10.4.07

9.4.07

Um Poema*

Procura Novo Dono...

Poema ainda inédito
de carroçaria a brilhar sem pós modernos.
Em bom estado
de conservação estilística.

Métrica de tracção
a todas as sílabas
e motor turvo
de muitos cavalos solares.

ABS metafórico acrescido
de sistema de som & sentido
de última geração (dos novos
novíssimos!)

Facilidades de leitura & interpretação.
Trata o próprio
(931630690)
autor.


*do livro Transportes Púbicos (etc.)

8.4.07

Sigur Ros : Glosoli


Srª Ella Fitzgerald : St Louis Blues

Srª Ella Fitzgerald : Fever


Srª Billie Holliday : I'll Be Seeing You


Sr Yann Tiersen : La Valse d'Amelie


Sr Jacques Brel : Le Port d'Amsterdam


Srª Nina Simone : Since I feel for you


Exames Que Pareciam Finais

a)
O professor, conhecido pela sua relativa surdez, perguntou à aluna aplicada:
"Qual é a parte da Física que dominha melhor?"
"A acústica", respondeu, inocente, a aluna aplicada.
(E ainda hoje, passados tantos anos, se ouviram algumas sonoras gargalhadas causadas por essa inesperada segunda reprovação...).

b)
O velho professor de literatura pediu ao aluno que abrisse o livro numa certa página. Depois perguntou: "Conhece esse poema?"
"Conheço."
"Então leia."
O aluno não só conhecia, como tinha decorado o poema. Esse, e muitos outros. De olhos postos no velho professor de literatura, começou a recitar, com expressividade afinada, o poema. Quando terminou, o velho professor de literatura fez nova pergunta:
"Compreendeu o que acabou de dizer?"
"Perfeitamente."
"Então estou satisfeito. Está aprovado, pode sair."
(E ainda hoje, passados tantos anos, o ex-aluno recitou esses maravilhosos versos de Camões...).

Sr Tom Waits : Christmas Card From A Hooker In Minneapolis


Sr Tom Waits : How's it Gonna End


Sr Tom Waits : Martha


Um Poema*

Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 14 anos, declarei em família que ia começar a escrever poesia

"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
as tuas mãos."


*do livro Transportes Púbicos (que nunca, nem pensem, escreverei).

Mogwai : I Know You Are But What Am I?


Múm : We Have A Map Of The Piano

Jesus and Mary Chain : Just like Honey ...

Trabalhos de Casa

Ameaça chover. Como ser impermeável à tristeza dos dias? Procuro a minha etiqueta de origem. Evito seguir a roupa para dentro da máquina. Tomo duche e café, um de cada vez. Troco o disco. Tudo irrelevante. Então, por que escrevo aqui, 30% de algodão / 70% de melancolia?

Meta Física (2)

Acordo, outra vez, definitivamente. Rodo as pernas para fora da cama. Ergo-me e espreguiço-me bem, como se esticasse uma fisga ao limite, para me projectar no infinito. Uma dor no ombro esquerdo. Reumático? Bom, o infinito está ao virar da esquina: 3 laranjas e um espremedor.

The Departed (nota 9) : Martin Scorsese ao seu melhor nível


Deste filme e de Martin Scorsese já se disse quase tudo.
Para mim nota 9 em quase tudo.
Gostei particularmente do Leonardo Dicaprio.

L'amour? C'est une embuscade!

(Carla Bruni, L'amour)

Caro amigo PB,

Prossigamos então com a universal linguagem da música. Como a descodificação da BD francófona parece não ser razão suficiente para te levar a uma alliance française, e com o devido respeito pela nossa amiga P., aqui te deixo um outro argumento para reflectires sobre as vantagens de investires na chamada “língua do amor”. Para já, imagino, terás que te entreter com os bonecos.

Toma lá um abraço,

do j

Louis Armstrong : What a wonderful world

Talvez a mais conhecida de todas as músicas postadas aqui ... e também uma das mais belas da história da música (digo eu) ...


Louis Armstrong & Ella Fitzgerald : It Had To Be You

6.4.07

dos filmes imaginados

Uma Para o Caminho

the end ...

Um Poema*

Último Poema

Este é o primeiro verso do poema.
Este é o segundo: o poema sou eu.
Este é o terceiro: o poema existe.
Este é o meu quarto: tu não existes.
Portanto este é o último verso do poema.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

o TAL poema Ilustrado mesmo aqui à porta de casa ...

Não é que haja grande diferença nas "políticas" do PS ou PSD ... acho mesmo que a única diferença é que uns teem o D outros não ...
{Foto: PC a pedido de PB ;-)}

5.4.07

Três Poemas*

1. Cesariana

Pisada por toda a gente
a erva daninha nasce
por entre as pedras
da calçada portuguesa.


