29.1.07

Memória Fotográfica


(Mauritânia, Janeiro 2007)

28.1.07

A Flor e o Desastre

Dizem que até neva. Descubro um poema e rapto alguns versos, sorrateiro, como essa neve que diz que disse.


"Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre."


João Cabral de Melo Neto

Nubívago

Regressa a chuva. Mas como regressa, se nunca deixou de aguar? [Save as Draft para um desenho mas, hélas!, a este céu falta contraste e a chamada profundidade de campo]. Dizia eu, talvez não volte a escrever aqui "talvez não volte". Lição da chuva: nunca nos despedimos completamente, mesmo quando partimos sem retorno. Fazemos então de conta, de gargalhada, de boneca vodu com olhos amarelos, de cobói rufia, de poeta em chamas, de canto o silêncio. [Publish Post].

Esguichada

(depois de algumas palavras de LP)

Dizes um belo poema com facas e laranjas que também pode ser de unhas e dentes nessa pele. Sabemos como são doces ou amargos os gomos, às vezes com uma pitada de acidez que arrepia. Sabemos que, como as palavras, o sumo pode escorrer dos lábios para o queixo, até deslizar pelo pescoço, a pedir, digamos, alguma criatividade linguística. Mas – repara! -, tal como mordemos e chupamos as laranjas, dizemos quase tudo, quase sempre, com cuidado, para evitar salpicos e nódoas maçadoras.

Desculpa a franqueza algo citrina: que se fodam os salpicos mais as nódoas! Outra laranja?

26.1.07

Check Out

Procuro nos bolsos os restos da paisagem. Passo os dedos pela cara lisa, estranhando-me, vagamente outro. Uma voz comenta, sobre o meu ombro (dentro de mim?): começam assim muitas pinturas abstractas e algumas guerras civis. Respondo, ainda sem sorrir: um dia, da falta de sentido que há nisto tudo, nascerá a desejada tranquilidade. Coloco num cachimbo os restos da paisagem e arrisco um fósforo.

(Nota supostamente descoberta numa gaveta de um quarto do Hotel de La Poste, em Saint-Louis, no Senegal, onde pernoitou Antoine de Saint-Exupéry, enquanto piloto da famosa companhia Aéropostale)

23.1.07

Abrigo

Ampulheta

On the Road

(Num trilho pedregoso, em Marrocos)

Primeira Plateia

(Espectadores do rali nos arredores de Atar, na Mauritânia)

Todo o Terreno

(Crianças brincando em Mbaké, no Senegal,
perto da meta da penúltima etapa do rali Lisboa - Dakar)

Bicicletas na Poesia Portuguesa Contemporânea 2


Em Electronicolírica, livro de 1964, depois re-intitulado A Máquina Lírica (sigo a edição de Poesia Toda, Assírio & Alvim, de 1990, entretanto re-intitulada E o Poema Contínuo), Herberto Helder dá a lume o primeiro poema que conheço em que o leit-motif da bicicleta tem um valor significativo determinante (haverá outro, mais tarde, "Bicicleta", de Cinco Canções Lacunares). É o segundo poema desse livro-sequência-capítulo da obra poética de Herberto e começa assim:
"A bicicleta pela lua dentro -- mãe, mãe --
ouvi dizer a toda a neve." (p.251)
A bicicleta é o dínamo, o elemento desencadeador do movimento do poema como proposta de transfiguração do real - a bicicleta já não terrena, mas aérea, voadora, lunar (spielberguiano como sou, não deixo de ligar esta imagem à de Elliott e de E.T. a cruzarem magicamente a lua na sua fuga em bicicleta no filme E.T. - O Extraterrestre...). Bicicletas que voam e toda a neve a chamar a "mãe", imagens da poesia como campo poderoso e mágico, produtor de encantamento e espanto. Aliás, um pouco mais à frente no poema, o sujeito lírico passa a ser a "mãe" que impele, como musa ambígua, o filho para o canto da poesia:
"Canta nesse espanto -- meu filho -- os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta."(p.251)
Satélites de bicicleta pela lua dentro: a personificação remete directamente para o facto de em 1957 (ou seja, sete anos antes da 1ª edição do poema em Electronicolírica) ter sido lançado para o espaço, com sucesso, o primeiro satélite humano: o famoso Sputnik. Sintomaticamente, o terceiro verso do poema na sua versão de 64 era: "As árvores crescem nos satélites russos"; este adjectivo foi eliminado em Poesia Toda, pelo menos na edição que eu tenho. O verso ficou: "As árvores crescem nos satélites." Ganhou a Poesia, perdeu em sabor a História. Mas deixemos os satélites e voltemos à bicicleta de Herberto. Ela volta a reaparecer no poema, ligada à memória:
"Avança memória, com a tua bicicleta."
Ora fazer avançar a memória é, mais uma vez, algo que escapa ao quadro normal da percepção quotidiana das coisas, traço que caracteriza parte do processamento poético do autor de Os Passos em Volta: a memória deixa de ser um recuo, uma revisitação do passado, para se afirmar movimento para diante, descoberta do novo e do desconhecido: "é a neve avançando na sua bicicleta."(p.252) Para além de resquícios surrealistas, esta metáfora mostra a máquina lírica sempre em movimento para a frente, cruzando tempos e anulando as fronteiras entre passado, presente e futuro. Assim, se no fim do poema a bicicleta surge associada à imagem da morte ("a bicicleta / vergava ao peso desse grande atum negro"), também é verdade que a morte alimenta de vida os vivos, faz "tanta força", obrigando-os a pedalar (a viver, a criar, a escrever) sem interrupção:
"O teu nome negro com tanta força --
minha mãe.
(...)
Ao contrário tão morta -- minha mãe --
com tanta força, e nunca
-- mãe -- nunca mais acabava pelo tempo fora."(pp.253-254)
De bicicleta, pela página fora.

