13.4.06

Faina de treino


Salta o mais alto que puderes, enquanto eles puxam as redes. Salta, cheio de esperança. Acredita que podes ganhar asas. E peixes.

(Fotografia de Seamus Murphy, de uma reportagem sobre a preparação dos atletas da Serra Leoa para os JO de Sidney.)

Discos marcantes (um português)



Lembro-me de um piquenique num pinhal. A minha professora de filosofia dançava, com os pés sacudindo caruma. Uma lição de alegria.
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
(Fausto)

12.4.06

STRANGLERS SIM!

Discos marcantes (revisão da matéria dada)

Escola primária. Um gira-discos na sala lá de casa. Poucos discos, do pai. Dois singles, pretos, de negros: Louis Armstrong e Ray Charles. Três maiores, de capas brancas: Bizet, Corelli e Tchaikovsky. Deste último, a Bela Adormecida, vezes sem conta. Havia um andamento que arrepiava mas eram uns arrepios bons. Regresso agora a esse arrepio e tudo à volta, numa versão da Orquestra Nacional Russa dirigida por Mikhail Pletnev.

Uns anos depois, a cores, um duplo álbum: um disco era verde e o outro vermelho. Ian Dury e Cª (?). De caminho, Suzi Quatro, uns quantos singles, com o volume no máximo possível e as colunas, estreitas, fracotas, a chocalhar. Sim, Suzi Quatro, não perguntem como nem porquê. E ainda, os Stranglers, La Folie. La folie. E os Police. Estranho cocktail.


Rapidinha no país profundo

- Boa tarde, minha senhora! Para Alvares, vou bem por aqui?
- Segue sempre por aqui abaixo, até Picha. Depois de Venda da Gaita, corta à esquerda.
- Picha, Venda da Gaita, esquerda...
- Exactamente.
- Muito obrigado e boa Páscoa.
- Uma boa Páscoa também para o senhor.

Lourenço Não é Nome de Jogral


Foi um dos meus amigos de bairro. Dos 12 aos 15 jogámos futebol muitas vezes, por todo o lado. Na rua, no parque, na Praia da Velha. Ao sol e à chuva. Era um esquerdino prometedor, o último de quatro filhos de uma família onde não abundava a riqueza.
As minhas melhores memórias dele vêm desse tempo: dos jogos de bola de rua "até aos 10" ("muda aos 5"), das trocas de cromos dos grandes jogadores do Benfica desses dias (Humberto, Alves, Toni, Pietra, Chalana, muitos outros), das revistas de BD baratas, dos campeonatos de caricas...
Colegas de turma fomos, por poucos meses, no 8º ano. Depois, inexplicavelmente (para mim e para os outros 3 ou 4 mais próximos), deixou a escola, a meio desse ano, e foi trabalhar. Com um dos irmãos, a cortar mármore.
A coisa correu, parecia, normalmente, até à idade de ir à tropa: de quando em quando íamos juntos ao cinema (Flash Gordon, Rambo, ah saudoso cinema S. Vicente!, o nosso Cinema Paraíso!); por vezes, também, à bola, ver o clube da terra. Mas os nossos mundos estavam a evoluir em órbitas cada vez mais distantes. Ele, com uma experiência de trabalho duro, ao lado de homens duros, com uma linguagem dura. Nós, e só por mim posso falar, a descobrir tudo por via dos livros e dos filmes (e já não o Flash Gordon ou o Rambo...), embora também eu tenha tido as minhas doses anuais de trabalho duro (nas obras, nas férias de Verão).
Mas o afastamento era notório, gradualmente mais evidente. O quase corte veio com o alistamento dele no exército. Eu, um mês mais novo, usei o meu direito de adiamento por motivos de prosseguimento de estudos. Ele foi lá fazer-se um homem. E, como aconteceu com muitos, ele, que nunca tocara num cigarro nem era dos que mais bebia nas festas de garagem ou de fim-de-ano, veio de lá com o cardápio todo aprendido: claro, os cigarros; mas, sobretudo, o álcool e as drogas. As leves e as outras.
Ainda manteve a namorada de antes da tropa por uns tempos. O inevitável, porém, aconteceu. E a relação teve de terminar, já depois da rapariga ter começado também a sair dos carris. Os pais dela puseram fim ao namoro e isso ajudou, e de que maneira, à descida que continua ainda, sem parar. Mais tarde, relacionou-se com uma mulher mais velha com quem acabou por ter uma filha. Agora, não sei nada dessa relação. Mas há muito que os não vejo juntos...
É talvez necessário dizer, neste momento, que raramente me cruzo com ele. E que, quando tal acontece, habitualmente eu vou de carro e aceno-lhe em jeito de cumprimento. Ele anda a pé. Sempre. Esta circunstância (eu de carro, ele a pé) é o pretexto deste texto, que eu preferia não escrever. E foi assim, vindo de carro, que eu o vi mais uma vez. E foi sem parar o carro que eu coloquei, a mim mesmo, a questão que paira sobre este texto. E a questão é, como calculam, esta - até onde pode descer um homem quando começa a descer?
Ele, neste momento, está no ponto da descida em que arruma carros no descampado em frente ao antigo Tribunal e no ponto em se dobra para dentro dos caixotes de lixo à procura de alguma coisa que valha a pena (vender? comer? ambas?). Foi isso que eu vi. Duas vezes. Sim, duas vezes. Tem hoje 38 anos. Tem uma filha um pouco mais nova que o meu filho mais velho (está com a mãe? com os avós?). E dobra-se para dentro daqueles contentores de lixo verde que estão na rua para receber tudo aquilo que nós não queremos. É aí que ele mete as mãos. Lá dentro. E dobra-se. Lá para dentro. Olha. Remexe. Junta. Separa. E tira de lá partes daquilo que nós deitámos fora. Restos de comida. Cascas de batatas. Ossos. Espinhas. Sacos de plástico engordurado. Mil e uma porcarias. Tudo o que nós não queremos ver mais à frente dos olhos. Ele enfia lá, bem no fundo daquilo, os olhos dele. E as mãos dele. E a dignidade dele.
Passei, então, de carro. Ele está naquilo, dobrado para dentro. Eu vejo e passo de carro. Podia parar e falar com ele. Perguntar-lhe o que anda a fazer. Mas só isto, esta ideia de parar e de lhe falar, é já uma humilhação. Para ele. E para mim. Pelo menos, é como eu o sinto. Por isso, não páro o carro, pelo contrário, avanço até à praceta onde moro, não muito longe do local onde o vi a remexer o lixo. Estaciono, respiro fundo, saio, tranco o carro. Subo a casa e conto o que vi à minha mulher. E escrevo este texto. Enquanto o meu amigo de outros tempos remexe no lixo.
Escrevo este texto, e o sentimento de vergonha não diminui.
Sim, escrevo este texto que preferia não ter escrito.
(Nota: Lourenço é Nome de Jogral é o título de um romance de Fernanda Botelho, publicado em 1971).