2. Monanarquia

Vou nu, senhora,
mas de si sei que
jamais serei rei.


3. Custo de Vida

Cara
só a poesia.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

"Turquesa", de Zuca Sardan (para J.)

"Noite desdambul
azul durgueza
a lua gorducha
sbedada zezboroa
num minarete da mesguida
de Zanta-Zofia...
o vento azovia
azovia... bzzz...
bzz... noite...
noite desdambul..."

Zuca Sardan (pseudónimo literário de Carlos Felipe Saldanha. Rio de Janeiro, 1933). "Turquesa" é um dos poemas do autor, sempre acompanhados de um desenho, incluídos na antologia Boa Companhia: poesia, Companhia das Letras, São Paulo, 2003, p. 109. Escrito, quem sabe, depois de algum exagero no consumo de raki...

Coração Enjaulado


The Strokes, Heart In A Cage, First Impressions of Earth, 2006

"Well I don't feel better
When I'm fucking around
And I don't write better
When I'm stuck in the ground
So don't teach me a lesson
Cause I've already learned
Yeah the sun will be shining
And my children will burn

Oh my heart beats in its cage

(...)

Now it's three in the morning and you're eating alone

Oh my heart beats in its cage"

O Humor é Uma Arma (de todas as cores)

"O cartaz do Partido Nacional Renovador, colocado na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, já não está sozinho. José Pinto Coelho, fundador e presidente do partido nacionalista, tem como companhia quatro ilustres conhecidos: Ricardo de Araújo Pereira, Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela. À semelhança do que acontece com os partidos políticos, os Gato Fedorento decidiram instalar um "outdoor" mesmo ao lado do cartaz do PNR, assumindo a sua oposição contra a mensagem xenófoba daquele partido político. E fazem-no parodiando Pinto Coelho, o homem que disse querer "conquistar as ruas". M.J.O. Foto: Sérgio B. Gomes/PUBLICO.PT"

Actualização (22:00): Leio aqui que a CML exigiu aos gatos que retirem o cartaz ou então paguem a acção de "despejo", a ser executada pela autarquia. Parece que não estava legal mas o outro sim, porque é de um partido. Até pode estar tudo certo, pela bitola dos regulamentos, mas não deixa de ser uma piada de mau gosto.

Bom, daqui ninguém o tira.

O Estranho Mundo de Lynch (3)

No regresso da viagem, dei por mim a pensar neste outro império dos sentidos. Uma mulher devorada pela câmara e uma mulher que devora o mundo com as palavras.

Sumário

Depois de muitas reticências, aprender a lição dos pontos finais.

O Estranho Mundo de Lynch (2)


A propósito da estreia do novo filme de David Lynch, há festa no Santiago Alquimista, em Lisboa. Logo mais, pelas 23h.

O Estranho Mundo de Lynch

“Já passa da meia-noite?”.
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
Deitas a mão à porta e passas o corpo para o outro lado. Esquece o cinema paraíso. Aplaude os coelhos. Afinal, estamos na Páscoa. (Risos). Alice? Não, Laura. Desculpa lá as nódoas negras. Estás magnífica, pareces um anjo, depois do purgatório do plateau. “Toma!”. Doeu-te, este pontapé nos tomates? No passeio das estrelas: um coro de raparigas não é o mesmo que raparigas do coro. “Ela tem um buraco”. Sangue. “Tens que nos contar essas merdas?”.


“Acende um cigarro e queima a seda.” Espreita. O que vês?
Está aí alguém? Experimenta afastar a cortina de veludo vermelho. E agora? Ela sobe as escadas e desabafa com o funcionário dos óculos tortos.
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
“Tens um relógio?”. Abre esta porta. E a outra. E a outra. E a outra. E a próxima. “Sim, ela ainda está aqui.”Acreditas que tens um fantasma nos bastidores da tua pele?

(Escrito depois de uma “viagem” de quase três horas. INLAND EMPIRE, realização de David Lynch, com Laura Dern. EUA/FR/POL, 2006. Estreia hoje.)

4.4.07

Dois Poemas*

1. Líricovigilância

Sorria
está a ler
este poema.


2. Saída de Emergência

Escrever
só em caso
de absoluta
necessidade.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

poesia social democrata

Eu, que nunca votei, nem me vejo a votar PSD, bloqueado ao fim da tarde no trânsito de Alcântara, não pude deixar de admirar esta magnífica síntese de Dante, Machado, Drummond de Andrade e Pedro Mexia, num cartaz de rua sobre os "2 anos de governo sócrates":

"A meio caminho
de lado nenhum".

E, como me acontece sempre que leio grande poesia, não sei se chore se ria.

Uma nota pessoal às "notas sobre o 2º programa da série "Portugal, um Retrato Social", de António Barreto" de J.

