31.7.06

Ao sol,

a sul!

Cantilena da Vida Toda

"à uma eu nasci
às duas baptizei
às três pedi namoro
e às quatro me casei
às cinco uma dor ai ai
às seis uma aflição
às sete no doutor
e às nove no caixão
às dez a caminho
às onze enterrado
e às doze lá no céu éu éu"

(versos que F. me ensinou hoje ao meio-dia)

Syriana


A não perder.
Nota8/10.
O governo americano
não deve achar muita piada a este filme ...

Vagamente, a selva e outras respirações

Orlando Mascia deixa-nos quase sem respiração, quando ataca a launedda, utilizando as bochechas do rosto como se fossem o saco de uma gaita de foles. As bochechas incham e desincham um pouco mas a música, produzida pelas três flautas de diferentes tamanhos, nunca é interrompida para reabastecimento dos pulmões. Os Ahs! de espanto vão subindo de tom, na audiência, até que uma das mulheres do grupo polifónico Actores Alidos explique que Orlando utiliza a técnica da respiração circular.



Saltam e fazem pular: quatro músicos, que se conheceram a tocar nas ruas de Nantes, em França, num espectáculo de energia, numa outra noite do Festival de Músicas do Mundo, em Porto Covo. Levavam uns míseros 25 CD's que se esgotaram enquanto o diabo tirava mais uma imperial.

30.7.06

a ir buscar o azul de

São motas de pele e osso, reduzidas ao essencial, quer dizer: metal, borracha, ferrugem, pouco mais. Cavalgam-nas homens austeros, gordos e magros, de capacetes fora de moda - daqueles redondos com umas orelhas de cabedal -, por caminhos de terra batida. Pó e casas de férias para alugar. Pão de lenha? "Depois do café, vira à esquerda." Famel, Zundapp, Casal, outro país, este mesmo. Cães de guarda, presos a longas correntes, que calam protestos ao terceiro dia. Adiante, uma piscina. Um tanque, rectificará um técnico camarário, tratando-se de turismo rural. Seja, um tanque: com mosaicos-pastilha, escadas, ligeiro declive e cloro. A ir buscar o azul do céu, diria M., pousando o gim-tónico e elogiando os aromas silvestres.

Uma Imagem, Mil Palavras


Entre as leituras de férias: primeiro, reler Cidade de Vidro, de Paul Auster; depois, a adaptação de Paul Karasik e David Mazzucchelli para novela gráfica. Entre dois mergulhos, descobrir o modo cinema(to)gráfico como se conta a história com imagens (a preto e branco) e algumas das palavras originais. Imaginar técnicas de construção de um projecto. Condição prévia: uma boa ideia, uma história simples, uma trama, com tempo e lugar(es). Mais um mergulho, antes do regresso ao trabalho.

Gaiolas & Aquários


O seu passatempo 1: construir aquários cada vez maiores, ornamentados com areia da Arrábida e pedras do Guincho. Fala-me do Ph da água e das diversas espécies de filtros para a manter oxigenada no nível certo. As espantosamente coloridas espécies comunitárias, capazes de partilhar o espaço, já não o satisfazem completamente e, agora, prepara-se para receber, no maior dos aquários, ainda não terminado, as espécies que defendem o seu território "com unhas e dentes", expressão sua. A vivenda onde vive tem grades nas janelas e está sempre fechada à chave.
O seu passatempo 2: construir gaiolas cada vez maiores para canários, periquitos e roseicollis, com recantos e cavidades que as aves aproveitam, ou rejeitam, de acordo com a sua predisposição natural. Ele conta-me, por exemplo, que o casal de roseicollis criou o seu próprio lar, onde nidifica na perfeição. Fiquei a saber ainda sobre esta espécie que a maioria das crias recebe geneticamente do pai a coloração das penas e que um casal acasala para a vida toda. São, por isso, designados por "pássaros do amor". Também Ele ficará com Ela. Para o bem e para o mal. Para sempre.
O seu passatempo 3: noto que os aquários têm crescido, tal como as gaiolas, ocupando cada vez mais espaço naquela casa, enquanto ela não pode crescer mais. Que a temperatura da água é mantida igual no inverno e no verão. Que as rações de comida são restabelecidas de dois em dois dias. Que as limpezas necessárias são regulares e rigorosas. Que tudo isto foi planeado e construído por Ele, controlado por Ele, como um refúgio ou uma fuga do caos da vida lá fora, dentro de outras gaiolas & outros aquários. E fico a pensar nas prisões reais que criamos para podermos imaginar o que significaria sermos livres um dia...