Cobain

Murphy

Ian

(meu) Top U2

Top Albuns:

A ordem dos albuns não me ofereceu qualquer dúvida ...

1 - Boy
2 - Achtung baby
3 - War
4 - How to dismantle an atomic bomb
5 - The Joshua tree
6 - Zooropa
7 - October
8 - The unforgettable fire
9 - Pop
10 - All that you can’t leave behind
12- Rattle and hum

Quanto às músicas já não pude fazer uma lista ordenada ... Gosto muito de certas músicas ... ao mesmo nível ... fiz "apenas" uma lista não ordenada ...

New Year's Day
Sunday Bloody Sunday
Who's Gonna Ride Your Wild Horses
“40”
I Will Follow
Av Cat Dubh
Into The Heart
The Fly
Original Of The Species
Mysterious Ways
Ultraviolet (Light My Way)
Numb
Stay (Faraway, So Close!)
The Wanderer
Gloria
Vertigo
With Or Without You
Where The Streets Have No Name
The Unforgettable Fire
Desire
Surrender
A Day Without Me

Obrigações Familiares 1 - Carpinejar 0

Jogo difícil, no qual as defesas foram mais fortes que os ataques. O meio-campo das Obrigações Familares teve no realismo a sua arma mais poderosa, embora o contra-ataque carpinejense tivesse podido resolver o desafio por duas ou três vezes. Foi já no fim que, num penalty muito duvidoso, as Obrigações Familiares conseguiram o golo que lhes deu a vitória. Encontros poéticos no final da tarde? Têm de ficar para a próxima, j...

11.4.06

Bloco-de-notas


Enrique Vila-Matas, numa crónica sobre Chet Baker:

"A vida é como um bom poema: corre sempre o risco de carecer de sentido, mas nada seria sem esse risco."

(in Da Cidade Nervosa, tradução de António Rebordão Navarro, Campo das Letras, Porto, 2006, p. 132).

Thirtysomething...


Há uns anos, faziamo-lo no quarto dela, às escondidas dos pais ou dos avós que, habitualmente, viam a telenovela na sala de estar ao lado. Agora fazemo-lo no quarto, às escondidas dos filhos que, normalmente, vêem na sala o Disney Channel. Mudam-se os tempos, mas o amor é fogo que arde sem mais ninguém ver...

9 albuns da minha vida ...

Os 10 álbuns da (vossa) vida

Então pb? Então j? Vá lá, dêem-me música...

Fui eu ...

Se não gostarem podem sempre ir aos settings e mudar ... o outro por acaso já me estava a enjoar um pouquito ... ;-)

Cinefilia 15


Pura Série B. Uma história de violência. Um fim-de-semana alucinante. No Sábado, a polícia mata seis membros de um gang de Los Angeles. No Domingo, os líderes do gang procuram exercer vingança sobre: três condenados à morte, meia dúzia de polícias, duas mulheres e um pai em estado de choque por lhe terem assassinado a filha. São estes que se vêem, inesperadamente, todos juntos, a lutar contra os maus. Cercados e encurralados no meio da cidade, dentro de uma esquadra de polícia. Eis o esquálido argumento do segundo filme (1976) de John Carpenter, que produz, realiza e é o autor da incisiva banda sonora minimal repetitiva. Uma espécie de western paranóico (sem cowboys, nem heróis) sobre a sociedade americana, cercada e encurralada dentro (a violência das grandes cidades) e fora (Vietname). Rever para crer.

10.4.06

Os 10 álbuns da (nossa) vida: 7 / 10

The Wall, Pink Floyd (1979).
O critério de escolha é o mais simples: os discos que marcaram mais a fundo a minha descoberta da música, de mim próprio e das coisas à minha volta. Não são os melhores discos de música, são os discos da minha vida, aqueles que lhe têm servido de banda sonora. Não por acaso, a escolha incidiu, da minha parte, quase só em discos que ouvi na adolescência, fase de formação na qual tudo nos aparece repentinamente e é vivido de forma intensa e irrepetível. É por isso que, tendo escutado depois música tão boa como aquela desse tempo (os 70 e os 80), é a essa que regresso para a afirmar como a música da minha vida. Discos ouvidos até à exaustão em casas de amigos mais abonados e sortudos do que eu, discos gravados em cassetes que eu ouvia no quarto, sozinho, às escuras muitas vezes, num pequeno gravador roufenho mas precioso por ser o único lá em casa. The Wall foi um desses discos, e um dos mais importantes (o outro foi o dos Dexy's, o primeiro desta lista). Comecei, como todos os putos com 12 anos na altura, por Another Brick In The Wall, cantado mais ou menos em Inglês nos corredores da Paulo da Gama. Depois, um pouco mais tarde, um dos tais amigos arranjou miraculosamente o (duplo) álbum. Foram, então, muitas as tardes a ouvir Mother, Don't Leave Me Now, Hei you e todas as outras faixas que permitiram dar forma a um vago anseio de revolta (sobretudo, contra a escola) que, como "chavalos" que éramos, sentíamos de forma difusa, facto a que não era alheio o clima pós-revolucionário da época. Se Dark Side of The Moon pode ser considerado a masterpiece dos Pink Floyd, The Wall é o seu disco da minha vida. "Is there anybody out there?..."

Os 10 álbuns: dois contributos (dos anos 70!)

Faltou-me mais música na adolescência, reconheço-o hoje. Podiam ter-se aberto outras portas, a julgar por este exemplo, que marcou algumas tardes e serões e uma paixão impossível, de olhos azuis:



Alguns (bons) anos depois, a hipnose acontece, puro improviso:

Os 10 álbuns da (nossa) vida: 4 / 10

Achtung Baby, U2 (1991).
Houve em mim, recordando agora as peripécias de um certo Verão a Sul na minha adolescência, uma perigosa inclinação para escolher um disco considerado menor na obra da banda rock da minha vida (sou assim, penso que seria bom que fossem aceitando o facto...): Under a Blood Red Sky. Mas, tendo de escolher, opto sem mais dúvidas pelo álbum de Berlim, dois anos depois da queda do Muro, cinco anos antes de eu aí ter passado 15 dias de puro fascínio por uma cidade que espero revisitar um destes anos (o próximo?). Disco de canções inesquecíveis, poderosas, complexas, que são também afirmações políticas num meio - o musical - que vive da superficialidade e da frivolidade que, simultaneamente, Bono encarna e caricaturiza. No entanto, o melhor do disco são as canções de amor: One (ainda me lembro da primeira vez que, em casa dos meus pais, estarrecido, vi/ouvi o vídeo-clip, a preto e branco, com os bisontes a correr em câmara lenta na pradaria e o "1" a aparecer em múltiplas línguas), So Cruel, Love Is Blindness... Sim, cuidado, baby. Porque o amor é cego.

topqualquercoisa

topqualquercoisarelacionadocommusica
eumdosmeusalbunspreferidos, umasdas
melhoresbandasdaactualidade ...

