31.12.06

E o Bush?


Completamente triste o espectaculo oferecido pelas televisões de todo o mundo ... as imagens imediatamente antes do enforcamento ... longe me mim insinuar que o Saddam era um santinho ... não o era e merecia ter sido julgado e punido com decência e não a mando dos pseudo polícias do Universo ... Quando é que o "Bush Laden" será também julgado pelos crimes praticados em nome do dEUS petróleo?????

Já devem ter visto mas coloco aqui a caricatura do André Carrilho para a edição de hoje do DN ... Bom Ano Novo e mais decência ... é o que desejo ...

Não me peças

um balanço do ano, por exemplo, nem sequer um balanço de coisa alguma. escrevo apenas o indizível - deixo em branco a página e estes dias de balancetes. não me peças isso nem o seu contrário, que estão esgotadas as agendas de capa preta e folhas brancas, que é uma forma comercial de te dizer que estão esgotados os dias e as semanas e os meses e o ano e há ainda um vazio no prego do calendário. (...) não é exactamente um vazio: balança, no lugar do tempo, o desejo, entristecendo.

Este poema

O LADO DE FORA

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

Manuel António Pina

28.12.06













Fiquei sem computador pq uns "artolas" (por enquanto não vou dizer o nome da empresa) em tempos mexeram no mac e não aparafusaram como deve ser os dissipadores que fazem o arrefecimento dos processadores e um deles pura e simplesmente ARDEU e queimou a Santa Placa Mãe :-) ... deixo uma foto do Mac esventrado ... o dissipador é aquela estrutura metalica às tirinhas ...

26.12.06

O Problema do Natal (3)

Os restos, caixas desmanteladas, plásticos rasgados, papéis de muitas cores, amachucados em bolas de todos os tamanhos, lixos de toda a espécie, espalham-se agora a partir dos caixotes ou dos recipientes de reciclagem, invadindo os passeios e as calçadas. As famílias desviam-se para passar e reclamam, com certo azedume, contra o facto de não se ter feito a devida recolha, de as ruas estarem sujas, os excessos de Natal que quase todos cometemos. Para o ano, e apesar da crise, há mais. Assim queira Deus...

Este silêncio.

Esta noite

Esboço a palavra que apago, molhando a ponta do dedo na língua (mordendo as mãos?). Numa BD, seria um balão em branco. Assim, exposto e mudo, é apenas silêncio nocturno, à deriva. Na saliva.

25.12.06

Esta manhã

Há, neste amanhecer, um silêncio feito de cobertores puxados por cima da cabeça, aconchegando sonhos e abraços ternos.

Há embrulhos desfeitos pela casa, fitas e risos coloridos. O gesto é tudo e outros jogos nocturnos tombaram de cansaço feliz, eram o quê? umas três, quatro da madrugada? Sobrou comida (ainda bem!) e um rol de histórias antigas, sempre repetidas com o mesmo entusiasmo.

Repara como a criança agarra a boneca nova, neste silêncio feito de lençóis mornos e mantas pesadas, aconchegando princesas e dragões. Nota como esta, um pouco mais velha, até sonha com o momento em que vai pular da cama para voltar a jogar mil vezes o jogo novo – mas dorme ainda. E adiante, ao fundo do corredor, como a cama mais larga é ainda maior, no aperto carinhoso de dois corpos.

Deslizo pela casa e espreito, numa janela, a rua deserta. Apenas pássaros e sinos, ao longe. Percorro os quartos vazios, imaginando as respirações da manhã mais tranquila do ano e sinto um dorido e quase febril desejo de fazer nascer uma família.

24.12.06

Ainda o Natal

Contar as horas para mais uma composta explosão da família nuclear, enquanto este frio de prumo morde o corpo. Dizer: para o ano serei intensamente feliz. E acreditar nisso como na realidade de uma mão cheia de pinhões. Decorar uma árvore, da raíz aos ramos mais altos, e saber dizê-la em todas as estações, como um poema favorito, que vai ganhando flores e frutos e, às vezes, perdendo folhas, na agitação jardineira do poeta.