Uma aposta ganha?

Coração de Asfalto

(Lisbon, by sadness - um destes dias)

As mãos no volante, abrindo caminho. Estabilizo o conta-quilómetros do peito e disparo o pensamento, veloz. Quanto tempo? Vamos! Saímos da cidade quando todos se guerreiam nos semáforos, tentando chegar primeiro ao semáforo seguinte, tentando chegar ao mini-mercado, antes que feche – falta pão, pode ser do bimbo, torra-se, também fica bom. Algumas horas, dizes. Não importa, vamos. As mãos no volante, indo, no largo prazer de atravessar este mar de palha, para sul; de cruzar a serra lusco-fusco, para norte. Esquece a bússola. Vamos, vamos já! Espera, falta-me acabar isto. Trabalho, compreendes? Sim, impaciência. Vamos logo depois? Sim. Três cuecas, uns pares de meias, duas camisolas lavadas. A pasta dos dentes e a escova e o gel do duche. Leva um casaco, pode arrefecer! Saímos quando todos estiverem a regressar? E o gorro! Ah, que prazer! Sim, só mais um pouco. Voa, imaginação. Desejo. Vou já. Repito: já. As mãos adivinhando o mapa, o silêncio e o sorriso. Escolhe: o mar, a montanha, a embriaguez da planície? Por ali. Vamos? Sim. Até já. Vou apanhar-te. Dá-me um toque, que eu desço. Um saco pequeno, roupa para três-quatro dias, vontade para um mês inteiro. As mãos, adiante, abrindo caminho para a velocidade do desejo. Leva aquele CD. No limite, um pouco para além, sim. Escreve, para matar o tempo. Pum! Escreve, ainda. Vou já. Adiante? Sim. O pára-brisas cinemascope. Deixamos os outros para trás, como se deixássemos a nossa própria sombra, estilhaçada num passeio. Pum! À velocidade do desejo, sem limites. As mãos, nuas, tuas. A rir, com a música alta. E os olhos e a boca. A rir, a rir, a rir! Vou, a imaginar isto tudo, com a música alta, as mãos no volante e a tristeza à pendura. Não dizes nada, amargura? E um saco de roupa para três-quatro dias. E o desejo de nunca nunca mais voltar? Procuro a resposta no caminho. Não quero saber, agora, que portagens ficaram por pagar. Sei que foram muitas. As rodas à berma. Adiante, coração de asfalto. Chora, não faz mal. Acelera!

Um dia destes.

Baú das Músicas 2 : Anos 80 : Echo & The Bunnymen - Killing Moon

Baú das Músicas 1 : Anos 80 : House Of Love : Christine



LP, O Shine On não está disponível online :-(

"Ganhar o Pão" (uma aposta ganha)

Algumas notas sobre o 2º programa da série “Portugal, Um Retrato Social”, de António Barreto, que passou esta noite na RTP.

Gostei muito (obrigado pela lembrança, amigo LP!). Uma excelente radiografia (vai mesmo ao osso, literalmente) do “tecido produtivo” de Portugal nos últimos 50 anos, com uma narrativa sóbria e clara, cruzando com mestria o material de arquivo com as imagens da actualidade. Exemplar, a história contada por José Bento dos Santos, da Quinta do Monte D’Oiro, de como o padre se inquietou e espalhou inquietação, pelo facto de ele estar a mandar para o chão as uvas, durante cinco anos, seguindo as indicações técnicas mais avançadas, para alcançar um grande vinho e assim garantir o futuro de um projecto (consta que o vinho é mesmo bom, by the way). Exemplar também (obrigando a uma certa compostura para evitar o vómito), a declaração de Cabrita Neto, em 1978, de como estavam a seguir “um certo critério” na urbanização turística do Algarve, “tendo em conta o ambiente”. Muito bom, retratar o país ouvindo alguns protagonistas mais mediáticos mas também gente como Rosa Passão, a lembrar a atracção que o Barreiro exercia sobre os alentejanos, nos anos 50/60, porque “isto para nós era o Brasil!”. Bons testemunhos dos empresários que "deram a volta", mostrando como é possível vencer o fado de ser pequeno. Dura, mas realista, a este propósito, a declaração de um empresário (de quem não retive o nome) quando diz que "a morte ronda as empresas que só pensam no dia-a-dia". Uma óptima realização de Joana Pontes; excelentes os planos aéreos sobre as vinhas, no Alentejo e o olhar pausado sobre as ruínas das fábricas. As ruínas que deixam a nu a pequenez da maioria dos políticos portugueses dos últimos 30 anos, na definição de uma estratégia para a modernização e formação. Tantas oportunidades perdidas! Boa nota para a música de Rodrigo Leão, como sempre. A. Barreto garantiu mais um telespectador, que ainda não perdeu a esperança de ver o primeiro episódio. Curiosidade final: que audiência terá este programa, em horário nobre do serviço público?