Os 10 álbuns da (nossa) vida: 2 / 10

Venham Mais Cinco, José Afonso (1973)
Um pouco antes da Liberdade chegar, Zeca (com José Mário Branco) acrescentou mais um disco incontornável na história da música portuguesa do século XX. Talvez não seja o melhor: os especialistas consideram Cantigas do Maio, de 71, o ponto mais elevado da cordilheira. Mas, para mim, este foi, por razões pessoais, o disco de José Afonso que me marcou mais íntima e profundamente. Todo o disco é excelente, mas há duas canções que roçam a perfeição: "Era um redondo vocábulo" e "Que amor não me engana". Não, não me engana.

Os 10 álbuns da (nossa) vida

To-Rye-Ay, Dexy's Midnight Runners (1982).
(Soul, ironia, jardineiras, dança, sopros, metais, palavras, paixão, namoros, descobertas, esplendor: anos 80)
Aceitam o desafio? Vamos a isso...

Voltando à beata fria

É uma questão de honestidade intelectual. Admito que VPV estivesse distraído ou mal informado quando escreveu que "a ideia de que o fumo passivo faz mal a alguém é exagerada". Distrações e faltas de informação acontecem a toda a gente. Desonestidade intelectual é outra conversa. Esta notícia só vem confirmar aquilo que muitos outros estudos já tinham provado.

Poesia Falada


Há poetas que sabem escrever, mas não sabem falar. Escrevem criando espanto, angústia, alvoroço, ternura, entendimento, dúvida. Sobre vidas, experiências, coisas, nós. Mas não sabem falar. Gaguejam. Falham. O que dizem é vulgar, rotineiro. Desconcentram-se, perdem o fio. Por isso, muitos guardam para si a sua oralidade. Recusam entrevistas. Não aceitam conversar em público. Escusam-se a encontros com outros escritores. Limitam ao máximo as suas intervenções em espaço aberto. Vivem para escrever, escrevem para viver. De resto, preferem calar-se, defendem, com determinação, o direito ao silêncio.

É, por isso, espantosa (para mim) a entrevista dada pelo poeta brasileiro Carpinejar a Ana Marques Gastão e publicada no suplemento do Diário de Notícias da última 6ª-feira (7 de Abril). Em Lisboa, o poeta vem lançar a sua antologia de poesia Caixa de Sapatos, editada pela Quasi, e responde às perguntas da entrevistadora de forma assombrosa. É verdade: Carpinejar faz poesia falada, ou melhor, faz poesia falando, conversando, dialogando. Seria possível, parece-me, extrair poemas inteiros das suas respostas (e, quem sabe, talvez o poeta o venha a fazer...), tão expressivas elas são. Eis dois exemplos (com proposta de versificação minha; abusiva, claro, mas espero que desculpável, pois trata-se de mostrar o valor plástico das respostas do autor):

"(...)
Preparei uma caixa de sapatos com os meus poemas.
Meus versos são como cadarços de uma árvore.
Cadarços que foram balanços de alguma menina,
balanços de algum ouvido mais atento na janela.

Eu sou minhas ruínas.
Minhas ruínas têm telhado de ervas.
Não escolho o lugar, o lugar me escolhe.
Cresço em qualquer solo.
Especialmente na boca de um pássaro."

ou
"(...)
O poeta não é o que fala, mas o que escuta errado.
Ele escuta o batimento, não a voz.
Ele escuta o tombo, não o voo.
Ele escuta a alma das coisas antes do corpo sonoro.
A precipitação, não a consequência.
Eu exercito o anonimato. Eu me antecipo.
Não há como fazer o fogo recuar."

A entrevista está cheia de outros fragmentos do mesmo calibre. Melhor do que muitos escrevem e publicam em livro. Mas, sendo uma entrevista, não sei até que ponto Ana Marques Gastão, também ela poeta, será co-responsável pela qualidade do texto apresentado aos leitores do . De qualquer modo, trata-se de uma entrevista magnífica. Para ler. E reler. Que cria vontade de ver e ouvir o poeta, ao vivo e em directo. Passem, então, no dia 12 (próxima 4ª-feira), na FNAC do Chiado. Às 18.30. Se Carpinejar estiver inspirado haverá, de certeza, belos versos para dar as boas-vindas ao fim de tarde lisboeta.

O que é o amor?



Uma imagem leva a outra: visto ontem à noite. Muito bem tecidas as três histórias, num belo argumento. Algumas óptimas interpretações. Um bom exemplo de que há (também no cinema) muito mundo para além da América e da Europa.

CRASH!


Crash! Nota 9!

9.4.06

"Palavras não existem"



Como é que começamos a gostar de poesia? Temos 13, 14 anos. Há dois canais televisivos, pouquíssimas horas de emissão. A preto e branco. Gostamos muito de ler (e lemos tudo o que aparece, o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos de Alves Redol, os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, contos de Manuel da Fonseca, mas também livrinhos de palmo e meio com as incríveis histórias dos pioneiros e dos pistoleiros do oeste, aventuras do Tarzan ou do Major Alvega, as revistas de fotonovelas das primas mais velhas, etc, etc). Até que, um dia, o professor (da Ponte, lembram-se?) de Português nos lê e dá a ler um poema: "De tarde", Cesário. Ou, num outro dia, surgem nas nossas mãos, em casa de um primo vadio, alguns pequenos livros, brancos, lindíssimos, de uma editora desconhecida, de um poeta desconhecido: Limiar, Eugénio de Andrade. As mãos e os Frutos. Coração do Dia. Obscuro Domínio. Folheamos. Lemos. E a Beleza (dorida, melancólica, solar, vital) rapta-nos sem alarde. A nossa pequena existência começa a mudar, tudo começa a mudar. Descobrimos, incertamente, a poesia. E a poesia fica dentro de casa, passa, num certo sentido, a ser essa casa.

Mais tarde, alguns anos depois, ouvimos Mário Viegas a dizer poemas (de Almada, de Herberto...) e nunca mais esquecemos essa voz. É essa voz, desaparecida há dez anos, que regressa agora, por intermédio do Público, através de uma colecção de uma dúzia de CD's, acompanhados com o mesmo número de livros. Saiu já o número 1 (textos de, entre outros, Jorge de Sena, O'Neill, Manuel Alegre, Vinícius de Moraes, gravados em 1972) e, na próxima 3ª-feira, sairá o número 2 (com poemas de Daniel Filipe, Vinícius e Brecht, gravações de 1969 e 1973). Reservem já no quiosque mais próximo (ou, j., no mais fiável...). Fiquem então com um dos poemas do primeiro disco; e, não podendo escutar, imaginem Gastão Cruz por Mário Viegas:

Palavras não existem

fora da nossa voz as

palavras não assistem

palavras somos nós.

