31.5.07

Diz Construção

(últimos episódios)

1 poema de W.H. Auden


O Cidadão Desconhecido

(A JS/07/M/378 o Estado ergueu este Monumento de Mármore)

Segundo apurou o Instituto de Estatística
Contra ele nunca existiu qualquer queixa oficial,
E todos os relatórios sobre a sua conduta confirmam:
No moderno sentido de uma palavra velha, ele era um santo,
Pois em tudo o que fez serviu a Grande Comunidade.
Com excepção da Guerra e até ao dia da reforma,
Trabalhou numa fábrica e nunca foi despedido;
Sempre satisfez os seus patrões, Máquinas Fraude, Lt.dª.
Mas não era fura-greves nem tinha opiniões estranhas,
Pois o Sindicato informa que sempre pagou as quotas
(E o seu Sindicato tem a nossa confiança),
E o nosso pessoal de Psicologia Social descobriu
Que ele era popular entre os colegas e gostava de um copo.
A Imprensa não duvida de que comprava um jornal por dia
E que as reacções à publicidade eram cem por cento normais.
Apólices tiradas em seu nome provam que tinha todos os seguros,
E o Boletim de Saúde mostra que esteve uma vez no hospital e saiu curado.
Tanto o Gabinete de Estudo dos Produtores como o da Qualidade de Vida declaram
Que estava plenamente sensibilizado para as vantagens da Compra a Prestações
E tinha tudo o que é preciso ao Homem Moderno:
Um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Os nossos inquiridores da Opinião Pública alegram-se
Por ter as opiniões certas para a época do ano;
Quando havia paz, ele era pela paz, quando havia guerra, ele ia,
Era casado e aumentou com cinco filhos a população,
O que, diz o nosso Eugenista, era o número certo para um pai da sua geração,
E os nossos professores informam que nunca interferiu com a sua educação.
Era livre? Era feliz? A pergunta é absurda:
Se algo estivesse errado, com certeza teríamos sabido.

(1939)

Sobre W.H. Auden.

(Tradução de João Ferreira Duarte, in Leituras: poemas do inglês, Relógio D'Água, Lisboa, 1993, pp. 19-20).

30.5.07

Outro poema*

Obras no metro

Pedimos desculpa,
senhores passageiros.
Prometemos ser breves.
Todos. Sob a terra.


*Transportes Púbicos, livro, blá...

1 poema*

Terminal


Fora de serviço.
Mantenha a calma.
Dirija-se ao poema
automático mais próximo.


*Do livro Transportes Púbicos (etc.)

A treta do costume ...

80%
12,8%
... afinal em que é que ficamos?????
Já era altura de se acabar com esta guerrinha
de números completamente imbecil ...

29.5.07

Outro poema*

Greve geral


A luta continua.
Preciso de encontrar
com a máxima urgência
o transporte alternativo
que me leve às cordas
o coração pugilista.


*Do livro, por escrever, Transportes Púbicos.

1 poema*

Duas definições de amor


Lapso da língua,
colapso do poema.


*do livro inexistente Tansportes Púbicos.

Dizzy Gillespie on The Muppet Show

The Doors : Touch Me

27.5.07

1 poema de Jaroslav Seifert


Poeta checo, Jaroslav Seifert nasceu em Setembro de 1901. Foi jornalista. Proveniente do meio operário, militou no partido comunista até ser expulso, em 1929, por se manifestar contra o endurecimento da linha política partidária. A sua obra evoluiu de uma poesia política e "proletária" para um lirismo mais livre e melancólico. Mais tarde, em 1967, foi considerado "artista nacional". No entanto, logo depois da invasão russa da Checoslováquia, em 1968, seguiu a via da dissidência. Foi um dos autores da famosa Carta de 77. Prémio Nobel em 1984. Morreu em 1986. Apresento, aqui, um poema seu, retirado da Anthologie de la Poésie Tchèque Contemporaine, edição Gallimard, da responsabilidade de Petr Král. As breves informações bio-bibliográficas sobre o autor foram retiradas dessa mesma fonte (pp. 356-357).



Concerto de Bach

De manhã nunca dormi muito tempo;
os eléctricos acordavam-me
tal como os meus próprios versos.
Arrancando-me da cama pelos cabelos
eles arrastavam-me até à cadeira
e obrigavam-me a escrever
assim que tinha acabado de esfregar os olhos.

Religado por uma doce saliva
aos lábios de um instante singular
eu não pensava de maneira nenhuma
na salvação da minha alma miserável;
mais do que um eterno bem estar
eu desejava um breve momento
de prazer efémero.

Levantavam-me em vão os sinos do solo;
eu aderia-lhe com os meus dentes, as minhas unhas.
Ele estava cheio de perfumes
e de segredos provocantes.
Quando, de noite, eu olhava o céu
não era o céu que procurava.
Assustava-me muito mais com os buracos negros
escancarados algures no fundo do cosmos
e ainda mais assustadores
que o próprio inferno.

Mas eu pude escutar os sons do cravo.
Era um concerto
de Johan Sebastian Bach
para oboé, cravo e instrumentos de cordas.
De onde provinha? Ignoro-o.
Mas não era do solo.
Ainda que então não tivesse bebido vinho
eu cambaleava ligeiramente
e tive de me prender com grampos
à minha própria sombra.

(1983)

(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král na citada Anthologie de la Poésie Tchèque Contemporaine: 1945 - 2000, Gallimard, Paris, 2002, pp. 29-30).

Um dos lados para que durmo pior

O lado para que durmo melhor

O do coração.

(depois de ler Carlos de Oliveira).

Aquele que sobrevive para contar a história

Ontem passei o dia no coração do deserto.

Coração Mineral

(Uma pedra sobre o assunto)


"Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais"

(Ruy Belo, in Meditação Montana, Todos os Poemas II,
Assírio e Alvim, 2004)



26.5.07

Beleza & resistência

Ouvimos apenas os versos finais de Romeu e Julieta. Não vemos imagens da tragédia. A câmara vai mostrando, um a um, os rostos de algumas mulheres iranianas que vêem o filme, em lágrimas, numa pequena sala de cinema. São rostos de uma beleza absoluta: mulheres de várias idades que cobrem os cabelos com lenços ou mantos, mas que revelam a alma em frente ao nosso olhar. A sua comoção comove-nos. E é tudo.

("Onde está o meu Romeu?", episódio de Abbas Kiariostami para o filme colectivo Chacun son Cinéma, obra produzida para celebrar os 60 anos do Festival de Cinema de Cannes. Exibido hoje à noite no canal Arte).

Apenas Uma Palavra

Tantas vezes, construímos uma cidade imensa de frases bem entrelaçadas, ideias fortes e alguns parágrafos arranha-céus. Um dia, tudo desaba num “silêncio demorado onde cabe o mundo”. Desse chão, escolhemos apenas uma palavra semente. E recomeçamos.