Adenda: encontrei aqui uma pista para começar a esclarecer a dúvida.

3.4.07

Madrigal

Confesso: Julieta é, de entre os nomes de mulher, um dos meus favoritos. Por vezes, assobio baixinho Menina Estás à Janela. Mas isso sou eu, fora de moda, que nem me chamo Romeu. Olha, rimou!

2.4.07

Polpa

Umas vezes, brincalhão. Outras, deprimido. Hoje comprei maçãs de Alcobaça e umas pêras grandes. Doces!! (O corrector ortográfico do Word assinala erro quando exclamo em duplicado. “És muito amargo, estupor! Espécie de fascista…”). Ah, e também laranjas! Aposto que fico com outra fibra.

Lápis Hemostático

Apareceu-me no espelho, esta manhã, quando escovava os dentes e decidia não fazer a barba. Pareceu-me um rosto conhecido. “Deixa de escrever disparates e vê se fazes alguma coisa com a tua vida!”. Anotei o conselho no vapor, bochechei e fiz a barba.

1.4.07

Ainda o Olhar (2)

Ainda o Olhar

Olhar e ver. Nem sempre juntos, sabemos. Do totalitarismo das imagens que nos submergem, o que retemos para a construção do nosso olhar? Para que nos serve olhar, para lá do sentido utilitário de ver?

O jornal Público reproduziu, na edição de ontem, algumas das imagens que fazem a perturbadora exposição “O Olhar dos Cegos”, organizada pelo fotógrafo Georges Pacheco. Os auto-retratos estão no Silo, Espaço Cultural do Norte Shopping, até 22 de Maio (juntamente com a exposição “A Memória das Lágrimas” – um outro projecto de auto-retratos, do mesmo autor).

Numa entrevista a Sérgio B. Gomes, publicada no blog Arte Photographica, Georges Pacheco diz que partiu para o projecto com a seguinte pergunta: “de que forma o olhar dos cegos toca quem vê as imagens?”. Todo o trabalho pode até ser algo polémico mas, talvez por isso, provoca reflexão. A mim, deixa-me a pensar no modo como nos relacionamos com esse sentido vital e ao mesmo tempo tão banalizado.

Afinal, de que forma o olhar do outro, o cego ou aquele que vê, toca quem o encontra? E, talvez mais importante, de que forma somos capazes de ver o mundo, pelos olhos do outro? Ou, por outras palavras, mais simples e mais bonitas: "Imagina que levas os meus olhos a passear. Serias capaz de me contar o mundo a partir deles?".

Jardinagem

Pega-se num molho de sacos de plástico, daqueles das compras, do mini, do super, do hiper, do talho, seja lá do que for. Cortam-se às tiras e enrolam-se em novelo. Com uns passes de croché, nascem umas bolsas de alças, duráveis, resistentes e originais. Está consumada a reciclagem e a criatividade. É apenas um dos exemplos do que se pode encontrar por aqui, todos os primeiros e últimos domingos de cada mês, numa feira-festa que vem crescendo desde Setembro.

Também há aguarelas, velas, tixartes com muita pinta, plantas aromáticas e bijutaria a perder de vista. Este domingo, dei com uns tipos que se propõem decorar, como nós quisermos, os monótonos electrodomésticos brancos lá de casa. É a cidade, no seu melhor. Ponto de encontro das diferenças, das ideias, de novos e velhos, da música e da cor. Desci do bairro, a desentorpecer as pernas do trabalho. Fui lá beber um chá, na esplanada. O sol estava na brincadeira mas acabou por aquecer. Foi fixe. Obrigado, (m)Ana.

Cafeína : PB©2002

Allhandra, 31 de Março de 2007


Foto: PC

31.3.07

30.3.07

Silêncio de Circunstância

Outra vez o fim. De semana a semana, um parágrafo. Mudar de linha, em silêncio, e recomeçar. Enrolar-me na máquina de escrever descanso e trabalhar mais um pouco. Começar, num parágrafo de silêncio, a derrubar a semana. Escrever, outra vez, como quem inventa um alfabeto para mudar de linha. Pura circunstância, enfim.

Small Talk

A boca abre-se, fecha-se e as palavras vão saindo, acumulando-se ali mesmo, entre o nariz e o queixo, como um bafo nevoeiro num dia frio e sem vento. Palavras flutuantes, como se nada se tivesse passado. Quase o mesmo tom para a mágoa e para os novos estados de alma.

Quanta irremediável estranheza num rosto. Um eco, por entre mil imagens e sons. A boca, já disse – o corpo todo em fade out.