O Esqueleto da Tragédia



Como é que começamos a gostar de poesia? Há um mistério bem claro, aqui. Um encantamento que conversa com o ritmo dos versos, com o som e o desenho das palavras, mas também com a presença da pausa, do vazio, dos espaços em branco. Um poema é um desenho habitado por imagens que se vêem a olho nu, uma mancha sobre a clareza da página que é outra forma de limpidez e lucidez. Na poesia, na grande poesia, muito escapa ao nosso entendimento, mas nem por isso deixamos de aprender. Somos desafiados a desaprender, a olhar de novo o que somos, o que existe para além de nós. Um poema confronta-nos com a nossa nudez. E com a nossa mudez. E, por dentro, faz-nos murmurar alguma coisa que não sabemos bem o que é, sílabas de uma linguagem que rasa o desconhecido.

Wislawa Szymborska nasceu em 1923. Em Kornik, próximo de Poznan, na Polónia. A partir dos oito anos passou a viver com os pais em Cracóvia. Estudou literatura polaca e sociologia na Universidade Jaguellonica. Em 1945, no meio dos destroços, publicou um primeiro poema: "Busco a palavra". Não escreveu muito, mas o que escreveu é suficiente para a guindar aos mais altos patamares da poesia europeia dos nossos tempos. Os seus poemas partem muitas vezes de apontamentos existenciais, não raras vezes irónicos, aproveitados para problematizar as relações do homem consigo e com os outros; com as suas experiências quotidianas, mais ou menos trágicas; com a natureza; com a história e o seu absurdo normalizado. Em Portugal, são do meu conhecimento os seguintes livros de poesia da autora (dos quais retirei os elementos bio-bibliográficos supra-referidos):

Paisagem Com Grão de Areia, tradução de Júlio Sousa Gomes, Relógio d'Água, Lisboa, 1998;

Alguns Gostam de Poesia (em conjunto com poemas de Czeslaw Milosz), tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2004;

Instante, tradução (também) de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.

Deste último livro transcrevo, na forma de diálogo aberto com o post de hoje de j. sobre a memória (e pedindo compreensão pela minha incapacidade de manter as suas separações estróficas), o poema "Fotografia de 11 de Setembro"(p. 71). Outra forma de dar a "ouver o esqueleto da tragédia":

Atiraram-se dos andares em chamas.

Um, dois, ainda alguns,

mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida

e agora preserva-os

sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra,

com rosto individual

e sangue bem guardado.

Ainda há tempo

para os cabelos esvoaçarem

e do bolso caírem

chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,

no âmbito dos lugares

que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:

descrever este voo

e não acrescentar a última frase.

Desfragmentar a memória

Dizem que faz bem ao computador, de vez em quando. Será que podemos fazer o mesmo? Enter. Jornal Público, página 35: um artigo sobre os preparativos para o Campeonato Mundial da Memória, que se vai realizar em Setembro, na Malásia. "É possível aprender a recordar melhor" explica, na mesma página, uma especialista portuguesa. Enter. Já visionei as "11 Perspectivas". Um empate: a proposta de Sean Penn convence pela história tocante, contada com uma mestria clássica, mas a de Alejandro Iñarritu esmaga pelo arrojo com que dá a ouver o esqueleto da tragédia. Citado nos créditos finais da curta do mexicano, The Sonic Memorial Project, produzido pela NPR, vale bem uma visita demorada. Escape.

8.4.06

Dos benefícios do tabaco 4 (ou dos malefícios da literatura)

Da Cidade Nervosa é o livro de crónicas de Enrique Vila-Matas que ando, com muito gosto, a ler.
A primeira das suas frases é: "Fui a Chicago para deixar de fumar". A partir daqui é sempre a abrir, ou, se preferirem, sempre a queimar. Cigarros atrás de cigarros. Literatura maldita? Apenas duas citações, para aquecer o ambiente:

"No mesmo dia em que chegámos, fomos jantar ao Miller's Bar - um tugúrio mítico por ter contado com Humphrey Bogart e Franck Sinatra entre a sua mais entusiástica clientela -, onde alguém se torna espantosamente rídiculo se não fuma."(p. 10)

"E assim, quando acendemos um cigarro ao encontrarmo-nos com um amigo, estamos a acender o fogo sagrado da amizade ou tentando reavivar o ancestral fogo das fogueiras em torno das quais sempre se sentaram os homens para contar as suas histórias."(p. 122)

(Enrique Vila-Matas, Da Cidade Nervosa, Campo das Letras, tradução de António Rebordão Navarro, Porto, 2006)

LABREGUICE ... apesar de não me surpreender vindo de quem vem ...

Ovo (fotografia, p/b, autor desconhecido)

Faz a prova e atira as palavras ao mar. Algumas flutuam, como um ovo. Outras vão ao fundo, como um ovo. Enche os pulmões de ar e mergulha tu a seguir, atrás dessas que se dirigem para o fundo. Agarra-as bem, com as mãos, os dentes, as pernas, tanto faz, mas antes de lá chegarem. Depois trá-las à superfície, a essas que pesam. Estende-as na areia do teu quarto, sob a luz mortiça do tecto. E quebra-lhes a casca, como a um ovo. Usa a clara e a gema. Mistura-as como se fossem um único contorno. É o teu trabalho, a hora nocturna. Uma celebração mínima e assombrosa do que vive e, depois de tudo, continuará a viver.

Reunião de Condomínio

Quando o condómino do Rés-do-Chão frente pediu autorização para instalar uma antena parabólica na sua casa, o condómino do 2º direito referiu a necessidade que tinha de colocar um aparelho de ar condicionado na empena do prédio. Quando o condómino do 1º direito falou do problema da evacuação dos fumos e dos gases da combustão da sua lareira, o condómino do 2º frente apontou a urgência de concluir a instalação dos telhados falsos das arrecadações. Quando o condómino do 3º esquerdo reclamou por considerar que a limpeza das escadas era deficiente ao nível do seu piso, a condómina do Rés-do-Chão direito mencionou o facto de muitas vezes a porta da rua ficar aberta durante a noite. Quando o condómino do 1º esquerdo lembrou que a rampa de acesso às garagens tinha cedido, sendo urgente uma rápida resolução do problema, o condómino do 3º direito achou por bem levantar a questão da melhor aplicação dos fundos de maneio do condomínio. Tudo isto foi discutido. Debatido em pormenor. Até que o condómino a exercer as altas funções de administrador decidiu dar por finda a supra-citada, sem que alguma decisão tivesse sido verdadeiramente tomada. Aprovadas as contas e escolhida nova administração previamente, os condóminos regressaram, então, aos respectivos condomínios. Com a sensação do dever cumprido. Mas com algumas dúvidas a escarafunchar os espíritos: o vizinho do Rés-do-Chão frente percebeu, sem margem para dúvidas, que não deve instalar a parabólica?... E o do 2º direito não vai instalar o aparelho de ar condicionado, pois não? E o do 1º direito... e quanto à questão das arrecadações... e... Boa noite, vizinho. E boa sorte!