22.1.07

Bicicletas na Poesia Portuguesa Contemporânea 1


Estas viagens começam com Luís Veiga Leitão, em 1955, ano da publicação do livro Noite de Pedra. Aqui a experiência de encarceramento por razões políticas é objecto de transfiguração estética da mais alta valia, em versos de ritmo tenso, mas classicizante, de notória espessura poética e humana. Interessa-me, sobretudo, o célebre, belíssimo poema dedicado "A Uma Bicicleta Desenhada na Cela":

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

Magnífico conseguimento poético... neo-realista!: a bicicleta como metáfora da fuga, da hipótese de liberdade, da esperança contra o espaço claustrofóbico da cela, ali "onde o dia é mal nascido". A bicicleta desenhada, e a "mão" desconhecida que a "criou", confundem-se, num movimento comunicante, com a mão que escreve o poema, fazendo deste a outra bicicleta que assegura ao poeta a possibilidade de viajar "para além de " si e das paredes que o oprimem. Pedalemos, pois!
(Luís Veiga Lietão, pseudónimo literário de Luís Maria Leitão, nasceu em 1912 e morreu em 1987. A sua Poesia Completa foi editada pela Asa, na colecção Terra Imóvel).

21.1.07

Citação com Memória

"É possível reedificar assim cidades inteiras.",
M.G., Acusações, AEFCUP, Porto, 1987, p.18.

(como não consegui deixar um comentário no vosso blogue, manifesto desta maneira o gosto de voltar a saber de ti e da H. Boas viagens pela linha do Norte!)

20.1.07

Princesa Fiama

(Fiama Hasse Pais Brandão. Poeta portuguesa. 1938-2007).

"American Kitsch" (só para os fanáticos de Deadwood... de todas as idades!)




"American Kitsch" (só para os fanáticos de Deadwood)


Al Swearengen e Seth Bullock em versão alegre!

"Nomes americanos" (só para os fanáticos de Deadwood)



"Apaixonei-me por nomes americanos,
Pelos nomes finos que se mantêm sempre elegantes,
Pelos títulos em pele de cobra dos registos de minas,
Pelo elmo de guerra emplumado do Chapéu Medicinal,
Por Tucson e Deadwood e Lost Mule Flat."

(primeira estrofe de "Nomes americanos", poema da autoria do poeta norte-americano Stephen Vincent Benét; sigo a tradução de Maria Teresa Maia Carrilho e Emanuel Sabino, apresentada em Hino à América Poética, Universitária Editora, pp. 49-51, à excepção do verso 2).
Já agora: Mister Ian McShane regressou a casa e entra como "voz do Além" em Scoop, o último do Woody Allen... Ficámos sem whisky em Deadwood? "Cocksuckers!"

19.1.07

Magnólias


Ricardo Reis, numa das suas odes estóicas, diz: "antes magnólias amo / Que a glória e a virtude." Em tempos de glória vã e virtude duvidosa, como não entender esta opção? As magnólias, puro "resplendor" para os sentidos (olhar, olfacto, tacto,... gosto?), coisa concreta nas mãos, evidência do crime absoluto da beleza. Reencontro uma dessas magnólias num livro de Luiza Neto Jorge (toma nota, J.), O Seu a Seu Tempo (cf. Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993): "(...) A magnólia, / o som que se desenvolve nela / quando pronunciada, / é um exaltado aroma / perdido na tempestade, // um mínimo ente magnífico / desfolhando relâmpagos / sobre mim." Dizer, portanto, outra vez: Magnólia. E sentir o magma a irromper, a magna radiação na boca.

17.1.07

The Straight Story

The Straight Story

Só vi este filme uma vez. No cinema.
Para mim um dos filmes mais bonitos do sr. Lynch ...
Gostei mesmo. A banda sonora é uma pérola ...

11.1.07

James Dean's da "Poesia" Portuguesa 7


Mário Botas, pintor, 1952-1983 (31 anos).

"Frases contra o silêncio..."

in, Aos Queridos Mortos, Durs Grunbein, Angelus Novus, Coimbra, 2003.

James Dean's da Poesia Portuguesa 6


Live fast, die young and have a good looking corpse: Daniel Faria 1971-1999 (28 anos), "Caminho como um remo que se afunda."

James Dean's da Poesia Portuguesa 5


Live fast, die young and have a good looking corpse: Luís Miguel Nava 1957-1995 (38 anos), "embora o sol fosse alto ainda, àquela hora".

James Dean's da Poesia Portuguesa 4

Live fast, die young and have a good looking corpse: Nuno Guimarães 142-1973 (31 anos), "Jaz (algures, em luz) morto Rimbaud".

James Dean's da Poesia Portuguesa 3


Live fast, die young and have a good looking corpse: António Maria Lisboa 1928-1953 (25 anos), "lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos."

James Dean's da Poesia Portuguesa 2


Live fast, die young and have a good looking corpse: Mário de Sá-Carneiro 1890-1916 (25 anos), "O Erro sempre a rir-me em destrambelho -"

James Dean's da Poesia Portuguesa 1


Live fast, die young and have a good looking corpse: Cesário Verde, 1855-1886 (31 anos), "Que sinto só desdém pela literatura".

10.1.07


O Futuro é agora e aqui ...

6.1.07

J no Dakar ...


J, depois diz se viste este post ...
BOA VIAGEM, que corra tudo bem e um GRANDE ABRAÇO!!!!! e beijokas das meninas ... ;-)

As Paixões dos Fortes


Noite longa na RTP Memória. Primeiro com a revisitação de A Paixão dos Fortes / My Darling Clementine, o grande clássico de Ford sobre o duelo mais célebre de todo o Oeste: os irmãos Earp vs. os Clanton no O.K. Corral de Tombstone. Henry Fonda e Victor Mature em interpretações de luxo, com umas pitadas de Shakespeare pelo meio e duas referências, pelo menos, à cidade de... Deadwood (isto anda tudo ligado!). Os espaços majestosos e poeirentos de Monument Valley, misturados com as doses certas de fantasmas do passado, humanidade e humor, mas também solidão e desespero, condimentos tradicionais no cinema que Ford nos serve de forma única e insuperável. E tudo termina com a última deixa de Wyatt Earp / Henry Fonda dirigindo-se, impecavelmente penteado e barbeado, à bela Miss Carter que fica à espera do seu regresso à cidade: "Gosto mesmo desse nome: Clementine!" Também eu...
Depois, segundo duelo, desta vez no Estádio da Antas, em 1993. Porto vs. Benfica, oitavos de final da Taça de Portugal. Já não me lembro como terminou o prolongamento (vou-me deitar, sinto-me cansado), mas aindavi o memorável golo de Mostovoi, empatando quase no fim (1-1, aos 88 minutos, de livre directo)... De qualquer maneira, tenho a impressão de que o Benfica ganhou a Taça nesse ano. Ou a memória reescreverá a história de acordo com os nossos desejos?

5.1.07

Esta viagem

Sinto-me a desertar (com) o coração.