Com(tra) a Letra de Fernando Assis Pacheco


Certos poetas escrevem e fica escrito. Há uns tempos, no "Actual" do Expresso Joaquim Manuel Magalhães escrevia sobre isto e dava o exemplo de Jorge de Sena, criador alérgico a revisões da obra produzida. Outros colocam-se no pólo oposto: rescrevem, corrigem, apagam, acrescentam, emendam em sucessivas edições o escrito ao longo de uma vida. Carlos de Oliveira fica como exemplo maior deste tipo de autores, tanto na prosa como na poesia, com a sua atitude de permanente recomposição do que foi escrevendo. Dos vivos há muitos outros exemplos, um dos melhores (para além do próprio Joaquim Manuel Magalhães) será Herberto Helder, cuja Poesia Toda tem sido sucessivamente rescrita e reconfigurada em "poema contínuo", organismo vivo e voraz que se consome e é o alimento de si mesmo em permanente invenção.
Todo este alongado prólogo vem a propósito de um poeta de que falámos ontem à noite e de que gosto muito, ainda que não o tenha relido nos últimos tempos: Fernando Assis Pacheco. E, particularmente, de um poema seu que me comove de forma profunda e inequívoca. E que o poeta, se me for permitida a ousadia, não foi feliz... mudando-o. Trata-se de "Com a Tua Letra", um texto de Cuidar dos Vivos, o primeiro livro de Assis Pacheco, editado em Coimbra, em 1963. Ei-lo:

"Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra."

Ora este poema "insuportavelmente belo" foi republicado em A Musa Irregular, volume editado pela saudosa Hiena Editora no ano de 1991. Em "Nota" final, Assis Pacheco explica que Cuidar dos Vivos foi expurgado "dos poemas mais caducos", tendo outros (como no caso de "Com a Tua Letra") sido reduzidos "em extensão" ou sofrido "algumas correcções vocabulares". Tudo em nome de "uma escrita modesta", marca ética e estética de um autor enorme que recusou, sem dúvida, a ênfase e o sentimentalismo mas que, no caso em apreço, pecou por excesso de rigor, pois nem sempre "menos é mais". Vejam o que sobrou do poema de 63 - apenas isto:
"Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra."
Das cinco estrofes da versão de 63 resistiram apenas duas, as últimas, redução que elimina a espécie de introdução à matéria do poema (falar do amor, falar de muitas coisas através dele) que é a primeira estrofe dessa versão e o seu desenvolvimento/expansão (as duas estrofes seguintes, as mais longas, respectivamente uma oitava e uma décima), onde se trata do conhecimento das coisas, do "território" e das suas "estradas", bem como da morte ("definitiva irremediável morte"). Em 91, o poema fica reduzido a um quarto (os 31 versos iniciais passaram a... 8), perdem-se pelo caminho imagens assombrosas de beleza e sugestão como aquela das "rodas acendedoras de caminhos" ou a "forma difícil de coragem" que o amor nos proporciona. Infelizmente. Infelizmente, também, não tenho eu agora acesso ao original de Cuidar dos Vivos, de 63 e, por isso, não posso saber se assis Pacheco noutros casos foi mais certeiro e justo na sua tarefa de se ler a si próprio. Leio "Com a Tua a Letra" na Antologia da Poesia Portuguesa 1940 - 1977, de Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro, Moraes, 1979, 2º volume, pp. 305/306. Um dos melhores poemas de amor que conheço, um dos mais altos momentos poéticos deste 2º volume e desta antologia. Um poema que já não existe como eu desejaria na obra poética do seu autor. Mas um poema que existe para mim.

O problema do Natal (2)

Lado a lado, no passeio, vão conversando:
- E então, conseguiste resolver o problema das prendas deles?
- Sim, já tratei disso. Vai tudo corrido a livros!

Desportos de Inverno


fui do Atlético de Madrid no tempo de Futre e do Barcelona de Figo; agora sou do Chelsea de Mourinho e dos outros portugueses que ele para lá levou. Nem para todos, porém, se inclina igualmente o meu coração: por exemplo, o Manchester United de Cristiano Ronaldo e de Carlos Queirós não me merece grande simpatia (eliminação da Liga dos Campeões à parte!), embora me delicie com as invenções, a força, a elegância e a velocidade do Cristiano Ronaldo.
Uma das razões para este afeiçoamento a certos clubes estrangeiros, por intermédio de jogadores ou (caso único e very special) de um treinador nacionais, deve ser, por certo, o facto de serem clubes habitualmente perdedores, "anti-sistema" (seja este simbolizado pelo Real Madrid, que Figo também representou mas que não suscitou nunca paixão idêntica à do Barça, ou pelo Manchester United...) e que, com eles, (re)começaram a ganhar. O Atlético de Madrid não foi campeão de Espanha, mas ganhou duas Taças na época de Futre. O Barcelona de Figo ganhou tudo, menos a Liga dos Campeões (mas ganhou uma Taça das Taças com uma exibição fulgurante do rapaz da Cova da Piedade). O Chelsea de Mourinho continua a ganhar, com grande estilo e emoção, na Inglaterra, faltando-lhe o título europeu que Mourinho mais anseia.
Dado o pouco entusiasmo que as nossas cores clubísticas têm despertado nas almas sedentas de beleza e alegria que nos habitam, resta-nos, pois, procurar conforto e aconchego nas camisolas operárias e lutadoras do Chelsea... que jogarão, ironia do futebol, com o Porto um destes dias. Vamos torcer por quem?