28.7.06

AXLE MUNSHINE 2

in Público ...

O Vagabundo dos Limbos
Por CARLOS PESSOA
Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2001

Uma tradição, tão antiga como o mundo, diz que o sono é irmão da morte. Ora, essa é apenas uma forma de dizer que há um momento em que o corpo abandona o estado de vigília e se entrega ao merecido descanso nos braços de Morfeu, franqueando as portas que dão acesso à dimensão onírica da existência. Com efeito, se o corpo se rende a um merecido descanso, o mesmo não tem que acontecer forçosamente com a consciência individual e é aqui que o comportamento de Axle Munshine assume o seu mais pleno e total significado.

No começo de tudo havia o desejo do editor francês Hachette regressar ao mundo da BD, em meados da década de 70. Graças à intervenção do crítico Henri Filippini, o desenhador e argumentista francês Godard encontra-se com o desenhador espanhol Ribera para discutir projectos e ideias. Um encontro num café da praça da Ópera, em Paris, encerra o negócio: ambos farão uma série de ficção científica para ser editada directamente em álbum, como recorda Ribera: "Afastámos as histórias que apenas apresentassem os aspectos exteriores do género, ou seja, histórias em que bastava substituir o foguetão ou o corte de cabelo para poder ser também um 'western', os escafandros por chapéus de coco para termos um policial. Creio que isso impressionou Godard, tanto mais que eu acrescentei - 'não hesites em contar coisas que, em princípio, eu não seja capaz de ilustrar'". Assim será e Axle Munshine tornar-se-há em pouco tempo uma das mais imaginativas, originais e surpreendentes séries da banda desenhada europeia.

Antes de se tornar conhecido no universo como Vagabundo dos Limbos - na feliz expressão encontrada pelos seus criadores para significar essa terra de ninguém onde o herói prossegue a sua demanda errante e solitária -, Munshine conheceu glória e poder como Grande Conciliador da Guilda, uma instância estelar de domínio e regulação implacável dos destinos plurais de todas as civilizações e sistemas solares do universo. Porém, cometeu um único mas decisivo erro: atreveu-se a sonhar, o que lhe estava rigorosamente interdito enquanto cidadão de Xylos. Esse gesto transgressor do décimo terceiro mandamento da Guilda é a sua perdição e nem o estatuto soberano de que beneficia até então o salva.

Com o desapego que parece ser apanágio dos que sabem não haver uma radical diferença entre a vida e a morte, porque é essa transição que simbolicamente todo o ser humano vivencia no ciclo das 24 horas mesmo quando não se dá conta disso, Axle Munshine ilude a vigilância dos perseguidores e evade-se a bordo da hiper-sofisticada nave construída pelo próprio pai. É o começo uma saga que o leva a todos os recantos visíveis e invisíveis do universo, procurando em todas as culturas e civilizações os sinais de uma única e absoluta presença - Chimeer, a bela e inefável mulher dos seus sonhos, uma utopia sempre perseguida e nunca alcançada até agora.

Nesta insensata aventura leva consigo Musky, herdeiro do Príncipe dos Eternautas. Esta criatura que tem a capacidade, como todos os da sua raça, de escolher o seu sexo no momento aprazado, é testemunha silenciosa dessa absurda deambulação que parece condenada ao fracasso - mas nem sempre, sendo proverbiais os acessos de cólera com que brinda Axle Munshine, que não gosta de ser pressionado e reage com uma sublime indiferença em todas as circunstâncias, mesmo as mais perigosas e dramáticas. Por esse sonho, de uma realidade tão absoluta e significativa como não encontra, paradoxalmente, nos momentos em que está acordado, Munshine desafia e resolve enigmas essenciais. Aventura-se em labirintos de onde ninguém regressou, afronta a face de Deus, atreve-se por planetas inabitáveis, arrisca-se pelos meandros do tempo que esculpem a memória até ao esquecimento.