3.1.07

U(s) Too!



Deixo de lado, por momentos, Tony Judt e o seu monumental e interessantíssimo Pós-guerra... e leio, condição de admirador oblige, entusiasmadamente U2 by U2, o álbum de memórias desfiadas a quatro pelos bravos rapazes de Dublin (mais 1, Paul McGuinness, o agente de sempre da banda), editado em Setembro do ano que passou pela Fubu, chancela que desconheço mas a que vou prestar, naturalmente, atenção. Estou a meio. E estou a deliciar-me com as muitas fotografias e histórias, contadas em pormenor por Bono, Edge, Adam e Larry, que fizeram e fazem dos U2 a banda de música popular mais marcante do mundo nos últimos 25 anos, quer em termos musicais, quer em termos latamente políticos. Pelo menos, para mim. O livro não conta tudo, mas quase: as histórias familiares da rapaziada, os problemas entre pais e filhos (as zangas entre o Bono e o pai são um tema recorrente), o modo como se começaram a interessar por música (o facto de esta ser um chamariz eficaz para atrair miúdas parece ter sido fundamental!) não dominando quase nenhum tipo de conhecimento musical, o desejo de formar uma banda, os primeiros ensaios (95% de discussão e 5% de afinação das guitarras), a escolha do nome (começaram por ser, imaginem, os Feedback, depois foram os The Hype e só à terceira U2, nome que o Bono aceitou com dificuldade por poder ser lido também como you too, demasiadamente careta para uma banda pós-punk!), as primeiras aparições em escolas, bares e clubes de Dublin, os primeiros fracassos que se transformaram em desejo de serem e fazerem melhor (coisa mais fácil de conseguir em grupo do que individualmente), a vitória num concurso de bandas e o prémio de poder gravar um single, as portas que se fecharam todas... menos uma, no último momento!, a sorte de conhecer a pessoa certa, a determinação, a vontade de superação, o amor pela música, o primeiro álbum, Boy, e os primeiros concertos que deram nas vistas, as dificuldades com October e as belíssimas propostas do piano do The Edge, depois War e canções como "Sunday, bloody sunday", "New year's day" ou "40", a conquista gradual do mundo até se transformarem na banda/empresa/instituição/símbolo que hoje são. É um livro fantástico, portanto. Um prato cheio de iguarias para os fans, servido com doses maciças de humor e peripécias que permitem olhar estas rock stars como homens normais que souberam lutar, com inteligência e espírito de banda... ou de bando, pela concretização dos seus sonhos de rapazes, não perdendo a ligação ao mundo dito real. O livro ideal para começar o novo ano com certo optimismo e algumas gargalhadas à mistura. Provocadas, por exemplo, pela recordação daquele ensaio, no início de tudo, na casota de jardim do Larry, quando o telhado caiu sobre toda a gente devido ao peso da chuva. Ou pela descrição pormenorizada da famosa actuação no Live Aid, quando o Bono, mais uma vez, deixou os camaradas sem saber o que fazer em palco durante longos 6 minutos (tinha ficado combinado que seriam tocadas 3 músicas, foram tocadas apenas 2 por se ter esgotado o tempo da banda), lançando-se para cima do público. Foi a actuação mais marcante desse dia inesquecível (não sou eu que o digo!), mas ninguém na banda se apercebeu realmente disso. O Bono andou de candeias às avessas com o resto da equipa... até que jornais, revistas e televisões começaram a mostrar a actuação dos U2 como um momento fantástico e genuíno de crença no poder da música para comover as pessoas e, de uma certa maneira, para mudar o mundo (já agora, business man como são, eles lembram que, na semana a seguir ao Live Aid, os seus álbuns chegaram todos aos tops de vendas). Duas histórias das muitas que eles contam e que reacendem a vontade de os ouvir de novo em Boy, October, War, The Unforgettable Fire, The Joshua Tree e todos os outros álbuns magníficos que compuseram até How to dismantle an atomic bomb, o último, já de 2004. Será 207 ano de novo disco? Espero bem sim. Porque também nós fazemos parte da história. Sim, U(s) too!

2.1.07

Deadwood

Deadwood 1 e 2, já cá cantam ;-)

31.12.06

E o Bush?


Completamente triste o espectaculo oferecido pelas televisões de todo o mundo ... as imagens imediatamente antes do enforcamento ... longe me mim insinuar que o Saddam era um santinho ... não o era e merecia ter sido julgado e punido com decência e não a mando dos pseudo polícias do Universo ... Quando é que o "Bush Laden" será também julgado pelos crimes praticados em nome do dEUS petróleo?????

Já devem ter visto mas coloco aqui a caricatura do André Carrilho para a edição de hoje do DN ... Bom Ano Novo e mais decência ... é o que desejo ...

Não me peças

um balanço do ano, por exemplo, nem sequer um balanço de coisa alguma. escrevo apenas o indizível - deixo em branco a página e estes dias de balancetes. não me peças isso nem o seu contrário, que estão esgotadas as agendas de capa preta e folhas brancas, que é uma forma comercial de te dizer que estão esgotados os dias e as semanas e os meses e o ano e há ainda um vazio no prego do calendário. (...) não é exactamente um vazio: balança, no lugar do tempo, o desejo, entristecendo.

Este poema

O LADO DE FORA

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

Manuel António Pina

28.12.06













Fiquei sem computador pq uns "artolas" (por enquanto não vou dizer o nome da empresa) em tempos mexeram no mac e não aparafusaram como deve ser os dissipadores que fazem o arrefecimento dos processadores e um deles pura e simplesmente ARDEU e queimou a Santa Placa Mãe :-) ... deixo uma foto do Mac esventrado ... o dissipador é aquela estrutura metalica às tirinhas ...

26.12.06

O Problema do Natal (3)

Os restos, caixas desmanteladas, plásticos rasgados, papéis de muitas cores, amachucados em bolas de todos os tamanhos, lixos de toda a espécie, espalham-se agora a partir dos caixotes ou dos recipientes de reciclagem, invadindo os passeios e as calçadas. As famílias desviam-se para passar e reclamam, com certo azedume, contra o facto de não se ter feito a devida recolha, de as ruas estarem sujas, os excessos de Natal que quase todos cometemos. Para o ano, e apesar da crise, há mais. Assim queira Deus...

Este silêncio.