7.4.06

Marítima (fotografia, p/b, autor anónimo)

Antes de adormecer encosta o ouvido à noite e escuta os lençóis de água que correm debaixo dos seus pés. São esses lençóis que o aquecem no Inverno, que o refrescam no Verão. Depois adormece, pressentindo a velocidade do petroleiro a diminuir. Quando acorda descobre-se em alto mar, o vento bate de lado, de noroeste, pelo que desapareceram todos os sinais de terra. "Pareço um foragido", diz ele. E estas palavras são levadas com estrondo pelo casco que, nesse momento, embate, como aço feito de aço, no fundo de uma caixa negra. "É absurdo pensá-lo, é uma arte esquecida..." Diz estas palavras uma vez. E não as repete. Nenhuma coisa se repete, nenhuma palavra. Porque ninguém está ali para o ouvir. Ninguém encosta o ouvido à noite antes de adormecer. Na verdade, embora pareça o contrário, ninguém, em tempo algum, adormece. E a velocidade do petroleiro não diminui. As luzes das estrelas é que criam a ilusão da água a correr debaixo dos pés. Os mais Sábios a isso chamam Tempo. E depois deitam-se nos beliches, porque sabem esperar. É essa a sua Sabedoria. Levantam-se e põem-se a caminho. Levados pelo vento. Que bate de lado, de noroeste. Até que tudo cessa. Então tudo cessa. Ele, o vento, o petroleiro, os lençóis de água, tudo cessa. Esse é o momento perdido para sempre. Cada momento que se divide num outro momento, e num outro momento, perdido para sempre. É o que ele diz: "Perdido para sempre...". O momento que não pára de cessar quando tudo cessa. E os sinais disso por todo o lado.

Assim está bem ...

Movimento & Repouso (fotografia, a cores)

A força de uma árvore é menor que a força do mar. Mas o mar não tem raízes que o liguem à terra.

Chumbo (fotografia, p/b)

Certas palavras pesam tanto que, em lugar de as escrever, é preferível carregar aos ombros várias toneladas de pedras.

Cabos de Alta Tensão (fotografia, p/b)

O pensamento é pura electricidade estática atravessando, por cima de ti, o céu aberto.

Porta aberta, entrem se faz favor ...

Abaixo os equívocos ...

Closed (?)

6.4.06

Puf Puf Bang Bang

Uma excelente notícia. Mas cheira-me que os lóbis pró smoke ainda têm uma palavra a dizer.

Gustavo Santaolalla

Gustavo Santaolalla

Silêncio pode ser isto?

Silêncio

O silêncio.
Por vezes aprecio muito o silêncio.
Dá para nos ouvirmos a nós próprios ... acho eu ...
Escrevo isto sem qualquer pretensão poética ...
Eu sinto mesmo isso ...

sem título 9



(desejo sobre fotografia de M.)

Silêncio

Gosto deste quase silêncio da manhã cedo, com cheiro e sabor a café fresco. O adagio da chuva e o allegro do sol anunciam-se, descompassados, pela janela. Mais um gole de café, antes de recomeçar o trabalho. O correio electrónico, um ou dois blogs, em silêncio, quase silêncio agora que passa um carro na rua e se cruzam algumas vozes, lá em baixo no passeio. E se as pessoas se calassem acerca das coisas verdadeiras, que noite revelariam?

4.4.06

Se não posso comentar posso ao menos perguntar?

"Por mim tudo bem. / Já esqueci nem me quero chatear com ninguem por causa disto."

Mas esquecer o quê? Mas chatear com o quê? E porquê? Já não é possível questionar ou comentar aquilo que cada um diz / propõe neste blogue? Onde está o motivo para te chateares com alguém? O que é que deve ser esquecido? As tuas propostas não podem ser reflectidas por mim? Porquê? Não posso questionar a sua consciente e/ou inconsciente espontaneidade sem te sentires ofendido pessoalmente? Ou ofendi-te? Achas que foi isso que procurei fazer? Em que momento? Como? Alguma coisa está a escapar-me? Devia estar calado e não fazer mais perguntas?

Top 10 melhores realizadores

Por mim tudo bem.
Já esqueci nem me quero chatear com ninguem por causa disto.
Ninguem coloca em causa o virtuosismo ou não dos comentários de K sobre os filmes e sobre os realizadores ... quem sou eu para o fazer ... eu não o faço, não tenho dom da escrita. A minha ideia do Top não era uma coisa hiper intelectuazada ... era algo tão simples como uma lista ... espontânea ... ab

Fitas

Os meninos querem fazer o favor de ter maneiras ao blogue?
Se a um lhe apetece aprofundar (com virtuosismo) a conversa,
não vem mal ao mundo e não será caso para caixa alta.
E a caixa alta, que entretanto passou a baixa(!), também
não será caso para dar por finda a saga, não é?

Um blogue é apenas um blogue, um blogue, caramba!

Décima terceira impressão

The End!

Poder de síntese

Complicação desgraçada por causa de uma lista. Não tenho capacidade nem tempo para tentar argumentar seja o q fôr em relação à lista de realizadores. Era uma pequena brincadeira ... Não mais do q uma conversa de café ... Mas tu fazes disto o fim do mundo ... Uma lista. Um pedacinho de papel ... Não sou entendido em cinema nem nada que o pareça ... fica bem ...

Décima primeira e décima segunda impressões

Décima primeira impressão: da leitura dos posts e da continuação da lista. Sim, li todos os teus posts. E li a tua segunda lista. Mas esse é, de facto, o centro da questão: trata-se de uma segunda lista, que aparece quase no fim da primeira (faltava um nome; muito bem escolhido pelo j., faça-se-lhe justiça). Mas é uma segunda lista, cronológica e cinematograficamente falando. Não tem a dimensão da primeira. Para qualquer um de nós, parece-me (se me for permitido aqui o uso deste "nós"). Nem Spielberg, nem Boorman, nem Lee estão na primeira lista, e tal não é um acaso. Mas o problema também não é esse, porque, na verdade, o gozo não está em ir acrescentando nomes à lista. O gozo é escolher, afirmar, tomar partido, pensar os motivos de uma escolha. Qual é o gozo de uma listagem que só termina quando já não nos lembramos de mais nenhum nome? O gozo não é, precisamente, propor Kubrick ou Ford em vez de Spielberg ou Lee? De contrário, toda a gente entra, vale tudo o mesmo, anything goes. Mas vale tudo o mesmo? Não, de facto, não vale, como ambos sabemos. Sem dogmatismos. Sem sectarismos. Mas dizendo claramente que Kubrick é um fazedor de filmes muito mais interessante, para mim (e presumo que para ti) que, desculpa, John Boorman ou o Ang Lee (cujo melhor filme, no meu modesto entendimento, é A Tempestade de Gelo e não O Segredo de...). Pelo menos, até ver!

