10.4.07
9.4.07
Um Poema*
Poema ainda inédito
de carroçaria a brilhar sem pós modernos.
Em bom estado
de conservação estilística.
Métrica de tracção
a todas as sílabas
e motor turvo
de muitos cavalos solares.
ABS metafórico acrescido
de sistema de som & sentido
de última geração (dos novos
novíssimos!)
Facilidades de leitura & interpretação.
Trata o próprio
(931630690)
autor.
*do livro Transportes Púbicos (etc.)
8.4.07
Exames Que Pareciam Finais
O professor, conhecido pela sua relativa surdez, perguntou à aluna aplicada:
"Então leia."
O aluno não só conhecia, como tinha decorado o poema. Esse, e muitos outros. De olhos postos no velho professor de literatura, começou a recitar, com expressividade afinada, o poema. Quando terminou, o velho professor de literatura fez nova pergunta:
"Compreendeu o que acabou de dizer?"
"Perfeitamente."
"Então estou satisfeito. Está aprovado, pode sair."
Um Poema*
"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
as tuas mãos."
*do livro Transportes Púbicos (que nunca, nem pensem, escreverei).
Trabalhos de Casa
Ameaça chover. Como ser impermeável à tristeza dos dias? Procuro a minha etiqueta de origem. Evito seguir a roupa para dentro da máquina. Tomo duche e café, um de cada vez. Troco o disco. Tudo irrelevante. Então, por que escrevo aqui, 30% de algodão / 70% de melancolia?
Meta Física (2)
Acordo, outra vez, definitivamente. Rodo as pernas para fora da cama. Ergo-me e espreguiço-me bem, como se esticasse uma fisga ao limite, para me projectar no infinito. Uma dor no ombro esquerdo. Reumático? Bom, o infinito está ao virar da esquina: 3 laranjas e um espremedor.
The Departed (nota 9) : Martin Scorsese ao seu melhor nível
L'amour? C'est une embuscade!
(Carla Bruni, L'amour)
Caro amigo PB,
Louis Armstrong : What a wonderful world
7.4.07
6.4.07
Um Poema*
Este é o primeiro verso do poema.
Este é o segundo: o poema sou eu.
Este é o terceiro: o poema existe.
Este é o meu quarto: tu não existes.
Portanto este é o último verso do poema.
*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).
o TAL poema Ilustrado mesmo aqui à porta de casa ...
5.4.07
Três Poemas*
Pisada por toda a gente
a erva daninha nasce
por entre as pedras
da calçada portuguesa.
2. Monanarquia
Vou nu, senhora,
mas de si sei que
jamais serei rei.
3. Custo de Vida
Cara
só a poesia.
*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).
"Turquesa", de Zuca Sardan (para J.)
azul durgueza
a lua gorducha
sbedada zezboroa
num minarete da mesguida
de Zanta-Zofia...
o vento azovia
azovia... bzzz...
bzz... noite...
noite desdambul..."
Coração Enjaulado
The Strokes, Heart In A Cage, First Impressions of Earth, 2006
"Well I don't feel better
When I'm fucking around
And I don't write better
When I'm stuck in the ground
So don't teach me a lesson
Cause I've already learned
Yeah the sun will be shining
And my children will burn
Oh my heart beats in its cage
(...)
Now it's three in the morning and you're eating alone
Oh my heart beats in its cage"
O Humor é Uma Arma (de todas as cores)

O Estranho Mundo de Lynch (3)
No regresso da viagem, dei por mim a pensar neste outro império dos sentidos. Uma mulher devorada pela câmara e uma mulher que devora o mundo com as palavras. O Estranho Mundo de Lynch (2)

O Estranho Mundo de Lynch
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
Deitas a mão à porta e passas o corpo para o outro lado. Esquece o cinema paraíso. Aplaude os coelhos. Afinal, estamos na Páscoa. (Risos). Alice? Não, Laura. Desculpa lá as nódoas negras. Estás magnífica, pareces um anjo, depois do purgatório do plateau. “Toma!”. Doeu-te, este pontapé nos tomates? No passeio das estrelas: um coro de raparigas não é o mesmo que raparigas do coro. “Ela tem um buraco”. Sangue. “Tens que nos contar essas merdas?”.