Era uma vez...

... o Pequeno Herói. É pena. Nunca lá fui, mas acompanhei a magia pelos relatos de quem agora me traz a notícia do encerramento. O que havemos de fazer, para manter as ilhas à tona deste mar revolto mas, ao mesmo tempo, tão apetecível? Comprar local, claro. Dinamizar a vida de bairro, sim. Mas, parece que não chega. Chamamos o super-homem?

29.3.07

Abril à porta

Quase um ano depois, as sombras permanecem mas a Luana está mais crescida.

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As coisas bonitas devem ser partilhadas ;-)

O cartaz

Os aracnídeos colocaram um cartaz na rua. É um cartaz nojento, imbecil. Regista-se, é importante registar. As autoridades avaliam a questão legal. Cumprem a sua função. Espero que os media não se ponham aos gritos, sobre o assunto. Quer-me parecer que é isso que eles querem. Mas são apenas parentes menores das baratas. Coisas de rodapé.

Are You Talking To Me?

Às vezes, penso que estou a enlouquecer – loucura mansa mas, ainda assim, loucura. É quando vou na rua, mergulhado nos meus pensamentos (mais ou menos sombrios, mais ou menos extravagantes) e dou por mim à beira de verbalizar as minhas reflexões e os meus diálogos interiores. Isso! Quase, quase, quase a falar sozinho, em voz alta. Normalmente, disfarço. Observo um cão a cagar no passeio ou uma pessoa a tentar enfiar um carrinho de bebé entre dois automóveis, na passadeira – e passa. Hoje aconteceu. Disse, a pensar numa mulher que eu cá sei: “apetecia-me rebolar na relva contigo, escutar o teu riso fresco e esquecer isto tudo!”. Até fiquei zonzo e podia jurar que a velhinha, que se cruzava comigo naquele instante, apressou o passo. O meu olho direito ainda a apanhou a espreitar-me, de esguelha, já o esquerdo controlava o trânsito, no cruzamento seguinte. Não me parece que seja caso de polícia.

28.3.07

Outros Belogues

Gosto do layout e de algumas coisas que leio in.

(Central Park, NYC, 2005)

Olho por Olho

Não sou bem estrábico, tenho apenas um olho preguiçoso – apesar do meu amigo PB me retratar, desde sempre, como um Sartre elevado ao cubismo. Eu explico. Quando estou cansado ou quando fixo o olhar, para ler ou ver televisão, o olho direito arruma-se para o lado de fora e deixa o esquerdo fazer o trabalho principal. Bem sinto o constrangimento de algumas pessoas quando tentam perceber para onde estou a olhar quando, evidentemente, estou a olhar para elas. Nunca peço desculpa. Acho que não devo. Também há pessoas com o nariz torto ou umas orelhas anormalmente assimétricas e eu não me ponho com dichotes. Se têm alguma dúvida, perguntem. (Já agora, uma dica: nestes casos, apontem o olhar para o topo do nariz, mesmo entre os olhos. Nunca falha!)

Retomando. Não tenho visão binocular. Quer isto dizer que, ao contrário da maioria das pessoas, os meus olhos não conseguem formar uma imagem única. Não dava para piloto, até porque também sou proprietário de um formidável astigmatismo, que tem espantado gerações sucessivas de optometristas. Mas também não queria. Às vezes, sonho com um passeio de asa delta, mas não passa disso. Os médicos já me disseram que o problema podia ter sido corrigido quando era miúdo, mas agora tenho que viver assim. Não é nada de grave. Nunca me passou pela cabeça pedir contas aos meus pais. Agora que penso nisso, aquela fantasia da minha mãe querer mascarar-me de Camões, pelo Carnaval, podia ter ajudado. Por causa da pala, estão a ver? O problema era se me tapavam o olho direito, em vez do esquerdo. Mas eu, de Camões? Naaa! Não era por causa dos versos. Era a ideia de que os collants me fariam comichão. Só experimentei muitos anos mais tarde, daqueles para o frio polar. Bem quentinhos, por sinal.

Adiante. Resulta, de tudo isto, uma dúvida: quando o meu olho esquerdo está a processar a informação de um livro, de um filme ou da cara de um interlocutor, o que está a fazer o olho direito? Como não está fechado, presumo que também esteja a recolher dados – formas, cores, movimentos. Chegámos ao ponto. Imaginem que estou a ler na varanda: vou seguindo a história com o olho esquerdo, enquanto o direito vigia a vizinha da frente, que pendura a roupa no estendal. Poderá dar-se o caso de, uns anos depois, a minha memória de um belo romance de cavalaria incluir a surpreendente personagem de uma donzela com um telemóvel entalado entre a orelha e o ombro, enquanto vai espetando molas no equipamento do Benfica que o marido usa aos sábados, no futebol de salão com os amigos? Outro exemplo. Estou na sala, com o meu olho esquerdo a rever “A Mosca”, do David Cronenberg. O que faz o direito? Vai acompanhando o esvoaçar de uma verdadeira mosca, de quadro para quadro, da ombreira para a maçaneta da porta, e por aí fora. Será correcto admitir que este facto pode aumentar a intensidade da memória que guardarei daquele filme? É que, parecendo que não, pormenores destes podem marcar a vida de uma pessoa.