Décima segunda impressão: das listas de realizadores e das listas de filmes. Sim, Spielberg não está. Nem poderia estar, pois eu não o colocaria na minha lista dos dez melhores realizadores. Mas estamos a falar de realizadores, ou seja, de nomes que apontam para uma obra, que são o nome dessa obra. E a obra de Spielberg é demasiado juvenil para o meu gosto, para o melhor e para o pior. Por exemplo, ET é um filme maravilhoso, mas A Guerra dos Mundos é um filme completamente tonto. Não, Spielberg não. No entanto, se a listagem tivesse sido de filmes e não de nomes (obras), posso dizer-te que, pelo menos, AI - Inteligência Artificial seria um dos meus dez filmes (e talvez Munique; mas preciso de o rever para confirmar a impressão). É que há diferenças fundamentais entre um filme e uma obra - um mau realizador pode criar um filme magnífico, mas nunca criará uma obra magnífica. Tal como um Mestre também falha (faz filmes assim-assim ou, até, por vezes, maus filmes), mas essas falhas são aproveitadas no desenvolvimento da própria obra, servem para a engrandecer (exemplo: Coppola fez Os Marginais e, logo depois, Rumblle Fish, um passo mais alto, mais à frente). Em suma, uma lista de filmes é uma lista de filmes é uma lista de filmes. A minha incluiria, por exemplo, filmes como Shoah, de um francês de que nem me lembro bem o nome (8 ou 9 horas sobre Auschwitz). Ou Vem e Vê!, de E. Klimov, um filme que vi há muito anos no Segundo Canal e que nunca mais esqueci. Ou Down by Law do Jarmush... Uma lista é apenas uma lista?

Top 10 melhores realizadores

K. não leste os meus posts todos pois não? Senão tinhas visto isto q escrevi:

E o David Fincher, Emir Kusturica, David Lynch, Otto Preminger, David Lean, Steven Spielberg (então K???), Manos Cohen, Mike Leigh, Stephen Frears, John Boorman, Ang Lee ... nunca mais acabava ...

Top 10 melhores realizadores (primeiras dez impressões)

Primeira impressão: a ideia de fazer a lista. Interessante e desafiadora, a ideia. E a lista. Mas é curioso que, depois de a propores, pb, faças o seguinte comentário, a meio da sua elaboração: "Uma lista é uma lista... Top 10 sem preconceitos... apenas uma lista...". Comentário à proposta de Bergman surgir na lista, note-se. Interessante e desafiador, o comentário. Tal como o cineasta. Talvez, com Fellini (embora em sentido completamente diferente), o mais desafiador de todos os que surgem na lista.

Segunda impressão: uma lista não é só uma lista não é só uma lista. Pb: pensas mesmo que uma lista é "apenas uma lista"? Uma lista, quando resulta numa selecção de coisas (isto é, quando inclui ou exclui), é uma organização de determinados elementos da realidade. Escolhemos uns primeiro, depois outros. E deixamos de lado o resto. Porque escolheste abrir com Kubrick? Por causa da inicial K.? Nenhuma lista exclui os seus preconceitos (ou pré-conceitos), muito menos uma como aquela que elaborámos.

Terceira impressão: pensar não é intelectualizar, é pensar. Qual é o prazer de fazer uma lista como esta? Algumas respostas possíveis: falamos de coisas / pessoas (cinema, filmes) que apreciamos ou, arrisco a palavra, amamos de uma certa maneira; provocamos um pouco quem sabemos que vai receber as nossas escolhas (o muito restrito inner circle); pensamos nas escolhas que queremos fazer (eu, por exemplo, pensei em Godard num certo momento, mas achei que não, não devia... foi só um exemplo). Mas o prazer que suplanta estes primeiros prazeres é pensar, pensar mesmo, sem peneiras nem ares de intelectual foucaultiano. Porque pensar os filmes, os realizadores, ou outra coisa de que gostamos é parte do processo de construir o amor daquilo que gostamos. Por isso procuro pensar, contigo, convosco, aqui, agora.

Quarta impressão: porque escolhemos? como escolhemos? Escolhemos num certo momento, num certo período de tempo, com base nos nossos conhecimentos, nos nossos bancos de dados. Actuais. Só pode ser assim. Mas a nossa é uma lista quase consensual para qualquer indivíduo da nossa geração com educação e formação próximas das nossas. Seremos os sujeitos das nossas escolhas? Ou somos escolhidos pelas escolhas, e a nossa liberdade de escolher é determinada e limitada pelo gosto, um assunto, de facto, social e não subjectivo? Gostos não se discutem? Ou só os gostos se podem discutir?

Quinta impressão: americanos e europeus. Dados mais ou menos objectivos, interessantes, desafiadores. Pensáveis. Numa lista de 10 nomes, 7 (70%) são americanos (Hitch, apesar do british accent, ergueu nos EUA o principal da sua obra). Só Bergman, Fellini e Visconti escaparam. Nenhum francês (Truffaut, por exemplo); nenhum alemão (Fassbinder, por exemplo); nenhum russo (Tarkovsky, por exemplo). "Apenas uma lista"? Ou, sendo europeus, sonhamos com a América? W. Wenders dizia que a América tinha colonizado os seus sonhos ou desejos. Nada a dizer sobre isto?

Sexta impressão: americanos clássicos e americanos modernos. Ford e Hitchcock (americano à sua maneira, certo?) são os nomes do período clássico, uma espécie de pais do cinema de que nós gostamos. Enquanto Scorsese e Coppola podem ser vistos de certa maneira como os continuadores (com muitas aspas) de Ford (o sonho americano, o conflito masculino, a relação com o espaço, aberto ou fechado, etc), Allen pode ler-se à luz do mestre do suspense ou da culpabilidade (exemplo máximo disto: Match Point!). Eastwood é um homem de fronteira, oscilando entre a memória do western (Imperdoável, enormíssimo) e a tragédia moderna e urbana (Mystic River e Milion Dollar Baby): um "clássico vivo", como disseste, j. (Kubrick é um caso à parte; e, ao menos nisto, somos capazes de estar de acordo).

Sétima impressão: os europeus - ou morreram já ou mandaram dizer que tinham morrido. Visconti: morto, obra acabada. Fellini: morto, obra acabada. Bergman: vivo, considera a obra acabada, tendo abandonado o cinema (embora filme, entretanto). Porque não foi escolhido um vivinho da silva? Desconfiamos dos cineastas europeus que continuam no activo. Não gostamos deles por ainda estarem vivos? Coppola, Scorsese, Allen e Eastwood estão vivos e, pelo menos os três últimos, em grande forma. Não havia do lado de cá ninguém nas mesmas condições? Ou o problema é outro?