Esta noite

Esboço a palavra que apago, molhando a ponta do dedo na língua (mordendo as mãos?). Numa BD, seria um balão em branco. Assim, exposto e mudo, é apenas silêncio nocturno, à deriva. Na saliva.

25.12.06

Esta manhã

Há, neste amanhecer, um silêncio feito de cobertores puxados por cima da cabeça, aconchegando sonhos e abraços ternos.

Há embrulhos desfeitos pela casa, fitas e risos coloridos. O gesto é tudo e outros jogos nocturnos tombaram de cansaço feliz, eram o quê? umas três, quatro da madrugada? Sobrou comida (ainda bem!) e um rol de histórias antigas, sempre repetidas com o mesmo entusiasmo.

Repara como a criança agarra a boneca nova, neste silêncio feito de lençóis mornos e mantas pesadas, aconchegando princesas e dragões. Nota como esta, um pouco mais velha, até sonha com o momento em que vai pular da cama para voltar a jogar mil vezes o jogo novo – mas dorme ainda. E adiante, ao fundo do corredor, como a cama mais larga é ainda maior, no aperto carinhoso de dois corpos.

Deslizo pela casa e espreito, numa janela, a rua deserta. Apenas pássaros e sinos, ao longe. Percorro os quartos vazios, imaginando as respirações da manhã mais tranquila do ano e sinto um dorido e quase febril desejo de fazer nascer uma família.

24.12.06

Ainda o Natal

Contar as horas para mais uma composta explosão da família nuclear, enquanto este frio de prumo morde o corpo. Dizer: para o ano serei intensamente feliz. E acreditar nisso como na realidade de uma mão cheia de pinhões. Decorar uma árvore, da raíz aos ramos mais altos, e saber dizê-la em todas as estações, como um poema favorito, que vai ganhando flores e frutos e, às vezes, perdendo folhas, na agitação jardineira do poeta.

Com(tra) a Letra de Fernando Assis Pacheco


Certos poetas escrevem e fica escrito. Há uns tempos, no "Actual" do Expresso Joaquim Manuel Magalhães escrevia sobre isto e dava o exemplo de Jorge de Sena, criador alérgico a revisões da obra produzida. Outros colocam-se no pólo oposto: rescrevem, corrigem, apagam, acrescentam, emendam em sucessivas edições o escrito ao longo de uma vida. Carlos de Oliveira fica como exemplo maior deste tipo de autores, tanto na prosa como na poesia, com a sua atitude de permanente recomposição do que foi escrevendo. Dos vivos há muitos outros exemplos, um dos melhores (para além do próprio Joaquim Manuel Magalhães) será Herberto Helder, cuja Poesia Toda tem sido sucessivamente rescrita e reconfigurada em "poema contínuo", organismo vivo e voraz que se consome e é o alimento de si mesmo em permanente invenção.
Todo este alongado prólogo vem a propósito de um poeta de que falámos ontem à noite e de que gosto muito, ainda que não o tenha relido nos últimos tempos: Fernando Assis Pacheco. E, particularmente, de um poema seu que me comove de forma profunda e inequívoca. E que o poeta, se me for permitida a ousadia, não foi feliz... mudando-o. Trata-se de "Com a Tua Letra", um texto de Cuidar dos Vivos, o primeiro livro de Assis Pacheco, editado em Coimbra, em 1963. Ei-lo:

"Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra."

Ora este poema "insuportavelmente belo" foi republicado em A Musa Irregular, volume editado pela saudosa Hiena Editora no ano de 1991. Em "Nota" final, Assis Pacheco explica que Cuidar dos Vivos foi expurgado "dos poemas mais caducos", tendo outros (como no caso de "Com a Tua Letra") sido reduzidos "em extensão" ou sofrido "algumas correcções vocabulares". Tudo em nome de "uma escrita modesta", marca ética e estética de um autor enorme que recusou, sem dúvida, a ênfase e o sentimentalismo mas que, no caso em apreço, pecou por excesso de rigor, pois nem sempre "menos é mais". Vejam o que sobrou do poema de 63 - apenas isto:
"Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra."
Das cinco estrofes da versão de 63 resistiram apenas duas, as últimas, redução que elimina a espécie de introdução à matéria do poema (falar do amor, falar de muitas coisas através dele) que é a primeira estrofe dessa versão e o seu desenvolvimento/expansão (as duas estrofes seguintes, as mais longas, respectivamente uma oitava e uma décima), onde se trata do conhecimento das coisas, do "território" e das suas "estradas", bem como da morte ("definitiva irremediável morte"). Em 91, o poema fica reduzido a um quarto (os 31 versos iniciais passaram a... 8), perdem-se pelo caminho imagens assombrosas de beleza e sugestão como aquela das "rodas acendedoras de caminhos" ou a "forma difícil de coragem" que o amor nos proporciona. Infelizmente. Infelizmente, também, não tenho eu agora acesso ao original de Cuidar dos Vivos, de 63 e, por isso, não posso saber se assis Pacheco noutros casos foi mais certeiro e justo na sua tarefa de se ler a si próprio. Leio "Com a Tua a Letra" na Antologia da Poesia Portuguesa 1940 - 1977, de Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro, Moraes, 1979, 2º volume, pp. 305/306. Um dos melhores poemas de amor que conheço, um dos mais altos momentos poéticos deste 2º volume e desta antologia. Um poema que já não existe como eu desejaria na obra poética do seu autor. Mas um poema que existe para mim.

O problema do Natal (2)

Lado a lado, no passeio, vão conversando:
- E então, conseguiste resolver o problema das prendas deles?
- Sim, já tratei disso. Vai tudo corrido a livros!