Não é certo, porém, que o herói retire dessas experiências todas as ilações e proveitos. De facto, ele não parece ter consciência, no final de cada aventura, de que nunca está mais perto do seu sonho do que no início. De facto, dir-se-ia que acontece a Munshine algo que é da natureza paradoxal do sonho - como quando se foge desesperadamente de um perigo iminente sem conseguir sair do mesmo sítio -, isto é, as coisas e as pessoas estão ao alcance da sua mão mas não basta um acto de vontade para que elas se modifiquem ou alcancem.

Obviamente, é nesse eterno recomeço que reside o segredo da série, um permanente e estimulante relançamento do herói no caminho da aventura, apostado em empurrar um pouco para mais longe os seus próprios limites. E quando assim é, perdoar-se-ão com facilidade algumas fraquezas evidentes, e em especial um desenho pouco coerente e seguro.

Nome: Vagabundo dos Limbos
Criador: Julio Ribera (desenho) e Christian Godard (texto)
Data de nascimento: 1975
Local: Edições Hachette
Época: intemporal
Série: ficção científica
Sinais particulares: Axle Munshine, o ex-Grande Conciliador da Guilda, é um proscrito do espaço, tendo caído em desgraça por violar um dos mais fundamentais interditos cósmicos - sonhar. Desde então, percorre os mundos conhecidos e desconhecidos a bordo do todo-poderoso "Delfim de Prata", uma fortaleza voadora auto-suficiente onde vive na companhia do andrógeno Musky, o palhacinho que apenas aguarda por um sinal para se decidir a ser homem ou mulher.

27.7.06

De Férias Numa Cidade (Des)Conhecida

(Auguste Renoir, Mulher com Rosa, c. 1875; óleo sobre tela)

(Manhã: uma exposição)
Grandes Mestres da Pintura: De Fra Angelico a Bonnard, no Museu Nacional de Arte Antiga. Uma parte da Colecção do Doutor Rau, de que se falou já aqui há uns meses. O retrato de uma jovem, de Bernardo Luini (c. de 1525) recebe-nos com as suas beleza e simplicidade irrecusáveis, preparando-nos para uma breve, mas intensa viagem, pela pintura europeia dos últimos cinco séculos. Por exemplo, um David a golpear um Golias deitado por terra. Alguns interiores flamengos. Um Fragonard retratista de grandes e vigorosas pinceladas (em contraste com a singeleza encantadora mas insípida, das escolas inglesa e francesa). Vários Monets, dois deles fabulosos, praticamente pintura abstracta (As pirâmides de... e As casas debaixo da neve na Noruega). A mulher com rosa, de Renoir, acima reproduzido. E muitos outros. A não perder, sob pretexto algum (pena é o preço nada meigo do catálogo! 32 euros!). Até 17 de Setembro. Ponham-se já a caminho das Janelas Verdes, está bem?
(Tarde: uma livraria e um filme)
A livraria, para fugir ao modelo Fnac, pode ser a da Almedina, no Monumental Atrium, no Saldanha. Aí pode-se comprar, por exemplo, o último de Rubem Fonseca, Mandrake - A Bíblia e a Bengala, Campo das Letras. Eis um pequeno excerto, para aquecer: "Eu tinha de salvar a minha relação com Angélica. Ela era uma boa mulher. Que horror, definir a mulher que você ama dessa maneira, uma mulher de bom coração. As pessoas de bom coração são as que mais merecem ser amadas, mas ninguém é amado só por isso. O que fazer? Viajar com ela. (...)". Ou um livro de poesia, que pode ser As Vinhas de Meu Pai, de Ana Paula Inácio, edição da Quasi, de 2000, por 2 euros, que abre com uma bela epígrafe de Raul de Carvalho: "Dei-te o meu coração / Que é bem maior que um livro". Depois um filme, talvez A Lula e a Baleia, ou outro, que as hipóteses são várias. Ao contrário da C., eu gostei muito deste, por ser duro e realista. Mas, também, por mostrar personagens ternas, frágeis e desamparadas...
(Noite: um jogo de futebol na TV)
Não, sobre isto não tenho nada a declarar! A não ser que, de facto, não há dias perfeitos!