Oitava impressão: Kubrick, um caso à parte. Para mim, o problema é mesmo outro. E está bem visível em Kubrick, o K. desta lista. O realizador americano que teve que vir para a Europa fazer os filmes que queria e não conseguia (?) fazer na América. Que filmes? Os que quebram a expectativa do espectador; os que, embora não recusem contar uma história, a fragmentam, ou a complexificam ou chegam mesmo a destruí-la. Filmes como Shining, A Laranja Mecânica, 2001 - Uma Odisseia no Espaço ou De Olhos Bem Fechados. Filmes que obrigam o espectador a pensar o cinema. A ilusão e a realidade do cinema. E é isso que cria alguma da perturbação que o cinema de Kubrick nos provoca. Um cinema interessante, desafiador. Cujo interesse é (também) esse desafio.

Nona impressão: conta-me histórias (americanas). Talvez esta seja uma das razões da configuração desta nossa lista: enquanto a minoria europeia (Bergman e Felini; Visconti, um clássico com um lugar muito próprio) desconstrói ou problematiza radicalmente a noção de narrativa ou de possibilidade de identificação entre realidade e ficção (filme), os americanos, à excepção do K. referido, continuam a contar-nos histórias. E acreditar no poder e na força das histórias. Histórias de violência, de amor, de sucesso e fracasso, com mais ou menos moral, mas histórias. E isso, no fundo, é o que todos desejamos. Que nos contem histórias. Que nos encantem. Que nos façam sonhar (mesmo que sejam pesadelos como Apocalypse Now) o sonho americano.

Décima impressão: baralhar e dar de novo. Contem-me os vossos pensamentos. Ou pensem comigo as vossas histórias. "Uma impressão é apenas uma impressão... sem preconceitos... apenas uma impressão...".

Top 10 melhores realizadores 10/10

Pronto! já está!

Ingmar Bergman (Lp)
John Ford (pb)
Alfred Hitchcock (Lp)
Stanley Kubrick (pb)
Martin Scorsese (Lp)
Woody Allen (j)
Francis Ford Coppola (j)
Luchino Visconti (pb)
Federico Fellini (j)
Clint Eastwood (j)

E no sábado?

E no sábado? Jantar a 6? Em Lisboa? Seixal? Setúbal?
"mi liga vai ..." ... pode ser via blog também ...

Top 10 melhores realizadores 9/10

Falta 1 ?
E o David Fincher, Emir Kusturica, David Lynch, Otto Preminger, David Lean, Steven Spielberg (então K???), Manos Cohen, Mike Leigh, Stephen Frears, John Boorman, Ang Lee ... nunca mais acabava ...

Se calhar temos de fazer um Top 100 melhores ...

Ingmar Bergman (Lp)
John Ford (pb)
Alfred Hitchcock (Lp)
Stanley Kubrick (pb)
Martin Scorsese (Lp)
Woody Allen (j)
Francis Ford Coppola (j)
Luchino Visconti (pb)
Federico Fellini (j)

Big Apple (Top 10)

O burguês que há em mim quer acrescentar algo: Woody Allen.

Luzes, câmara, acção! (Top 10)

Duas dicas para desenvolver mais tarde: Coppola. Fellini.

Where is JB?

Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB? Where is JB?

Top 10 melhores realizadores 5/10

Bergman, Ingmar
Ford, John
Hitchcock, Alfred
Kubrick, Stanley
Scorsese, Martin

3.4.06

Top 10 melhores realizadores

Martin Scorsese, ao telefone. "Are you talking to me?"
Irregular, entediante por vezes (O Aviador é exemplo recente e gritante, sendo possível dar outros). Mas esmagador com Taxi Driver ou A Última Tentação de Cristo. Ou esplendoroso, com Tudo Bons Rapazes ou Casino. Um dos maiores poetas das ruas e das raízes da América contemporânea: o sonho e o pesadelo americanos, ao vivo e a cores. Mesmo que seja a preto e branco, como em O Touro Enraivecido: para mim, a sua obra-prima absoluta.

Top 10 melhores realizadores



"O teatro é o começo, o fim, é tudo, enquanto o cinema pertence ao âmbito da prostituição."

Ingmar Bergman

K. vai ao Shopping (2º episódio)


(Cenas do episódio anterior: K. vai ao Shopping. Vê a Luz e, iluminado, circula dentro dela, como centenas de outras pessoas da Margem Sul e do Resto do Mundo. K. senta-se. E fica sentado.)

"Milhões de pessoas rumam a Sul". "Em direcção à baía do Seixal". Rumo a um "espaço com 138 lojas feito à medida dos seus desejos para que se sinta sempre em casa." Para que "encontre aqui tudo o que sempre quis, sem necessidade de rumar a Norte".

Todas estas frases podem ser lidas no encarte publicitário já aqui referido (rever o 1° episódio). E mostram bem como funcionam os mecanismos de indução ao consumo: a mensagem hiperbólica ("milhões"), quase bíblica, do movimento, como se de um gigatesco cardume se tratasse, rumando "a Sul" (diga-se, de passagem, que K. gosta desse "a Sul", em vez de um mais prosaico "para Sul"...).

"Oh Admirável Mundo Novo!", pensa K. (de novo). E pensa levantar-se, ele que continua sentado. Mas se o pensa, não o realiza. E permanece como estava, rodeado de passeantes, como se fosse uma ilha humana. "Uma entre centenas de ilhas", pensa K. E regressa aos números: depois da enormidade milionária, a escala mais reduzida, e exacta, das "138 lojas". Feitas "à medida dos seus desejos" - a macro-abstracção cede o lugar, numa retórica de fechamento, ao número mais acessível das lojas: 138. Nem mais, nem menos. (Mas algo perturba K.: "à medida dos meus desejos?", pensa ele. "Será possível que..." E não termina este seu pensamento, não quer terminá-lo... É um pouco assustador, este pensamento... Por isso, K. pensa noutra coisa...).

Concentra-se, de novo. K.. E concentra-se nos números: é esse fechamento que permite a focagem no sujeito individual que cada consumidor é: "à medida dos seus desejos". É óbvio, K. sabe: é disto, e só disto, que trata o discurso publicitário. Basic instints. Da cenoura à frente do burro. Do exacerbamento da necessidade de desejar. Seja do que for: poder, riqueza, prestígio, fama, sucesso, (su)sexo, etc. Desejo de tudo, desejo global, totalitário, que cria a ilusão de Tudo podermos: basta o cartão dourado do crédito. "Encontre aqui tudo o que sempre quis". E o que sempre quer? O que sempre quererá? Terão sido estas as palavras de Deus quando se dirigiu a Adão? Tens aqui Tudo o que sempre quiseste. O que queres mais? Não vês que esta é a medida dos teus desejos? Esta ânsia de "oferecer" Tudo é a promessa de um reino encantado na terra? O Centro Comercial é hoje o Paraíso do Mundo (sub)urbano português? A Nossa Verdadeira Casa: "para que se sinta sempre em casa". "Mas quem é que, sentindo-se vivo, pode sentir-se sempre em casa?", pensa K. que, muitas vezes, em casa, não se sente em casa.