Desportos de Inverno


Já fui do Atlético de Madrid no tempo de Futre e do Barcelona de Figo; agora sou do Chelsea de Mourinho e dos outros portugueses que ele para lá levou. Nem para todos, porém, se inclina igualmente o meu coração: por exemplo, o Manchester United de Cristiano Ronaldo e de Carlos Queirós não me merece grande simpatia (eliminação da Liga dos Campeões à parte!), embora me delicie com as invenções, a força, a elegância e a velocidade do Cristiano Ronaldo.
Uma das razões para este afeiçoamento a certos clubes estrangeiros, por intermédio de jogadores ou (caso único e very special) de um treinador nacionais, deve ser, por certo, o facto de serem clubes habitualmente perdedores, "anti-sistema" (seja este simbolizado pelo Real Madrid, que Figo também representou mas que não suscitou nunca paixão idêntica à do Barça, ou pelo Manchester United...) e que, com eles, (re)começaram a ganhar. O Atlético de Madrid não foi campeão de Espanha, mas ganhou duas Taças na época de Futre. O Barcelona de Figo ganhou tudo, menos a Liga dos Campeões (mas ganhou uma Taça das Taças com uma exibição fulgurante do rapaz da Cova da Piedade). O Chelsea de Mourinho continua a ganhar, com grande estilo e emoção, na Inglaterra, faltando-lhe o título europeu que Mourinho mais anseia.
Dado o pouco entusiasmo que as nossas cores clubísticas têm despertado nas almas sedentas de beleza e alegria que nos habitam, resta-nos, pois, procurar conforto e aconchego nas camisolas operárias e lutadoras do Chelsea... que jogarão, ironia do futebol, com o Porto um destes dias. Vamos torcer por quem?

23.12.06

fazer nascimentos

"(...)

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

(...)

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

(...)"

Manuel de Barros, Uma didáctica da invenção

O problema do Natal

Uma mulher, numa livraria, ao telefone: "Olha, encontrei este, achas que o Manel ia gostar? (...) Queres que compre e te resolva o problema?"

22.12.06

A voz das árvores

O cemitério é pequeno e novo, ainda com muita terra rasa, como alguns olhares que se cruzam. Tem uma árvore em cada canto. Enquanto o padre diz uma oração, olho essas árvores e recordo os sinais que Fernando Alves semeou na telefonia, no dia seguinte ao telefonema que encheu de tristeza a nossa casa das notícias. Lembrava ele “a voz que entrelaça notícias, como se dissesse árvores, árvores apenas, sem adornos”. Quatro árvores, uma em cada canto, e um estúpido buraco no chão. Daí a pouco, outra vez, o arrepio da terra na madeira, engolindo, definitivamente, aquela “voz doce que entrelaça notícias, enquanto se faz ave para longe, para o absurdo longe”.

Este lugar chama-se Rostos. Lembro-me que o de Leonor Colaço ruborizava, às vezes, nas maçãs de pele muito clara. Rostos. A partir de hoje, estes terão sempre uma voz doce, entrelaçando árvores, “árvores apenas, sem adornos”.

2006

Gosto das edições de balanço de final de ano dos jornais e das revistas, forma de acertar contas e pesar um certo período de tempo que foi meu (nosso) e passou. O suplemento "6ª" do DN apresentou hoje as suas escolhas de 2006 de filmes, discos e livros, revisão oportuna da matéria dada, não isenta de riscos e equívocos, mas por isso também interessante. Dois exemplos:
primeiro, na lista dos "dez melhores DVDs «clássicos» lançados em 2006" (p.22) não aparece nenhum dos filmes de Visconti (Obssessão, A terra Treme, etc) ou de Rossellini (Roma, Cidade Aberta ou Viagem na Itália), editados nesta última quinzena de Dezembro; fica também de lado a edição de sonho da dupla visão de Scorsese sobre o cinema americano e o cinema italiano, acabadinha de chegar aos escaparates (confirmem no suplemento concorrente "Y" do Público de hoje!): consequência de fazer balanços do ano antes do fim do ano;
segundo, nas escolhas dos livros, elas surgem aglutinadas entre ficção (nacional/internacional) e não ficção, o que é uma opção absolutamente estrambólica e indevida. Então "ficção" não é designação para obra ficcional, de maior ou menor desenvolvimento/aprofundamento (romance, novela, conto...) da matéria narrativa, com personagens, intriga (ainda que rarefeita ou escassa), narrador, tempo e espaço? Pois parece que não! Na categoria "ficção nacional" (p.p. 28/29), pasme-se, surgem nada menos, nada mais do que 5 livros de... poesia! Obras de Fiama, António Osório, Vasco Graça Moura, F. Echevarria e Gastão Cruz, todos altíssimos poetas, de todos apenas Graça Moura, que eu saiba, com obras de ficção publicadas. País de poetas, mas não de ficcionistas, Portugal! Pois. De resto, o equívoco mantém-se na categoria da "ficção internacional" (p. 30), que inclui 3 livros de poesia: Harmónio de W. Stevens, Residência na Terra de Neruda e Paraíso Perdido, de Milton (pese embora se possa alegar que o clássico de Milton seja um poema épico, portanto, essencialmente narrativo... não sendo prudente, entretanto, sobrepor o ficcional e o narrativo). Critérios muito amplos para definir "ficção", portanto. Mas talvez isto não importe assim tanto; talvez as categorias sejam todas falíveis (umas mais que outras, valha a verdade!); obviamente, o que importa é ler, e ler livremente: a poesia como ficção, o romance como poema, o drama como reportagem... talvez; o que é que acham?
Quanto a mim, aproveito agora o balanço dos balanços e apresento, também, descaradamente as minhas 6 escolhas de 2006. Cá vão elas:
1) livro de poesia do ano: Voz Consonante, traduções de poesia de António Ramos Rosa;
2) outro livro do ano: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, de Tony Judt;
3) série televisiva do ano (surpresa): Deadwood, (primeira e segunda temporadas), de David Milch (que ninguém parece ter descoberto ainda!)
4) outra série televisiva do ano: A Feira da Magia, (segunda temporada) de Daniel Knauf (que toda a gente já descobriu!);
5) filme do ano: os dois filmes-documentos do realizador austríaco que vimos (?) no festival de cinema independente de Lisboa sobre sobreviver nas megacities e trabalhar sabe Deus como e onde!;
6) blogue do ano: este, o nosso, aqui, no umbigo. Bingo!

21.12.06

Freud, pelos cafés

Quero um sonho!

20.12.06

O serão do escritor

Agarrou a palavra madeira e esculpiu-lhe o rosto de outra palavra. Lentamente, surgiram os contornos, as curvas, as rugas, as imprecisões de sentido. De seguida, escolheu uma pedra e continuou o labor. Com o ferro quente, moldou mais um verbo, para temperar a acção. As mãos, molhadas, mergulharam depois na palavra barro, inventando homens, mulheres, bichos extraordinários e outros nomes. Sobre a banca, foram-se acumulando farpas, lascas, estilhaços, alguma lama e uma indecifrável poeira, a que se juntariam mais tarde algumas gotas de sangue. Já de madrugada, com os dedos entrapados, imobilizou o pé na roda, pousou o cinzel, o escopro e o martelo, dando por terminada mais uma história.

