21.5.07
20.5.07
Jogar em Casa
Fiquei muito satisfeito com o facto dos meus dois grandes amigos (muito) benfiquistas terem aceite o desafio, apesar de, por cá, não haver Sport TV. Combinámos: vemos a dinâmica equipa do Sporting na TVI, com o som da rádio a mostrar a evolução de todos os marcadores. Muito bem. Caprichei nos tremoços e nas cervejas (e mais uns mimos) para que ninguém desanime se as coisas correrem como previsto.
Afirma M.
(M., pedreiro reformado, setentas e tais, sobre as obras na Quinta do Cobra, já praticamente irreconhecível e delimitada por uma cerca metálica.)
19.5.07
Duas Fotografias Sobrexpostas
Desejo a Crédito
ombros sem conta
a descoberto
deposito um
beijo que escalda
Exercício Físico
a silhueta de
(uma bicicleta no tejadilho)
calções justos
na medida
em que pernas
para que te quero
18.5.07
Vinil

17.5.07
Todos os caminhos vão dar a Roma...

- São 8 euros.
- Desculpe, disse 8 euros? Por uma fotocópia?
- Sim.
- São caras, aqui, as fotocópias!
- É assim. Temos de contribuir para o Produto Interno Bruto. Já estamos com um crescimento de 2 por cento!
Portanto, é assim.
Descontas a ironia, pagas e sais. Tão simples como isto. Ou tão simplex. Ou tão Brutus (também tu!)
Construção Embargada
Sim, talvez não me falte o pão fresco – o que não é pouco, não é pouco –, mas faltam-me as forças para dobrar a realidade entre os dedos. Queria escrever sobre as espigas e Lisboa; sobre as minhas máscaras e o homem que acredito ser; sobre as mulheres que amei e aquelas que espreito, em trânsito, pelo retrovisor, enquanto sorriem ao telemóvel ou ajeitam cabelo; sobre o mundo que (eu sei) é um espanto doloroso e belo. Sem alegria para o gesto simples, rotina de ofício, nem mesmo para o puro abandono. Edital ambulante, uma sombra.
16.5.07
Folhas de Pó
Com dois vincos, dobrávamos o sonho
O Papel e a Maçã
A música, a traço fino. Marcadores, de memória. South Side Story a tinta-da-china. Um grupo de formigas carrega um lápis pelo estirador, em passos minúsculos mas muito rápidos (tic-tic-tic-tic-tic-tic), e desenha uma dentada. Muita pinta, pá!
Colheita Bilingue
para o meu amigo LP
Horas extraordinárias. Oficina de prazer. Traduzir um verso, como quem decifra chocolate e framboesas num tinto encorpado e misterioso. Esboçar um corpo, como quem degusta o néctar de um poema com final de boca prolongado.
15.5.07
Asco
Segundo alguns relatos, durante o festim tradicional, um homem tapou as pernas da rapariga com um casaco. Que falta de decoro, as pernas assim à mostra, terá pensado o guardião dos bons costumes, salivando a vingança sanguinolenta.
As imagens, gravadas no local e depois colocadas na Internet, são uma faca de dois gumes. Um inaceitável registo, com eventuais propósitos exemplares mas, ao mesmo tempo, um testemunho do horror que deve repetir-se, tantas vezes, longe das câmaras dos telemóveis e dos nossos incrédulos olhares.
Por quanto tempo nos lembraremos da sombra de Dua Khalil Aswad?
14.5.07
12.5.07
Santa genialidade (versão "saber de experiência feito")
Esta noite
uma música de sopros hidráulicos, batidas metálicas, vidros estilhaçados, um amarfanhar pastoso. É isto: lixo orgânico e mais qualquer coisa.
11.5.07
10.5.07
Elegia pela Quinta do Cobra
China Blue