Ah, pobres olhos! Já vos dou descanso, depois deste parágrafo. Vou levar à letra o conselho dos oftalmologistas. “Para repousar a vista, procure o infinito, durante alguns instantes e, depois, rode os olhos em todas as direcções. É uma boa ginástica!”. Muito bem. Cá vou eu, a revirar os olhos. Um para cada lado.

AVC

O dia começou com a escuta da primeira versão de um trabalho sobre o impacto do AVC na vida das famílias dos doentes. Testemunhos fortes, cruzados com excertos do livro De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires. Vai para o ar esta sexta, nestas frequências, depois das sete da tarde – na véspera do Dia Mundial do AVC. Vale a pena ouvir mas, atenção, é um bocado duro.

Para o jantar, resolvi estrear a biografia do O´Neill, de que já aqui deu conta o amigo LP. Encomendo os filetes e abordo a obra. Sai-me logo o fim da história, com o poeta a sair de cena, na sequência de um acidente vascular cerebral. “Olha que coincidência macaca!”, foi mais ou menos isto que pensei. De volta a casa, apeteceu-me partilhar a coisa. Mas, para o clima não ficar muito pesado, que a ponte já deve estar a precisar de reforço, junto-lhe uma espécie de música ligeira que tinha guardada em pauta, há algum tempo. Vai já aí em cima.

De resto, é o costume: saúde, amigos! Que as outras fortunas vêm por arrasto.

"O Bom Alemão", de Steven Soderbergh

Houve quem gostasse. C. considerou, irritada, malgré Clooney, "uma pura perda de tempo". Não serei tão radical. Mas, reconhecendo as intenções cinéfilas do realizador, não pude deixar de sentir desilusão: a homenagem ao cinema americano do tempo da guerra, ou do imediato pós-guerra, falha quando deixamos de sentir vontade de ver a homenagem e queremos rever os originais (Casablanca, O Terceiro Homem, etc.). Este é, claramente, um filme que faz lembrar outro do autor: Kafka (de 1991), também de inspiração literária, de ambiente europeu e de estética estilizada. Filmes cuidados e sérios, talvez demasiado cuidados e demasiado sérios. Falta-lhes alma e emoção: aquilo que encontramos, às golfadas, nos romances imperfeitos (inacabados) de Kafka ou nos filmes de Michael Curtiz e de Carol Reed. De Soderbergh prefiro, sem grandes hesitações, os filmes de temática americana como Sexo, Mentiras e Vídeo, Full Frontal ou Traffic. Ou, quem sabe, Bubbles, que ainda não vi.

27.3.07

"Portugal, um retrato social", de António Barreto (1º episódio)

E, agora, algo completamente diferente: serviço público de televisão na RTP! De vez em quando acontece, mas é raro. Na sexta-feira passada, quem soube, ou quis saber, pôde ver no canal 2 Lisboetas, o muito interpelador documentário de Sérgio Tréfaut sobre as diversas gentes que chegam a este extremo da europa ocidental com vontade de melhorar a vida. Hoje, a horas inesperadamente decentes, estreou Portugal, um retrato social, o programa de António Barreto que promete ser um oásis no meio do deserto televisivo público & privado. O que, na conjuntura actual, pôde funcionar como um contraponto involuntário, mas poderoso, aos resultados do concurso promovido pela própria RTP. Na verdade, as imagens e os depoimentos do país miserável, analfabeto e faminto que Salazar deixou aos vindouros também são uma resposta clara aos televotos dados a tão "grande português". Não que seja esse, obviamente, o intuito do programa de Barreto (sendo, aliás, empobrecedor vê-lo apenas a esta luz), mas é inevitável estabelecer esta ligação por força do próprio ponto de partida apresentado: Portugal mudou, e muito, nos últimos 40 anos (ou seja, desde que Salazar caiu da cadeira). Com avanços e recuos, somos agora mais urbanos, menos pobres, mais viajados e alfabetizados, vivemos mais e melhor, podemos dizer o que pensamos, há mais cores para além do cinzento. E, no entanto, o programa não me pareceu nada optimista, antes pelo contrário: é verdade que pudemos assistir ao nascimento da Rosa, logo no início (pretexto para valorizar o feito médico e social da redução da taxa da mortalidade infantil), porém a secção final foi dedicada ao modo como lidamos com os nossos mais velhos. E, embora tudo tenha sido mostrado com pudor e dignidade, a verdade é que sobressaiu, apesar das novas relações familiares, mais livres e individualistas, a imagem de um país pouco jovem, doente e cansado, sem força nem rumo. Bem sei que foi apenas o primeiro episódio, que certamente esta imagem será completada com outras que reflectirão a complexidade de Portugal... Mas talvez seja um sintoma de um país (não apenas de um homem, Barreto; ou de um homem e uma mulher, a realizadora, Joana Pontes) que sabe de onde veio, mas não sabe muito bem onde está ou para onde irá. O que é, simultaneamente, perturbador e estimulante. Aguardemos, pois, pelos próximos episódios.