Antes de se dirigir à sala, passou pela cozinha, abastecendo o copo de whisky com duas pedras de gelo. Escolheu um DVD, colocou-o dentro da gaveta retráctil do aparelho e recostou-se no sofá. Carregou no botão play do comando e preparou-se para saborear um novo episódio de Deadwood.

Sol Star (left), and Seth Bullock (right)

Deadwood: Wild Bill Hickok / James Butler Hickok (1837-1876)


James Butler Hickok was born in Troy Grove, Illinois, on May 27, 1837, and was shot dead in a saloon in Deadwood, Dakota Territory, on August 2, 1876. Famous for his lethal gun skills, as well as his professional gambling, he was a U.S. town marshal who unsuccessfully tried show business for a while after he got fired from his marshal job for shooting more than just bad guys.

19.12.06

Deadwood: 10!

leio, é como quem escuta

"Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala"

(...)

Ruy Belo, Um Dia Uma Vida

17.12.06

escrevo, é como quem diz

o rosto transpira uma luminosidade sonolenta, cansada, mas doce
Como aquelas fotos, esbatidas, que parecem tiradas de um sonho? Sim, mas essas não transmitem calor a esta palma da mão.

digo que me sinto a esgotar-te a alegria dos dias
Espremes o limão, com um pouco de manteiga, sobre as finas tiras de carne, que a falta de apetite vai deixar quase intactas. Comento que é tradicional. Corto uma lasca de peru recheado, numa paródia triste à época festiva.

bebes água e falas do mistério das nuvens, talvez cúmulos, talvez nimbos
Com golpes de asa, recordamos as guloseimas da infância. Num frame, vislumbro a promessa da serenidade; noutro, o esboço de uma despedida.

tento saborear o vinho, tinto do Douro
Há, em cada gole, um desejo de viagem mas as mãos, num inquieto repouso, anunciam que a neve encerrou todos os caminhos. Procuras lembrar-te do nome daquele que, se bem me lembro, te fez tombar as pálpebras, de prazer.

não me perguntas (talvez adivinhes, talvez pouco importe) se há nuvens no meu céu
Diria assim: uma fina neblina, uma poeira do mar que não vimos juntos, prisioneiros da sombria quadrícula da cidade.

conta-se pelos dedos, o silêncio
Pode ser o mais aprazível dos encontros ou um doloroso aperto no peito. Algum dia, talvez, o mais perfeito acorde, depois de mil canções trauteadas, ao volante, a caminho.

iogurtes, fiambre, leite, alguma fruta
A tua lista das compras é um poema, como alguém já cantou. Por favor, digite o seu origami, pediria a empregada da caixa, intrigando a fila de idosos vizinhos, de porta-cêntimos em riste.

ofereces-me a testa, para um beijo, que é como quem diz

Realismo & Idealismo

Gosto muito do realismo & da lama de Deadwood... mas protegido do frio, na minha sala de trabalho, com a chávena de chá quente ao lado, a fumegar. Não me convidem, por isso, para calçar as botas com esporas, montar e ir desbravar o Oeste, okay? Prefiro ligar, agora mesmo, o leitor de DVDs... se não se importam.

A alma (americana) & a lama



Agora que vos "apresentei" Deadwood, deixem-me falar sobre alguns (apenas alguns!) dos aspectos, para mim, mais fascinantes da série.

Realismo.
Em primeiro lugar, o efeito de realismo que vitaliza as imagens, visível, desde logo, no ar de coisa em construção do Campo. É, de resto, o próprio Campo que aparece, nesta medida, como a grande personagem da série, um organismo vivo que vai crescendo, funcionando os indivíduos como elementos de um todo que é mais do que a soma das suas partes. As difíceis condições de sobrevivência, a lama, a sujidade, a brutalidade são óbvias indicações do que se prentende mostrar e dar a pensar: que a América foi (e é!) tanto a terra dos sonhos grandiosos, como a dos maiores pesadelos. Vejo neste ponto uma conexão possível entre Deadwood e o fabuloso épico scorsesiano Gangues de Nova Iorque, pois em ambos a dimensão social e colectiva enquadra os indivíduos sem os esmagar. Mas, também, sem os explicar completamente.