Eis o que K. pensa a seguir: "Como resistir ao Paraíso? A esta Luz, a estas cores? A estas palavras falsas, inebriantes, ocas? A este ridículo? Pormenor caricato mas relevante (e revelador): a vontade de oferecer Tudo chega às casas-de-banho, onde se podem ler tiradas "filosóficas" do género para quem sonha não há impossíveis. Para quê pensar se tudo foi já pensado? Se o pensamento foi colocado ao nível do WC?" É isto que K. pensa antes de, finalmente, se levantar - para poder consumir, pois foi ao que veio. E K. levanta-se, leva a mão direita ao bolso. Sente a carteira. Toca-lhe com as pontas dos dedos. E sorri. K. sorri. Porque caminhar sorrindo é a maneira mais natural de prosseguir, por entre os outros, ladeado pelos outros. No Paraíso. K. sorri porque Aí não se controla o sorriso. Porque o sorriso já não é nosso, é uma espécie de reflexo da Luz.

Esse Grande Sorriso.
(continua)

Top 10 melhores realizadores - John Ford


Lista: 3/10

Stanley Kubrick
Alfred Hitchcock
John Ford

Seven, borboleta e etc

Com uma das novas descobridoras. Uma conversa do outro lado do mar, numa pausa de muito trabalho, com vontade de voltar a atravessar esta ponte.

2.4.06

Hitch sobre Margarida Rebelo Pinto (com João Pedro George ao fundo)


"Estilo é plagiar-se a si mesmo."

Prémio Afinal Havia Outro do Dia

Rio Sul Shopping.

Post Pós-Moderno sobre a História da Arte Ocidental

(Os irmãos Duchamp: Marcel, Jacques Vilon e Raymond Duchamp-Vilon)

Neste momento preciso do dia, K. vê-se a perguntar a si próprio: "Os riscos & os traços com os quais Y. & W. vandalizam alegremente todas as paredes cá de casa devem ser entendidos como a "fase Lascaux" da sua evolução artística?" Confuso, não consegue evitar depois o seguinte desabafo: "Espero que essa evolução artística não chegue nunca a uma "fase duchampiana", com a consequente remoção de lavatórios e sanitas do lugar próprio, e sua transformação em ready mades, com títulos como Fonte ou Concha...". Atordoado com tal possibilidade, carrega de seguida no botão de descarga do autoclismo. Antes de sair, lava bem as mãos. Agora, com cuidado, fecha a porta da casa-de-banho atrás de si. Mas continua a ouvir. Continua a ouvir o barulho da água a correr, sempre a correr, como se de facto quisesse regressar ao Mar.

Top 10 melhores realizadores

"A melhor maneira de o fazer é com tesouras".
Alfred Hitchcock

Outro Dia das Mentiras

Só a vi de passagem, desviando os olhos do carro da frente por instantes. Estava sentada do outro lado, na berma da estrada. Sobre os ombros, uma espécie de sobretudo cinzento, aberto, mas deslocado na tarde quente. E não havia mais peça de roupa: a que havia deixava ver os seios pendentes, o ventre redondo, inchado, as pernas abertas, dobradas à passagem do trâsito suburbano, a negra neblina do sexo. E havia um homem, de pé, inclinado sobre ela, conversando com ela, parecendo pedir que viesse "para dentro", para "casa", sendo que a casa é um monte imundo de ruínas cheias de sacos, latas vazias, lixos, merda, provavelmente vinho, provavelmente drogas duras, da dureza do betão que encurralou algures esta mulher, lá atrás, e este homem, os quais, de repente, de relance, de passagem, parecem saídos de algum poema de José Emílio-Nelson ("Encontro-o há anos no parque. / (...) O ar é todo urina." Ou: "Pastora de cães. / Cães de pêlo ferrugento das vedações. / Numa terra desfazendo-se varrida.") Procuro esconder o que vi com o manto diáfano da poesia? Eu - que sei eu? Mas foi isto que eu vi quando regressava a casa de carro, numa estrada nacional. A meio da tarde do dia de hoje, dito Dia das Mentiras.

1.4.06

Dia das Mentiras

14 h.00m.: Festa de aniversário do Bruno.
K. e restante família conduzem Y., o filho varão, ao local da Festa. Um daqueles espaços amplos e adaptados para Festas de Aniversário, com serviço completo: equipamentos lúdicos, comida, água, sumos, coca-cola, bolo. Especialmente concebido para pais que se sentem na obrigação de mimosear os rebentos no seu dia especial, mas já não têm paciência para festas em casa com uma dezena de putos, ou mais, aos gritos e a correr por todos os lados enquanto vão entornando todos os líquidos de todos os copos e espalhando por tudo quanto é recanto restos de sandes e bolos. Aqui podem fazê-lo. E eles não deixam de o fazer, com muito suor, tropeções e quedas. Fim da Festa: 16 h. Recolher Y. e partir para a Festa de aniversário da Carolina.

16h.30m: Festa de aniversário da Carolina.
K. e restante família conduzem W., o filho mais novo, ao local da Festa. Uma garagem numa vivenda, no meio de outras, no meio de um bairro que já foi clandestino à maneira portuguesa.
O espaço não é muito, mas suficiente para as brincadeiras. E é ao ar livre; sente-se o ar quente da tarde. Um boné protege do sol. Há balões, triciclos, bolas, algumas cadeiras para os adultos amolecerem enquanto vão tomando conta dos rebentos. Há também um nicho de terra onde estes podem, com prazer, sujar as mãos. Depois, são cantados os parabéns em louvor da Carolina que, contra as expectativas, não parece aceitar muito bem a mudança de idade (e quem a pode recriminar? Passar a ter 3 anos em vez de 2 é, como todos nos lembramos, um acontecimento bem pouco agradável). Fim da Festa: 18h.15m. Recolher W. e Y. (que acumulou) e regressar a casa.

19h.: Banho; jantar (incrivelmente, depois das festas de aniversário - nas quais abundam os víveres -, os dois rapazes apresentam uma estranha premência de comida); acerto final nas brincadeiras, com respectivos ralhetes e desespero parentais; e, finalmente, cama. Boa noite. Beijinhos. Até amanhã.

23h.30m. Sim, é verdade: K., acusado por alguns de ser um solitário, quase um misantropo, afinal tem uma vida social agitadíssima. Obrigado, Y. Obrigado, W. E sonhos cor de rosa!

Top 10 melhores realizadores


O meu contributo ... fico à espera das vossas escolhas ...
SK
No fim votamos e fazemos um top 10 ...