Está aí alguém? Experimenta afastar a cortina de veludo vermelho. E agora? Ela sobe as escadas e desabafa com o funcionário dos óculos tortos.
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
“Tens um relógio?”. Abre esta porta. E a outra. E a outra. E a outra. E a próxima. “Sim, ela ainda está aqui.”Acreditas que tens um fantasma nos bastidores da tua pele?
4.4.07
Dois Poemas*
Sorria
está a ler
este poema.
2. Saída de Emergência
Escrever
só em caso
de absoluta
necessidade.
*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).
poesia social democrata
"A meio caminho
de lado nenhum".
E, como me acontece sempre que leio grande poesia, não sei se chore se ria.
Coração de Asfalto
As mãos no volante, abrindo caminho. Estabilizo o conta-quilómetros do peito e disparo o pensamento, veloz. Quanto tempo? Vamos! Saímos da cidade quando todos se guerreiam nos semáforos, tentando chegar primeiro ao semáforo seguinte, tentando chegar ao mini-mercado, antes que feche – falta pão, pode ser do bimbo, torra-se, também fica bom. Algumas horas, dizes. Não importa, vamos. As mãos no volante, indo, no largo prazer de atravessar este mar de palha, para sul; de cruzar a serra lusco-fusco, para norte. Esquece a bússola. Vamos, vamos já! Espera, falta-me acabar isto. Trabalho, compreendes? Sim, impaciência. Vamos logo depois? Sim. Três cuecas, uns pares de meias, duas camisolas lavadas. A pasta dos dentes e a escova e o gel do duche. Leva um casaco, pode arrefecer! Saímos quando todos estiverem a regressar? E o gorro! Ah, que prazer! Sim, só mais um pouco. Voa, imaginação. Desejo. Vou já. Repito: já. As mãos adivinhando o mapa, o silêncio e o sorriso. Escolhe: o mar, a montanha, a embriaguez da planície? Por ali. Vamos? Sim. Até já. Vou apanhar-te. Dá-me um toque, que eu desço. Um saco pequeno, roupa para três-quatro dias, vontade para um mês inteiro. As mãos, adiante, abrindo caminho para a velocidade do desejo. Leva aquele CD. No limite, um pouco para além, sim. Escreve, para matar o tempo. Pum! Escreve, ainda. Vou já. Adiante? Sim. O pára-brisas cinemascope. Deixamos os outros para trás, como se deixássemos a nossa própria sombra, estilhaçada num passeio. Pum! À velocidade do desejo, sem limites. As mãos, nuas, tuas. A rir, com a música alta. E os olhos e a boca. A rir, a rir, a rir! Vou, a imaginar isto tudo, com a música alta, as mãos no volante e a tristeza à pendura. Não dizes nada, amargura? E um saco de roupa para três-quatro dias. E o desejo de nunca nunca mais voltar? Procuro a resposta no caminho. Não quero saber, agora, que portagens ficaram por pagar. Sei que foram muitas. As rodas à berma. Adiante, coração de asfalto. Chora, não faz mal. Acelera!
Baú das Músicas 1 : Anos 80 : House Of Love : Christine
LP, O Shine On não está disponível online :-(
"Ganhar o Pão" (uma aposta ganha)
Algumas notas sobre o 2º programa da série “Portugal, Um Retrato Social”, de António Barreto, que passou esta noite na RTP.
3.4.07
Madrigal
Confesso: Julieta é, de entre os nomes de mulher, um dos meus favoritos. Por vezes, assobio baixinho Menina Estás à Janela. Mas isso sou eu, fora de moda, que nem me chamo Romeu. Olha, rimou!
2.4.07
Polpa
Umas vezes, brincalhão. Outras, deprimido. Hoje comprei maçãs de Alcobaça e umas pêras grandes. Doces!! (O corrector ortográfico do Word assinala erro quando exclamo em duplicado. “És muito amargo, estupor! Espécie de fascista…”). Ah, e também laranjas! Aposto que fico com outra fibra.