Heróis.
Assim, em segundo lugar, torna-se anacrónico falarmos de heróis: há muito que eles desapareceram das imagens dos westerns de Hollywood, primeiro no cinema, agora na televisão. Dizer que já não há heróis é um lugar-comum, mas ele não se tinha manifestado ainda com tamanha força numa série televisiva: por onde se terão perdido os heróis clean de Bonanza? (recuso-me a falar dessa coisa absurda, chamada Jovens Cowboys, nem sei se conhecem!...) Em Deadwood não há lugar para eles: até as "lendas" do Oeste, como "Calamity" Jane ou Wild Bill Hickock, com quem nos cruzamos logo nos primeiros episódios, estão longe, demasiado longe de qualquer ideia de heroísmo. Trata-se, somente, de sobreviver num meio hostil. E de enriquecer o mais depressa possível. O que exige coragem, determinação e sorte. Mas, também, cinismo, manha, violência brutal. Darwin anda por aqui: o direito do mais forte à sobrevivência. Mas sobre isto muito, quase tudo, fica por dizer.
Linguagem.
A propósito do dizer, este é outro aspecto que aumenta o fascínio da série. E outro dos modos de construir o seu efeito de realismo. A maneira como a linguagem é tratada, conhecendo o espectador alguma coisa de inglês, contribui decisivamente para a construção plena das personagens: o colorido dos discursos, monólogos e diálogos de Al Swearegen, Seth Bullock, do Reverendo, do Médico, de Alma Garret ou de E.B., etc., cheios de calão ordinário (Swearegen) ou dos maneirismos aristocráticos de Alma, são a música ruidosa e encantatória que dá sabor às imagens, em despiques ora pícaros, ora épicos que, infelizmente, só em certos momentos a tradução consegue captar e transmitir. Mas, justiça seja feita ao tradutor, como traduzir as falas de Seaweregen com cem palavras em que cinquenta por cento das mesmas é constituída pela palavra "fucking"? Só vendo! E ouvindo!
Personagens (1).
Há Al Swearegen, a alma mater do Campo, e Seth Bullock, o homem que procura manter a verticalidade moral num meio insano. Do equilíbrio conflituoso dos dois, feito de mútua fascinação e repúdio, emerge parte fundamental do equilíbrio lógico e narrativo da intriga. Al é o dono do salloon, o homem sem escrúpulos, controlador do álcool e da prostituição, duas das áreas económicas mais rentáveis do Campo, capaz de mandar eliminar quem se atravessar no seu caminho (mas, por outro lado, comovedor na sua humana fragilidade, violenta e desamparada). Seth é aquele que busca, intransigente, um equilíbrio intímo e público impossível, pois os seus princípios morais, puros e duros, não se coadunam com um mundo dominado pelas paixões (de diversa ordem) a que ele também não consegue escapar. O trabalho interpretativo de Timothy Oliphant, oposto ao de Ian McShane, é então o de uma constante interiorização, de recalcamento de impulsos, de negação da violência que, todos sabemos, incluíndo ele próprio, germina no seu interior: notem o modo como a boca, o olhar, o rosto se torcem e contorcem em certos momentos. McShane, pelo contrário, deita tudo, literalmente, cá para fora: saliva, sangue, esperma, insultos, gritos, raiva, ódio. Só a urina lhe pregará, a certa altura, uma partida quase mortal, justamente por se recusar a sair do seu corpo!
Personagens (2).
Se estas duas são personagens-chave da série, outras há absolutamente inesquecíveis: a esplendorosa Alma Garret; o amigo judeu de Seth; o inenarrável dono do Hotel; o jornalista especioso; o médico marcado por um passado atormentador e desconhecido; o reverendo que cairá na loucra e na doença; o rival de Swearegen; o chinês que alimenta os porcos com cadáveres humanos e outros; vilões de toda a espécie, jogadores de póquer, prostitutas, etc., uma galeria de notáveis que inclui verdadeiras lendas, como os já referidos Wild Bill Hickock e "Calamity" Jane. Magnífica paisagem humana.
Política (para terminar).
Deadwood é um Campo na zona de fronteira: ilegal, sítio ainda fora do território administrativo do Estado Americano. Microcosmos do pioneirismo de ocupação do Oeste, o Campo é também metáfora da constituição da América (nova aproximação a Gangues de Nova Iorque). Notável, neste sentido, é o modo como a problemática política é desenvolvida pelos criadores da série. Pelos seus olhos somos levados a ver como a América se formou, em parte, sobre doses massivas de violência, corrupção, mentira e ambição desmedidas, tanto dos indivíduos, como do aparelho político, administrativo e judicial do estado que se ia construindo à medida que se construía o país. Não há lugar a ilusões: se a América é o símbolo da liberdade e a terra dos sonhos e das oportunidades, estes estão indissociavelmente ligados, como a carne está ao osso, à lama e à sujidade ensanguentada do solo americano. Vamos ver estas imagens e ler alguns dos versos do velho Walt Whitman?

Retrato de uma sombra com cortina

"A claridade é, repetidas vezes, um pesado rumor de lâminas. Cortes. Golpes quase dentro do coração.
Estou nu e sei-o. (...)"

LFP, Tundra, 1988

15.12.06

Tom Waits, Road To Peace, Orphans Brawlers Bawlers & Bastards

Young Abdel Mahdi (Shahmay) was only 18 years old,
He was the youngest of nine children, never spent a night away from home.
And his mother held his photograph, opening the New York Times
To see the killing has intensified along the road to peace

There was a tall, thin boy with a whispy moustache disguised as an orthodox Jew
On a crowded bus in Jerusalem, some had survived World War Two
And the thunderous explosion blew out windows 200 yards away
With more retribution and seventeen dead along the road to peace

Now at King George Ave and Jaffa Road passengers boarded bus 14a
In the aisle next to the driver Abdel Mahdi (Shahmay)
And the last thing that he said on earth is "God is great and God is good"
And he blew them all to kingdom come upon the road to peace

Now in response to this another kiss of death was visited upon
Yasser Taha, Israel says is an Hamas senior militant
And Israel sent four choppers in, flames engulfed, tears wide open
And it killed his wife and his three year old child leaving only blackened skeletons

It's found his toddlers bottle and a pair of small shoes and they waved them in front of the cameras
But Israel says they did not know that his wife and child were in the car
There are roadblocks everywhere and only suffering on TV
Neither side will ever give up their smallest right along the road to peace

Israel launched it's latest campaign against Hamas on Tuesday
Two days later Hamas shot back and killed five Israeli soldiers
So thousands dead and wounded on both sides most of them middle eastern civilians
They fill the children full of hate to fight an old man's war and die upon the road to peace

"And this is our land we will fight with all our force" say the Palastinians and the Jews
Each side will cut off the hand of anyone who tries to stop the resistance
If the right eye offends thee then you must pluck it out
And Mahmoud Abbas said Sharon had been lost out along the road to peace

Once Kissinger said "we have no friends, America only has interests"
Now our president wants to be seen as a hero and he's hungry for re-election
But Bush is reluctant to risk his future in the fear of his political failures
So he plays chess at his desk and poses for the press 10,000 miles from the road to peace

In the video that they found at the home of Abdel Mahdi (Shahmay)
He held a Kalashnikov rifle and he spoke with a voice like a boy
He was an excellent student, he studied so hard, it was as if he had a future
He told his mother that he had a test that day out along the road to peace

The fundamentalist killing on both sides is standing in the path of peace
But tell me why are we arming the Israeli army with guns and tanks and bullets?
And if God is great and God is good why can't he change the hearts of men?
Well maybe God himself is lost and needs help
Maybe God himself he needs all of our help
Maybe God himself is lost and needs help
He's out upon the road to peace

Well maybe God himself is lost and needs help
Maybe God himself he needs all of our help
And he's lost upon the road to peace
And he's lost upon the road to peace
Out upon the road to peace.

2046

Tenho de rever o filme ... tenho em DVD (original)

Memento (9)






















Só agora pude ver. Grande argumento. Grande filme. Nota NOVE.

14.12.06

Madeira Viva


"A dor ou os danos não são o fim do mundo, nem o desespero ou as putas das tareias. O mundo acaba quando morremos. Até lá, ainda temos muito que sofrer. Aguente como um homem e riposte." Filosofia barata? Oiçam e vejam Al Swearengen/Ian McShane, o Tony Soprano de Deadwood, a dizer isto (e muitas outras coisas) e depois falamos... A melhor série western de sempre?

What A Wonderful World (?)