AXLE MUNSHINE ...

Grande crónica.
Não tenho muito voto na matéria pq sabes não sou muito fan desta BD.
Sabes q por vezes estes argumentos teem de ser ajustados ... por vezes são estórias feitas ao longo de décadas e há q fazer alguns ajustes ...
Tens de ler as aventuras do AXLE MUNSHINE ... herói de um passado/futuro, humano ou não ... é muito bom. Posso emprestar-te a dúzia de albuns q tenho (começam nos anos 70 e veem até à e penso q ainda continua a sair...) Quanto aos livros posso perguntar-lhe (tem de certeza pois já mos teve para vender) mas tb te posso passar os contactos dele e dizes que és meu amigo (acho eu LOL ...)

26.7.06

Poeira Mágica Para os Olhos!


1) Para quem, como eu, sofre de paixão assolapada por westerns e (alguma) banda desenhada, o recente lançamento, pela Asa, de Dust, o 28º volume das aventuras do Tenente (agora Mister) Blueberry, é uma mais do que excelente notícia. Com este álbum, que consagra a passagem da personagem de Charlier e de Giraud da extinta Meribérica/Liber para a editora do Porto, fecha-se o “ciclo de Tombstone”, iniciado, na edição portuguesa, com a publicação de Mister Blueberry, em 1996, volume já da total responsabilidade de Giraud (texto e desenho), pois Charlier falecera, entretanto, em 1989. No que diz respeito ao mercado português, seguiram-se depois Sombras Sobre Tombstone (1999), Geronimo, o Apache (2000) e OK Corral (2003), 4 álbuns antes do referido Dust, lançado no passado mês de Maio. Cinco álbuns que honram o passado de Blueberry e não ficam nada atrás da qualidade dos que, a partir dos anos 60, foram sendo criados pela dupla original de autores. Antes pelo contrário. Esta “série de Tombstone” proporciona ao leitor evidente prazer, tanto ao nível do desenvolvimento da intriga, como sobretudo ao nível plástico (traço e cores).


2) Estamos, portanto, de volta ao conhecido e velho Oeste. De certo modo, este é um dos primeiros argumentos a favor da obra: ela conduz-nos ao reconhecimento de uma paisagem e de um tempo que já nos é familiar, convocando conscientemente o imaginário de um tempo adolescente, povoado de cowboys aventureiros, “peles-vermelhas”, planícies poeirentas, saloons a abarrotar de jogadores de póquer e de cantoras dispostas a tudo. Neste sentido, a criação de Charlier e de Giraud há muito que perdeu o seu aspecto inovador (que teve, quando surgiu, nos idos de 60), assumindo claramente um pendor clássico ou classicizante, ainda que sem deixar de lado a dimensão humanista, romântica, rebelde e politicamente incorrecta do seu (anti-)herói. Por isso, muito para além deste, o herói verdadeiro deste ciclo (e, na verdade, do conjunto da obra) é a própria noção de Oeste ou de fronteira, isto é, de espaço sempre tendencialmente de liberdade, (em) aberto, sem limites definidos à partida, onde as personagens acabam por se revelar na sua condição de seres humanos imperfeitos, capazes da amizade, do amor, da confiança, etc., e igualmente, da crueldade, da traição e da mais absurda violência.
3) Voltemos ao herói suposto da história: o ex-oficial do exército, muitos anos depois da sua experiência da Guerra Civil Americana, o agora Mister Blueberry. Marcado pelo passado, é um homem envelhecido, com o cabelo a branquear, sem ilusões, mas com princípios, que passa o primeiro volume desta aventura sentado a jogar póquer e os segundo, terceiro e parte do quarto acamado, ferido, melancólico, sem intervenção de maior na história. Sim, os heróis já não são o que eram... Este estratagema serve, no fundo, para Giraud colocar em primeiro plano outros verdadeiros heróis da mitologia do Oeste americano, principalmente “Doc” Holliday, os irmãos Clanton, Wyatt Earp e o chefe índio Geronimo, personalidades históricas que se cruzam com as personagens de ficção criadas pelo desenhador e argumentista francês, num procedimento narrativo que, não sendo novo, não deixa de ser eficaz e estimulante. Cria-se, assim, um efeito de realismo que chega a configurar-se através de pormenores cultos e deliciosos, como o de colocar o acamado Blueberry a ler Moby Dick, o fabuloso romance de Herman Melville, publicado em 1851 e que foi, talvez o saibam, um monumental fracasso editorial...