Lápis Hemostático
Apareceu-me no espelho, esta manhã, quando escovava os dentes e decidia não fazer a barba. Pareceu-me um rosto conhecido. “Deixa de escrever disparates e vê se fazes alguma coisa com a tua vida!”. Anotei o conselho no vapor, bochechei e fiz a barba.
1.4.07
Ainda o Olhar
O jornal Público reproduziu, na edição de ontem, algumas das imagens que fazem a perturbadora exposição “O Olhar dos Cegos”, organizada pelo fotógrafo Georges Pacheco. Os auto-retratos estão no Silo, Espaço Cultural do Norte Shopping, até 22 de Maio (juntamente com a exposição “A Memória das Lágrimas” – um outro projecto de auto-retratos, do mesmo autor).
Numa entrevista a Sérgio B. Gomes, publicada no blog Arte Photographica, Georges Pacheco diz que partiu para o projecto com a seguinte pergunta: “de que forma o olhar dos cegos toca quem vê as imagens?”. Todo o trabalho pode até ser algo polémico mas, talvez por isso, provoca reflexão. A mim, deixa-me a pensar no modo como nos relacionamos com esse sentido vital e ao mesmo tempo tão banalizado.
Jardinagem
31.3.07
O Reverso
Avesso à solidão, procuro mundo. Há quem sugira (bem) que passear os olhos é um caminho. Escrevo que a solidão está sempre do avesso mas esqueço-me que o reverso da solidão é a companhia. As palavras são como os peixes – escorregadias. Por todos os lados. O cherne e não só. Isto está um pouco confuso, sim.
30.3.07
Silêncio de Circunstância
Outra vez o fim. De semana a semana, um parágrafo. Mudar de linha, em silêncio, e recomeçar. Enrolar-me na máquina de escrever descanso e trabalhar mais um pouco. Começar, num parágrafo de silêncio, a derrubar a semana. Escrever, outra vez, como quem inventa um alfabeto para mudar de linha. Pura circunstância, enfim. Small Talk
Era uma vez...
29.3.07
O cartaz
Os aracnídeos colocaram um cartaz na rua. É um cartaz nojento, imbecil. Regista-se, é importante registar. As autoridades avaliam a questão legal. Cumprem a sua função. Espero que os media não se ponham aos gritos, sobre o assunto. Quer-me parecer que é isso que eles querem. Mas são apenas parentes menores das baratas. Coisas de rodapé.
Are You Talking To Me?
Às vezes, penso que estou a enlouquecer – loucura mansa mas, ainda assim, loucura. É quando vou na rua, mergulhado nos meus pensamentos (mais ou menos sombrios, mais ou menos extravagantes) e dou por mim à beira de verbalizar as minhas reflexões e os meus diálogos interiores. Isso! Quase, quase, quase a falar sozinho, em voz alta. Normalmente, disfarço. Observo um cão a cagar no passeio ou uma pessoa a tentar enfiar um carrinho de bebé entre dois automóveis, na passadeira – e passa. Hoje aconteceu. Disse, a pensar numa mulher que eu cá sei: “apetecia-me rebolar na relva contigo, escutar o teu riso fresco e esquecer isto tudo!”. Até fiquei zonzo e podia jurar que a velhinha, que se cruzava comigo naquele instante, apressou o passo. O meu olho direito ainda a apanhou a espreitar-me, de esguelha, já o esquerdo controlava o trânsito, no cruzamento seguinte. Não me parece que seja caso de polícia.
28.3.07
Olho por Olho
Não sou bem estrábico, tenho apenas um olho preguiçoso – apesar do meu amigo PB me retratar, desde sempre, como um Sartre elevado ao cubismo. Eu explico. Quando estou cansado ou quando fixo o olhar, para ler ou ver televisão, o olho direito arruma-se para o lado de fora e deixa o esquerdo fazer o trabalho principal. Bem sinto o constrangimento de algumas pessoas quando tentam perceber para onde estou a olhar quando, evidentemente, estou a olhar para elas. Nunca peço desculpa. Acho que não devo. Também há pessoas com o nariz torto ou umas orelhas anormalmente assimétricas e eu não me ponho com dichotes. Se têm alguma dúvida, perguntem. (Já agora, uma dica: nestes casos, apontem o olhar para o topo do nariz, mesmo entre os olhos. Nunca falha!)