12.12.06

No corpo tenso

"O tango é o primeiro sorriso de quem atravessou um mar de lágrimas"

Horacio Ferrer, no programa TSF Pessoal e Transmissível de Carlos Vaz Marques

Pegar ao trabalho

Apetecia-me esculpir o silêncio mas reconheço que isso não daria para pagar a conta do supermercado.

Gomez II

Gomez

10.12.06

Menos um bandido à face da terra ...



Intimidade

Era de noite, disseste
um dia. Como quem estende uma corda de funambulismo, entre dois beijos.

"O que é que te comove?"

Cereja Japonesa

Ela desvenda-lhe a flor, que o vento das mãos faz baloiçar suavemente. Ele sorri, um pouco embaraçado, e colhe uma pétala, orvalhada.

Escuta: marulhar, marulhar...
maré cheia.

9.12.06

Tão simples

free as a hug


Obrigado.

Rugas de Expressão

Vento do norte. Sei, porque é assim oblíqua a chuva nesta janela. Uma guitarra. Uma voz. Uma, duas vezes. Um piano tacteado. Vento do norte. Céu de chumbo, não há outra maneira de o dizer. Engole o azul, acrescento, wireless. Outra voz, para o par. Pouco depois, o azul, pela janela salpicada de lágrimas. Dir-se-ia uma luta entre as sombras e o reflexo mais puro da luz. De que é feita a magia da música? pergunto, notando uma nova mancha de humidade na parede, por cima da janela da direita, mesmo em frente da pilha de jornais, tal e qual como antes do adeus.

take this sinking boat and point it home
we’ve still got time
rase yo
ur hopefull voice you have a choice
you’ve made it now

De manhã, no barbeiro.

Um velho magro chega e despe o sobretudo, pendurando-o, com mil cuidados, num dos cabides do armário onde os clientes repousam os casacos e a casa guarda o encosto de cabeça para as barbas. Pega na vassoura. Um dos quatro homens das tesouras diz-lhe para se aplicar, para merecer as broas. Risos. Benfica, Sporting, o DN do dia, Caras antigas. A vassoura penteia o chão, em riscos pretos, castanhos, grisalhos. Junto à terceira cadeira, a contar da porta, algumas melenas brancas parecem penas de um pássaro ancestral, sábio. No final, um monte de cabelo. Quantas histórias? Quanto desespero? Quantos afagos?

É a minha vez. O sr. Monteiro sorri-me, cúmplice, enquanto vira a almofada da cadeira, com a mesma destreza com que um barman rodopia uma garrafa de gim, antes do cocktail. O costume? Vejo que continua com a barba por fazer… Que sim. Para o ano talvez mude, confidencio-lhe. Acrescento: talvez troque a barba-a-dias por umas generosas patilhas, para emoldurar as rugas. Acena com a cabeça, discreto, e pega na máquina. Fecho os olhos e sinto o telemóvel a vibrar, no bolso da camisa, perto do coração.

8.12.06

Inverno

De manhã, quando abriu a porta do carro, o frio atingiu-lhes os rostos descobertos. "Deve estar a nevar na Serra...", disse ela. Ele respondeu: "Estamos a muitos quilómetros da Serra, não?" Mas ela sabia o que dizia. As notícias televisivas da tarde confirmaram: nevava, fortemente, na Serra. Ainda à mesa, depois do almoço, encostou a cabeça ao peito dele e não disse mais nada. E foi então que aconteceu: a sua respiração morna embaciou, de repente, as lentes frias dos óculos dele.

6.12.06

Tom Waits - I Don't Want To Grow Up

Downtown Train ... (9.9)




















(Tom Waits 1985)

(para mim, talvez a melhor musica de Tom Waits)

Outside another yellow moon
Has punched a hole in the nighttime, yes
I climb through the window and down to the street
And I'm shining like a new dime
The downtown trains are full with all of those Brooklyn girls
They try so hard to break out of their little worlds

Well you wave your hand and they scatter like crows
They have nothing that will ever capture your heart
They're just thorns without the rose
Be careful of them in the dark
Oh, if I was the one you chose to be your only one
Oh baby can't you hear me now, can't you hear me now

Will I see you tonight on a downtown train
Every night it's just the same, you leave me lonely now

I know your window and I know it's late
I know your stairs and your doorway
I walk down your street and past your gate
I stand by the light at the four-way
You watch them as they fall, oh baby they all have heart attacks
They stay at the carnival, but they'll never win you back

Will I see you tonight on a downtown train
Where every night, every night it's just the same, oh baby
Will I see you tonight on a downtown train
All of my dreams they fall like rain, oh baby on a downtown train

Will I see you tonight on a downtown train
Where every night, every night it's just the same, oh baby
Will I see you tonight on a downtown train
All of my dreams just fall like rain, all on a downtown train
All on a downtown train, all on a downtown train
All on a downtown train, a downtown train

5.12.06

4.12.06

Linhas Tortas

Uma colega de Economia em vez de "gastos" escreveu "gatos" no enunciado do teste. Eu vi os felinos felizes a escrever direito por entre as linhas tortas da Grande Depressão. Na aula, ao interpretarem um poema de Pessoa/Ricardo Reis, alguns dos alunos confundiram a palavra "efémero" com a palavra "inferno". E talvez errando assim tenham involuntariamente, quem sabe, muito mais razão.

O Homem Árvore Pássaro

Os operários do absurdo têm fatos castanhos de trabalho e botas sujas de lama. Erguem os braços, lançando as enxadas à terra molhada, arrastando-a dos montículos para a pequena vala. Os primeiros torrões sobre a madeira são como socos na boca do estômago. Algumas pessoas afastam-se, com lágrimas e rostos fechados.


Este homem permanece encostado ao tronco de uma árvore. Parece-me que pressiona o corpo contra a casca e carrega mais os sapatos no chão ensopado. Acredito que esteja a criar aqui algumas raízes, como já terá feito noutras despedidas. Sinto que, ainda assim, não vai perder as asas.


Confirmo isso mesmo, no desassossego da noite, ao escutar-lhe a respiração renovada.

9.6 ...

9

7.5

3.12.06

Azul

Um ponto final atinge-te no centro do peito, sobre o lado esquerdo. Dói-me esta razão, como se a lua quase cheia anunciasse um eclipse. Maré de blues.

sms sem pontuação

as palavras naufragam no pequeno visor de cristais liquidos as lágrimas não são bytes de terceira geração como já anotou certo poeta