4) Se o herói está, em grande parte do enredo desta série, fora de jogo, quem está, afinal, dentro dele? Como acima sugeri, os grandes protagonistas são, a meu ver, dois: por um lado, a paisagem humana; por outro, a paisagem natural. Temos aqui, como em qualquer western (e, claro, John Ford e a sua A Paixão dos Fortes deve ter sido uma das obras inspiradoras de Giraud...), os homens duros e implacáveis da lei & da ordem, os batoteiros, os cidadãos anónimos e os fanáticos da Liga das Virtudes Americanas, os bandidos sem escrúpulos, os políticos sem coerência, os banqueiros e juízes corruptos, os jornalistas ingénuos, ou preconceituosos, os índios vítimas de racismo e de total intolerância, as mulheres sensuais e inteligentes, capazes de sobreviver, apesar de tudo, no meio de tantos homens vorazes... Em suma, um retrato de uma sociedade em construção, simbolizada pela cidade de Tombstone, entre o selvagem e o civilizado, à procura dos seus equilíbrios, que se move, basicamente, de acordo com os princípios da sobrevivência (do direito do mais forte em impor a sua lei, quase sempre de revólver em punho) e do desejo de riqueza (ouro & dólares) e poder. Uma imagem da América, portanto. Do passado. E do presente? Cabe, aqui, notar que mesmo os defensores da ordem social e representantes da lei são terrivelmente violentos, capazes de massacrar quem se atrever a desafiá-los... Num outro plano, temos ainda o lugar e a visão dos índios, um aspecto particularmente interessante. Porque revelador das ambiguidades do olhar de cá (do branco) sobre esses outros de “pele-vermelha” que, objectos óbvios de racismo e de xenofobia, são as vítimas e os bodes expiatórios ideais para todos os males e crimes que a civilização branca não pode aceitar como seus. É neste ponto que o Blueberry (e o Wyatt Earp...) de Giraud/Charlier confirma, mais uma vez, a sua visão humanista, justa e tolerante do Outro, vendo Geronimo e os seus índios como homens, ainda que diferentes, e não como monstros selvagens (facto sublinhado, por contraste, pelo verdadeiro monstro que é a personagem de Johnny Ringo, o serial killer que semeia crimes e terror pela cidade).