AVC
O dia começou com a escuta da primeira versão de um trabalho sobre o impacto do AVC na vida das famílias dos doentes. Testemunhos fortes, cruzados com excertos do livro De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires. Vai para o ar esta sexta, nestas frequências, depois das sete da tarde – na véspera do Dia Mundial do AVC. Vale a pena ouvir mas, atenção, é um bocado duro.
"O Bom Alemão", de Steven Soderbergh
Houve quem gostasse. C. considerou, irritada, malgré Clooney, "uma pura perda de tempo". Não serei tão radical. Mas, reconhecendo as intenções cinéfilas do realizador, não pude deixar de sentir desilusão: a homenagem ao cinema americano do tempo da guerra, ou do imediato pós-guerra, falha quando deixamos de sentir vontade de ver a homenagem e queremos rever os originais (Casablanca, O Terceiro Homem, etc.). Este é, claramente, um filme que faz lembrar outro do autor: Kafka (de 1991), também de inspiração literária, de ambiente europeu e de estética estilizada. Filmes cuidados e sérios, talvez demasiado cuidados e demasiado sérios. Falta-lhes alma e emoção: aquilo que encontramos, às golfadas, nos romances imperfeitos (inacabados) de Kafka ou nos filmes de Michael Curtiz e de Carol Reed. De Soderbergh prefiro, sem grandes hesitações, os filmes de temática americana como Sexo, Mentiras e Vídeo, Full Frontal ou Traffic. Ou, quem sabe, Bubbles, que ainda não vi.27.3.07
"Portugal, um retrato social", de António Barreto (1º episódio)
O rapa-tudo
Nota final (para desanuviar)
Laurie Anderson, "Big Science" (1982)
O rapa-tudo (alguns apontamentos)
Nota prévia
Orgulhosamente tótós!
O que sentiram?
26.3.07
O Pente do Vento
(Praia de Ondarreta, Donostia-San Sebastián, 2005)INACREDITÁVEL
Em programa da RTP Salazar eleito "o maior português de sempre"???????????
Podem chamar-me o que quiserem mas isto é uma aberração incrível!!!!!!
Mas será que esta gente não tem memória? Não conhecem a história de Portugal, só pode!
Lamentável!
Tradução Simultânea
Se bebermos o mesmo vinho, no mesmo instante, eu aqui e tu aí – descontado o fuso horário –, será que nos sucede saborearmos a boca um do outro? As crónicas enófilas nunca esclarecem estas questões. Só falam dos taninos e da compota. Ora, abóbora!
25.3.07
quod facis fac sitius
Ele, que não pescava uma de latim, insistiu na mesma tecla, socorrendo-se das páginas azuis do dicionário mas esperando, secretamente, que o amigo não alargasse mais a prosa por esses lados, para não fazer triste figura. Sentia que o latim podia dar uma ajuda, pela sólida base que representava, embora não fosse, de todo, o mais natural nele. Sentia ainda que a amiga estava bem intencionada mas, de facto, toda aquela história começava a incomodá-lo. Não é que não fosse uma possibilidade (a vida está cheia delas, claro) mas começava a transformar-se numa ansiedade. Como passar agora à acção, sem ser de uma forma, digamos, caricata? (A pergunta é, ela própria, também um pouco caricata, naturalmente). Pareciam-lhe sábias, as palavras do amigo: “carpe diem!”. Foi fazer chá. Tinha arrefecido, apesar do mais tardio pôr-do-sol. Enquanto enchia a chaleira, pensava: "nunca nos devemos levar demasiado a sério, nem mesmo em latim!". Especialmente em latim.
