Billie Holiday & Gerry Mulligan

O rapa-tudo

Nota final (para desanuviar)

Já tinha marcado bem a minha posição sobre o assunto, antes do desfecho do polémico passatempo televisivo. Agora, se ela me tivesse dito que levava o Afonsinho – o facalhão maior do condado da cozinha –, a conversa teria sido outra, naturalmente.

Laurie Anderson, "Big Science" (1982)

"You were born. And so you're free. So happy birthday."

(Último verso de "Born, never asked", 5ª canção de Big Science, álbum que será reeditado em Junho deste ano. Laurie tocará em Lisboa, no dia 15 de Julho, na Culturgest. Quantos somos?)

O rapa-tudo (alguns apontamentos)

Nota prévia

Desdramatizar este caso que, não tarda (quanto a mim), cai no esquecimento público, não me parece desrespeitoso para com as feridas sentidas pelos familiares e amigos das vítimas do fascismo. É, parece-me, reafirmar a vontade de renovar Abril, com tolerância e discernimento.

25 de Abril, sempre!

Com todo o respeito pelo notável pensador, acho um exagero falar em “morte simbólica do 25 de Abril”, como faz Eduardo Lourenço, em declarações ao jornal Público de hoje. Talvez importe voltar a sublinhar o facto de se ter tratado de um concurso televisivo sem qualquer relevância técnica e científica, do ponto de vista da auscultação dos portugueses (as verdadeiras sondagens realizadas, atiram Salazar para uma cadeira menos notada). Já não me custa subscrever que a pobreza genérica do universo televisivo e os ziguezagues das políticas educativas, nas últimas décadas, têm intoxicado a alegria de Abril.

O maior

Numa recente viagem à Turquia, confirmei que a figura de Mustafá Kemal Pasa (1881-1938) é absolutamente tutelar naquele país. O retrato do homem, que ficou para a história como Atatürk (pai dos turcos), é visível em quase todos os restaurantes e lojas de Istambul, dos mais antigos aos mais modernos. Falando com as pessoas, percebemos que a admiração e o agradecimento, são genuínos e partilhados por velhos e jovens. Afinal, foi ele quem conduziu a Guerra da Independência e fundou o novo país, há menos de um século. Não sei se a TV Turca teve alguma versão do concurso mas não tenho dúvidas sobre o largo consenso (com excepção dos sectores muçulmanos mais radicais) que se formaria em redor de um nome e de uma figura, por razões inteiramente claras. Podemos ambicionar o mesmo em Portugal a não ser, talvez, em relação ao calmeirão (era grande, não era?) que bateu na mãe e espadeirou pátria abaixo?

O concurso

Não acompanhei de perto mas sempre me pareceu que se pretendia comparar o incomparável, de forma básica e trôpega. Como algumas vozes (a de Pacheco Pereira, por exemplo) já fizeram notar, se a RTP tivesse tido algum tino (e gastasse melhor o nosso dinheiro) , realizava programas informativos sobre várias personalidades e depois apresentava uma grande e credível sondagem. Mas isso não era lá grande circo de audiências, pois não? Assim, como também notaram diversos comentadores, aconteceu o costume: os mais radicais mobilizaram-se e os extremos ideológicos aplicaram-se no mediático braço de ferro.

O segundo

A propósito, não merecerá um comentário o facto de Álvaro Cunhal surgir em segundo lugar? Claro que o “prémio” de ser o “maior” teria sido justo, na medida em que Cunhal foi uma figura central no combate à ditadura, e bem sofreu com isso mas, já agora, convém não esquecer o tipo de sociedade que Cunhal e os companheiros da linha dura comunista defendiam para Portugal. Eu sei que isto pode chocar almas mais sensíveis mas não vejo grande diferença em ser perseguido por tipos de sobretudo cinzento ou vermelho – a não ser o facto do vermelho dar mais nas vistas.