Cálculo da Felicidade
1.
“Estavas tão linda, naquela fotografia! Com 54 anos eras 1 mulher de fazer parar o trânsito!”. A voz aveludada, nocturna, é de 1 homem, diria 60s e tais, ao telemóvel, sozinho, na entrada de um prédio.
2.
Vêm pela rua, com mochilas e roupas largas. Falam alto dos mecanismos de comunicação online. Quando nos cruzamos, 1 das amigas garante às outras 2, com entusiasmo: “Eu tenho 271 amigos!”.
3.
Colocou na Internet a petição de casamento à namorada. Espera reunir "10.000 assinaturas de apoio, oficiais, até ao Verão". Escreve, no email: “Isto não é spam. Passem palavra, com muito amor.”
8.5.07
Tom & Jerry (excerto do episódio 7361)
Jerry - Mas eu quero. Dá-mo!
Tom - Nem penses!
Jerry - És mau, não gosto de ti!
Tom - Deixa-me em paz.
Jerry - Vou dizer ao pai.
Tom - Então vai, ó queixinhas.
Jerry - Queixinhas és tu, parvo.
Tom - Pai, o mano chamou-me parvo.
Jerry - Não chamei nada!
Tom - Chamaste sim!
Jerry - És mentiroso!
Tom - Tu é que és.
Jerry - Pai, o mano chamou-me mentiroso.
Tom - Pai, é mentira.
Jerry - Dá-me o brinquedo.
Tom - O brinquedo é meu!
(...)
Banda Sonora
Café com letras
- Não, um aforismo.
"Andamos e não chegamos. O andar é tudo: princípio e fim."
(Teixeira de Pascoaes)
6.5.07
Os Combates
A minha irmã passou por cá, deixando aquele rasto de optimismo que a caracteriza, quando não está pessimista. Pegou num livro que estava em cima da mesa, enquanto bebericávamos chá,
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos). (…)”
DARFUR
(Fotografia)Será que vivo em Deadwood?

Hoje, enquanto vou ali já venho ao barco levar a minha sogra, deixo o filho mais velho a tomar conta de bolas & bicicletas. De regresso ao bairro, com o filho mais novo pela mão, que vejo? O rapaz, cheio de medo, escondido atrás de um carro. E, a dois passos, uma cena de cabo de esquadra. Homem, ex-mulher, mulher actual e a filha dos dois primeiros, esta bem grávida. Paus e punhos levantados, murros, chapadas, gritos, insultos & outros pormenores pouco dignificantes ("Até nua te deixaram à porta de casa, minha grande puta!", etc.), travados a custo por dois civis mais destemidos, clientes do café da esquina. Hora de recolher a casa, rapazes! O Seth Bullock que trate do assunto!
Antes, já passara por nós um pescador, os dois remos aos ombros (como a vida? os dias?), galochas verdes, balde de plástico cheio até cima. "Correu bem a pescaria?" Resposta lacónica, do género mete-te na tua vida: "Mais ou menos." E seguiu caminho. Ok. Cada um na sua. E eu vou só ali já venho beber um copo ao Saloon do Al e espreitar as raparigas... É que a vida é dura e dura pouco, aqui, nas terras de fronteira do velho oeste! À vossa!
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A Europa pode esperar?
(Foto: Raphaël d'Aboville, no site do Libération)O céu não pode esperar
5.5.07
O Arrumador de Destinos
Cara ou coroa? Roda a moeda sobre o capô brilhante ainda quente, disparada pelo indicador da mão direita e o polegar da esquerda, cada um para seu lado, como irmãos de unhas encardidas, subitamente desavindos. Gira. Cara? Feia, redonda, sardenta, linda de morrer, encovada, metade, pálida, de caso, de cu, carantonha. Rodopia. Coroa? De espinhos, diamantes, molar, canino, princesa ervilha-de-cheiro, sapo encantado, rei de paus, dama antiga no secador do cabeleireiro. Roda a moeda, roda sem fim, dançando louca na fibra de vidro ou lá de que é feito isto agora. Roda solteirona embriagada de volteio, roda sem parar, embalada por uma estranha energia, rebola agora em automobilístico plano inclinaaaaaaado… Merda!
4.5.07
Santa genialidade
"Eu tenho dois meninos génios na minha sala."
"Meninos génios!? Não são gémeos?"
"Não, são génios."
"Então porquê?"
"Então, são irmãos, têm os mesmos pais e nasceram no mesmo dia! São génios."
"Olha, pois são!"
Na dúvida
Bang!
(Foto: J)O Nome Certo
Será uma questão de probabilidades: nunca imaginei que o raio do restaurante – comida boa, preço justo – ia ter assunto com poucos dias de intervalo. Numa mesa, o responsável por uma conhecida empresa de sondagens. Na mesa do lado, um secretário de Estado, acompanhado por três jovens – dois homens e uma mulher, fardados com competência. Depois de saldar a conta, o homem das sondagens, com a gravata enfiada no bolso do lenço do casaco, abeira-se do governante. Primeiro, surgem algumas informações sobre a oscilação das intenções de voto, de uma forma geral. Depois, a conversa desliza para o buraco de Lisboa. Este e aquele e aqueloutro. “Neste momento, o apelido só o puxa para baixo” afiança o homem dos inquéritos, acrescentando que “o João sabe disso!”. Despede-se mas volta para picar o membro do governo: “Faça lá um exercício intelectual para descobrir o terceiro nome!” atira, da porta, fazendo o interlocutor saltar da cadeira e segui-lo para a rua. Faites vos jeux!
O tradutor errou
(Embora se mantenha viva a crítica política do poema...)
Vocábulos e Oração
com uma chapelada a Wim Wenders
A rapariga segue pelo passeio, com um saco colorido a tiracolo. Parece dançar. Feliz. Passa pela montra escura do cabeleireiro novo da rua e, um passo adiante, dois passos atrás. Espreita a montra. Depois, espreita-se na montra. Leva a mão ao cabelo e fá-la deslizar, pondo a cabeça um pouco de lado. Fica uns instantes. Ajeita o cabelo longo. Segue o caminho, ainda com passos de bailarina. Adivinho-lhe o pensamento escorrido, reflexo no vidro, aparando as pontas, talvez imaginando uma outra cor. Faço de anjo, com asas de desejo, como se estivesse pendurado nos céus de Berlim. Deixai-me cair em tentação.
3.5.07
A Medalha
Primeiro de Maio (outra vez?)
Fired with Enthusiasm*
This morning
the boss
came into work
bursting
with enthusiasm
and fired everybody.
Despedidos com entusiasmo
Esta manhã
o patrão
veio para o trabalho
a arder
de entusiasmo
e disparou sobre toda a gente.
Conservative Government Unemployment Figures*
Conservative Government.
Unemployment?
Figures.
Nem me atrevo a traduzir: ainda começo a confundir conservador com social-democrata, social-democrata com socialista, and so on. E nós, afinal, não estamos em Manchester. Vou mas é dedicar-me à prosa do Saramago. É portuguesa e castiça. E não precisa de tradução. E amanhã é dia de trabalho. E a minha política é o trabalho. And so on.
*in The State of Poetry, Roger McGough, Peguin Books, London, 2005.
2.5.07
Nós / Voz

