


Por este rio acima(Fausto)
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Uns anos depois, a cores, um duplo álbum: um disco era verde e o outro vermelho. Ian Dury e Cª (?). De caminho, Suzi Quatro, uns quantos singles, com o volume no máximo possível e as colunas, estreitas, fracotas, a chocalhar. Sim, Suzi Quatro, não perguntem como nem porquê. E ainda, os Stranglers, La Folie. La folie. E os Police. Estranho cocktail.


Jogo difícil, no qual as defesas foram mais fortes que os ataques. O meio-campo das Obrigações Familares teve no realismo a sua arma mais poderosa, embora o contra-ataque carpinejense tivesse podido resolver o desafio por duas ou três vezes. Foi já no fim que, num penalty muito duvidoso, as Obrigações Familiares conseguiram o golo que lhes deu a vitória. Encontros poéticos no final da tarde? Têm de ficar para a próxima, j...







Como é que começamos a gostar de poesia? Temos 13, 14 anos. Há dois canais televisivos, pouquíssimas horas de emissão. A preto e branco. Gostamos muito de ler (e lemos tudo o que aparece, o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos de Alves Redol, os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, contos de Manuel da Fonseca, mas também livrinhos de palmo e meio com as incríveis histórias dos pioneiros e dos pistoleiros do oeste, aventuras do Tarzan ou do Major Alvega, as revistas de fotonovelas das primas mais velhas, etc, etc). Até que, um dia, o professor (da Ponte, lembram-se?) de Português nos lê e dá a ler um poema: "De tarde", Cesário. Ou, num outro dia, surgem nas nossas mãos, em casa de um primo vadio, alguns pequenos livros, brancos, lindíssimos, de uma editora desconhecida, de um poeta desconhecido: Limiar, Eugénio de Andrade. As mãos e os Frutos. Coração do Dia. Obscuro Domínio. Folheamos. Lemos. E a Beleza (dorida, melancólica, solar, vital) rapta-nos sem alarde. A nossa pequena existência começa a mudar, tudo começa a mudar. Descobrimos, incertamente, a poesia. E a poesia fica dentro de casa, passa, num certo sentido, a ser essa casa.
Mais tarde, alguns anos depois, ouvimos Mário Viegas a dizer poemas (de Almada, de Herberto...) e nunca mais esquecemos essa voz. É essa voz, desaparecida há dez anos, que regressa agora, por intermédio do Público, através de uma colecção de uma dúzia de CD's, acompanhados com o mesmo número de livros. Saiu já o número 1 (textos de, entre outros, Jorge de Sena, O'Neill, Manuel Alegre, Vinícius de Moraes, gravados em 1972) e, na próxima 3ª-feira, sairá o número 2 (com poemas de Daniel Filipe, Vinícius e Brecht, gravações de 1969 e 1973). Reservem já no quiosque mais próximo (ou, j., no mais fiável...). Fiquem então com um dos poemas do primeiro disco; e, não podendo escutar, imaginem Gastão Cruz por Mário Viegas:
Palavras não existem
fora da nossa voz as
palavras não assistem
palavras somos nós.

Como é que começamos a gostar de poesia? Há um mistério bem claro, aqui. Um encantamento que conversa com o ritmo dos versos, com o som e o desenho das palavras, mas também com a presença da pausa, do vazio, dos espaços em branco. Um poema é um desenho habitado por imagens que se vêem a olho nu, uma mancha sobre a clareza da página que é outra forma de limpidez e lucidez. Na poesia, na grande poesia, muito escapa ao nosso entendimento, mas nem por isso deixamos de aprender. Somos desafiados a desaprender, a olhar de novo o que somos, o que existe para além de nós. Um poema confronta-nos com a nossa nudez. E com a nossa mudez. E, por dentro, faz-nos murmurar alguma coisa que não sabemos bem o que é, sílabas de uma linguagem que rasa o desconhecido.
Wislawa Szymborska nasceu em 1923. Em Kornik, próximo de Poznan, na Polónia. A partir dos oito anos passou a viver com os pais em Cracóvia. Estudou literatura polaca e sociologia na Universidade Jaguellonica. Em 1945, no meio dos destroços, publicou um primeiro poema: "Busco a palavra". Não escreveu muito, mas o que escreveu é suficiente para a guindar aos mais altos patamares da poesia europeia dos nossos tempos. Os seus poemas partem muitas vezes de apontamentos existenciais, não raras vezes irónicos, aproveitados para problematizar as relações do homem consigo e com os outros; com as suas experiências quotidianas, mais ou menos trágicas; com a natureza; com a história e o seu absurdo normalizado. Em Portugal, são do meu conhecimento os seguintes livros de poesia da autora (dos quais retirei os elementos bio-bibliográficos supra-referidos):
Paisagem Com Grão de Areia, tradução de Júlio Sousa Gomes, Relógio d'Água, Lisboa, 1998;
Alguns Gostam de Poesia (em conjunto com poemas de Czeslaw Milosz), tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2004;
Instante, tradução (também) de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.
Deste último livro transcrevo, na forma de diálogo aberto com o post de hoje de j. sobre a memória (e pedindo compreensão pela minha incapacidade de manter as suas separações estróficas), o poema "Fotografia de 11 de Setembro"(p. 71). Outra forma de dar a "ouver o esqueleto da tragédia":
Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.
Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.
K. não leste os meus posts todos pois não? Senão tinhas visto isto q escrevi:
Falta 1 ?
Martin Scorsese, ao telefone. "Are you talking to me?"
"O teatro é o começo, o fim, é tudo, enquanto o cinema pertence ao âmbito da prostituição."
Ingmar Bergman