Os gajos

Confesso que não percebo o espanto perante o facto de existirem alguns milhares de admiradores do ditador de Santa Comba. Pensavam que tinham fugido todos para o Brasil ou se tinham refugiado debaixo dos calhaus, nas Selvagens, à moda dos lacraus? Não sejamos ingénuos, ele há por aí por muito facho e muita gente danadinha para ter um dótóre daqueles a acabar com as poucas-vergonhas. Há também, por estes dias, notícia de uns aracnídeos que parecem apostados em tomar de assalto o associativismo estudantil. Os maus ventos que já sopram noutros países aconselham vigilância cívica mas, já agora, sem paranóias. E, de uma vez por todas, uma abordagem séria do sistema educativo - principal antídoto para os extremismos que se aproveitam da ignorância e da pobreza de espírito.

Respirar

... ares mais puros.

Orgulhosamente tótós!

Pobre país! Às vezes parece um cadáver apodrecido... Nem o sal o livra de tal azar!

O que sentiram?

O que sentiram os filhos, as filhas, os pais, as mães, as namoradas, os namorados, os amigos, as amigas, os conhecidos, as conhecidas daqueles que morreram em prisões como a do Tarrafal, enviados para lá pela Pide, quando ouviram que os PORTUGUESES elegeram António Oliveira Salazar como o Maior Português de todos os tempos? Eu senti VERGONHA! Eu tenho VERGONHA de pertencer a um povo que elegeu um ditador bolorento como o maior português de todos os tempos ... Escrevi antes que um concurso de Tv vale o que vale, mas foram milhares de portugueses a votar ... por isso fico ainda mais envergonhado. Vivemos em democracia há mais de 30 anos, a história não pode ser branqueada mas daí a eleger um ditador como o maior português de todos os tempos vai uma distância muito grande ... como disse o M.M. há uns tempos: SHAME ON YOU!

Prisão do Tarrafal


Interior da Prisão do Tarrafal ...

26.3.07

O Pente do Vento

(Praia de Ondarreta, Donostia-San Sebastián, 2005)

As memórias, despenteadas, como o vento. O aço na pedra, sobre a água – matérias vitais, como a memória. E a ferrugem. Faz agora 30 anos. Regresso por acaso, por aqui. Gosto desta paisagem. Desta marca do homem na paisagem. Ou ao contrário. O desejo de ser vento, que não pára, sabes? E, ao mesmo tempo, o desejo de ser aço na pedra. “Sopra-me, e eu vou” – parecem dizer as ondas em que me imagino mar. “Agarra-me, que fico” – respondo, aço, sangrando.

Miguel Robles/Arvo Part: Tabula Rasa

Arvo Part: Spiegel im Spiegel

INACREDITÁVEL

"Os Grandes Portugueses" (?)
Em programa da RTP Salazar eleito "o maior português de sempre"???????????
Podem chamar-me o que quiserem mas isto é uma aberração incrível!!!!!!
Mas será que esta gente não tem memória? Não conhecem a história de Portugal, só pode!
Lamentável!

Tradução Simultânea

Se bebermos o mesmo vinho, no mesmo instante, eu aqui e tu aí – descontado o fuso horário –, será que nos sucede saborearmos a boca um do outro? As crónicas enófilas nunca esclarecem estas questões. Só falam dos taninos e da compota. Ora, abóbora!

25.3.07

quod facis fac sitius

Ele, que não pescava uma de latim, insistiu na mesma tecla, socorrendo-se das páginas azuis do dicionário mas esperando, secretamente, que o amigo não alargasse mais a prosa por esses lados, para não fazer triste figura. Sentia que o latim podia dar uma ajuda, pela sólida base que representava, embora não fosse, de todo, o mais natural nele. Sentia ainda que a amiga estava bem intencionada mas, de facto, toda aquela história começava a incomodá-lo. Não é que não fosse uma possibilidade (a vida está cheia delas, claro) mas começava a transformar-se numa ansiedade. Como passar agora à acção, sem ser de uma forma, digamos, caricata? (A pergunta é, ela própria, também um pouco caricata, naturalmente). Pareciam-lhe sábias, as palavras do amigo: “carpe diem!”. Foi fazer chá. Tinha arrefecido, apesar do mais tardio pôr-do-sol. Enquanto enchia a chaleira, pensava: "nunca nos devemos levar demasiado a sério, nem mesmo em latim!". Especialmente em latim.

De Natura Rerum

"Eu, no teu lugar, não dizia nem mais uma palavra!", ele disse. Mas ela, que não era ele, continuou a dizer o que bem entendia, uma frase a seguir a uma piada, meia palavra depois de uma gargalhada, até não se perceber a diferença entre o que de facto se devia dizer e o que se deveria calar enquanto se foi dizendo. Em suma: falar é humano; não há, como é natural, naturalidade que assim sobreviva.