5) Mas, para além da paisagem humana, temos a paisagem natural, sobretudo o espaço aberto: esse imenso espaço (real e imaginário) americano. E é talvez neste ponto que a herança e a influência do cinema fordiano se tornam, aqui, mais evidentes e presentes. O traço de Giraud fixa, pois, em cores quentes e duras, com grande e rigoroso pormenor, a majestosa paisagem do Far West (e todos pensamos em Monument Valley...), uma paisagem que molda o carácter das personagens com o seu próprio carácter indomável. Céu azul e cinzento. Terra castanha, vermelha e amarela. A perder de vista. Poeira. Calor. Ravinas & cactos. Espaço que garante a liberdade (perdida) a homens e aos seus belos animais de estimação, os cavalos, sempre desenhados com elegância. São estes espaços amplos, feitos de dureza, rudeza e beleza, que penetram as almas das personagens, tal como acontece em A Desaparecida ou em O Homem Que Matou Liberty Valance. Evidentemente, um dos pontos (mais) fortes, em termos plásticos, de toda a obra de Giraud e deste “ciclo” em particular.
6) Muitos outros tópicos poderiam ser apresentados e desenvolvidos com mais tempo. Por exemplo:
a) o encaixe narrativo, com a sobreposição das três histórias que se cruzam e desembocam em Dust: 1) a história real/lendária do duelo no OK Corral; 2) a história de Blueberry e Geronimo no passado e 3) a história de Blueberry e Geronimo no presente);
b) o conflito entre o olhar realista e cru, representado pelo jovem aprendiz de jornalista de Boston, Billy, e a visão idealista, politicamente correcta e literária (quer dizer, cor-de-rosa, censurada) da violência e da barbárie humanas, por parte do seu “patrono”, o gorducho Campbell. Diz, por exemplo, este último: “Não é possível omitir todas essas alusões ao consumo de bebidas alcoólicas?!...” Responde o primeiro: “Mas... bloody hell!... Trata-se da estrita verdade histórica!...”;
c) o humor sempre presente, que atenua a dimensão mais sombria e negativa dos factos narrados (o referido Billy faz lembrar, por exemplo, a personagem de William Blake, no Dead Man de Jim Jarmusch: alguém que parece estar sempre a mais, mas acaba por se apropriar das cenas...);
d) o permanente processo de “morte” e “ressurreição” do nosso herói crepuscular, que passa toda a série a jogar uma espécie de jogo não declarado do gato e do rato com o cangalheiro da cidade (alguém diz, a propósito, em certo momento, que “Tombstone, como o nome indica, é uma cidade que morre”...);
e) a mulher e o modo como ela é caracterizada, simultaneamente símbolo do desejo e da sensualidade mas também da pureza, da coragem e da capacidade de entrega e sacrifício (o anjo da guarda do Blueberry ferido, Dorée Malone) ou, em sentido inverso, a mulher manipuladora e má representada pela matriarca dos Clanton.
Tópicos que talvez possam vir a ser retomados numa futura ocasião. Quem sabe?

(Henry Fonda/Wyatt Earp, em A Paixão dos Fortes/My Darling Clementine (1946), de John Ford; pormenor de Monument Valley ao fundo, em segundo plano)
7) Finalmente, dizer que este “ciclo de Tombstone” de Giraud é excelente mas também tem as suas falhas, sobretudo ao nível do argumento. Dois exemplos apenas, relativos ao final da intriga: o banqueiro criminoso que foge com todo o dinheiro da cidade sem que alguém se preocupe em mover-lhe a mais que justificada (?) perseguição e o facto do jovem Boone, depois de jurar que matará Blueberry por vingança, ter escapado da prisão e permanecer em liberdade... tal facto não parece incomodar ninguém, nem o próprio visado, talvez aqui excessivamente cool... Ou será que estas são “linhas” soltas que se retomarão em próximo episódio? A ver vamos. Esperemos que a Asa nos permita que continuemos a acompanhar as épicas e picarescas aventuras de Mister Mike Steve Blueberry.

(Uma nota final que é um pedido, PB: será possível, através do teu contacto a norte, encontrar os volumes que faltam na minha colecção blueberryana? São eles: Nariz Partido; A Longa Marcha; A Última Cartada; O Fim da Pista e Os Demónios do Missouri... Vê lá o que podes fazer por este teu amigo cronista!)...

HELP!

Meus caros,
estou tão mas tão cansado
que vocês nem imaginam ...

25.7.06

Em Teoria 11

Deveríamos saber melhor do que ninguém aquilo que queremos fazer da vida.

Em Teoria 10

Querer falar não significa que se tenha alguma coisa para dizer.

Em Teoria 9

Pior do que não ter ninguém que nos queira ouvir é não ter nada que dizer.

Em Teoria 8

Escrever ou não escrever não é a questão.

Em Teoria 7

Escrever é mais benéfico para a saúde do que beber (álcool) ou fumar (não importa o quê).

Em Teoria 6

Escrever não é uma questão de se estar feliz ou infeliz: escreve-se, e depois logo se vê.

Contas à Vida

1 sala de aulas. 14 carteiras. 28 cadeiras. 2 horas. 2 professores. Dos 3 alunos inscritos, 1 apareceu e fez o exame de Física. Que tinha 2 versões, a 1 e a 2.

24.7.06

Atenção à Tua Esquerda!

Na inspecção ao carro descubro, hoje, que a luz esquerda do travão está fundida: claro (e triste) sinal dos tempos. Ainda assim, aprovado no exame, o "veículo pode circular". Em direcção a nenhuma utopia...