(Ainda a propósito de vozes, faço minhas as palavras de M. e sugiro que a excelente banda sonora da série, composta por Rodrigo Leão, seja complementada com a audição da colecção de cd's do Público sobre os últimos 50 anos de música portuguesa. Muitas vozes, muitos retratos de Portugal.)
Vizinhança
As duas raparigas lavam a montra, empoleiradas
O Preço Certo
Um é um político quarentão, em pousio; o outro, mais velho, de cabelos brancos, nunca o vi mais gordo. Almoçavam na mesa do lado. Como se sabe, estas coisas podem dar azia. É por isso que levo sempre um livro, à defesa. O facto é que é difícil ignorar, por completo, uma conversa que se desenrola a metro e meio de distância, num tom de voz mediano. Dizia o dos cabelos brancos, a certa altura, referindo-se, pelo que percebi, a um episódio de uma campanha: “Há sempre um custo a mais que as pessoas têm e que nós ignoramos.”. O almoço não estava mau mas, com o café, pedi uma água com gás.
(você está aqui)
Esta manhã perdi-me. Tinha ido, de carro, a um sítio, nos arredores de Lisboa. Cheguei sem problemas. Perdi-me no regresso. Não tinha pressa e, quando assim é, gosto de me perder (estou a aprender esse prazer). Gostava até de me perder mais vezes - ter menos pressa, portanto. Ficar, calmamente, desnorteado. Encostar o carro ou encostar-me, andarilho, e apreciar aquele lugar inesperado, como se me descobrisse dentro de uns parênteses.1.5.07
preciso que me digas
Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.
Assírio e Alvim, 2003
Dia do Trabalhador (2)
Recupero pedaços do mundo, de ouvido, numa reinvenção da realidade. Open. Pulo das sete da manhã para as nove da noite com um click. Tomo notas. Faço zoom sobre o meio-dia. Isolo este instante de água e algumas palavras. Save. Com um bisturi, secciono o corpo do MP3, no momento em que me oferecem um copo de vinho tinto, uma fatia de pão alentejano e uma rodela de chouriço. Dá-me a fome. Vou almoçar. De carne e osso.Dia do Trabalhador
Os meus filhos
trabalham com as plasticinas.
A minha mulher
trabalha com guardanapos
tintas e madeira.
Eu escrevo este trabalho.
A música concreta do corpo
Experimento escrever mulher, seis letras torneadas pelo desejo.
Ainda inebriado pelo perfume da hortelã, escrevo silêncio, boca na boca do texto. Deixo as mãos, tisnadas, de unhas roídas e veias salientes, aqui suspensas. Um jogo de sombras sobre a pele em branco. Dispo-te de palavras e acaricio todos os teus sentidos. É outro, então, o rumor – música de sílabas desalinhadas: um pulsar de tambor; cordas tensas; um piano circular, em crescendo; cordas ritmadas; o piano intenso, intenso, numa teia hipnótica e depois mais calmo, envolto num zumbido; o tambor, pulsando ainda; sopros murmurados; um rumor, harpejando, que busca o silêncio, já o suor arrefece a pauta.
