23.12.06

fazer nascimentos

"(...)

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

(...)

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

(...)"

Manuel de Barros, Uma didáctica da invenção

O problema do Natal

Uma mulher, numa livraria, ao telefone: "Olha, encontrei este, achas que o Manel ia gostar? (...) Queres que compre e te resolva o problema?"

22.12.06

A voz das árvores

O cemitério é pequeno e novo, ainda com muita terra rasa, como alguns olhares que se cruzam. Tem uma árvore em cada canto. Enquanto o padre diz uma oração, olho essas árvores e recordo os sinais que Fernando Alves semeou na telefonia, no dia seguinte ao telefonema que encheu de tristeza a nossa casa das notícias. Lembrava ele “a voz que entrelaça notícias, como se dissesse árvores, árvores apenas, sem adornos”. Quatro árvores, uma em cada canto, e um estúpido buraco no chão. Daí a pouco, outra vez, o arrepio da terra na madeira, engolindo, definitivamente, aquela “voz doce que entrelaça notícias, enquanto se faz ave para longe, para o absurdo longe”.

Este lugar chama-se Rostos. Lembro-me que o de Leonor Colaço ruborizava, às vezes, nas maçãs de pele muito clara. Rostos. A partir de hoje, estes terão sempre uma voz doce, entrelaçando árvores, “árvores apenas, sem adornos”.

2006

Gosto das edições de balanço de final de ano dos jornais e das revistas, forma de acertar contas e pesar um certo período de tempo que foi meu (nosso) e passou. O suplemento "6ª" do DN apresentou hoje as suas escolhas de 2006 de filmes, discos e livros, revisão oportuna da matéria dada, não isenta de riscos e equívocos, mas por isso também interessante. Dois exemplos:
primeiro, na lista dos "dez melhores DVDs «clássicos» lançados em 2006" (p.22) não aparece nenhum dos filmes de Visconti (Obssessão, A terra Treme, etc) ou de Rossellini (Roma, Cidade Aberta ou Viagem na Itália), editados nesta última quinzena de Dezembro; fica também de lado a edição de sonho da dupla visão de Scorsese sobre o cinema americano e o cinema italiano, acabadinha de chegar aos escaparates (confirmem no suplemento concorrente "Y" do Público de hoje!): consequência de fazer balanços do ano antes do fim do ano;
segundo, nas escolhas dos livros, elas surgem aglutinadas entre ficção (nacional/internacional) e não ficção, o que é uma opção absolutamente estrambólica e indevida. Então "ficção" não é designação para obra ficcional, de maior ou menor desenvolvimento/aprofundamento (romance, novela, conto...) da matéria narrativa, com personagens, intriga (ainda que rarefeita ou escassa), narrador, tempo e espaço? Pois parece que não! Na categoria "ficção nacional" (p.p. 28/29), pasme-se, surgem nada menos, nada mais do que 5 livros de... poesia! Obras de Fiama, António Osório, Vasco Graça Moura, F. Echevarria e Gastão Cruz, todos altíssimos poetas, de todos apenas Graça Moura, que eu saiba, com obras de ficção publicadas. País de poetas, mas não de ficcionistas, Portugal! Pois. De resto, o equívoco mantém-se na categoria da "ficção internacional" (p. 30), que inclui 3 livros de poesia: Harmónio de W. Stevens, Residência na Terra de Neruda e Paraíso Perdido, de Milton (pese embora se possa alegar que o clássico de Milton seja um poema épico, portanto, essencialmente narrativo... não sendo prudente, entretanto, sobrepor o ficcional e o narrativo). Critérios muito amplos para definir "ficção", portanto. Mas talvez isto não importe assim tanto; talvez as categorias sejam todas falíveis (umas mais que outras, valha a verdade!); obviamente, o que importa é ler, e ler livremente: a poesia como ficção, o romance como poema, o drama como reportagem... talvez; o que é que acham?
Quanto a mim, aproveito agora o balanço dos balanços e apresento, também, descaradamente as minhas 6 escolhas de 2006. Cá vão elas:
1) livro de poesia do ano: Voz Consonante, traduções de poesia de António Ramos Rosa;
2) outro livro do ano: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, de Tony Judt;
3) série televisiva do ano (surpresa): Deadwood, (primeira e segunda temporadas), de David Milch (que ninguém parece ter descoberto ainda!)
4) outra série televisiva do ano: A Feira da Magia, (segunda temporada) de Daniel Knauf (que toda a gente já descobriu!);
5) filme do ano: os dois filmes-documentos do realizador austríaco que vimos (?) no festival de cinema independente de Lisboa sobre sobreviver nas megacities e trabalhar sabe Deus como e onde!;
6) blogue do ano: este, o nosso, aqui, no umbigo. Bingo!

21.12.06

Freud, pelos cafés

Quero um sonho!