21.5.07

Estreitar margens num abraço

(Ponte das Três Entradas)

Chego-me à ponte, sobre este rio dos afectos. Digo parabéns, uma, duas vezes.


20.5.07

Jogar em Casa (nota final)

As coisas correram como previsto. Goleada de amizade. E sobremesa.

Jogar em Casa

Fiquei muito satisfeito com o facto dos meus dois grandes amigos (muito) benfiquistas terem aceite o desafio, apesar de, por cá, não haver Sport TV. Combinámos: vemos a dinâmica equipa do Sporting na TVI, com o som da rádio a mostrar a evolução de todos os marcadores. Muito bem. Caprichei nos tremoços e nas cervejas (e mais uns mimos) para que ninguém desanime se as coisas correrem como previsto.

Nota – Rapazes, não sei se ainda vou a tempo: se aparecerem com muita parafernália clubística, corto na sobremesa, claro.

Se as árvores falassem

Ficariamos de todas as cores.
(Chuviscando, numa esquina de Lisboa)

100 Anos






















Hergé, Georges Prosper Remi 22 de maio de 1907, Etterbeek - 3 de março de 1983, Bruxelas

Fala do carpinteiro madrugador

As amplitudes térmicas são o diabo. Pior, só as atitudes térmitas.

Afirma M.

"Tenho dúvidas que seja para construção. Se fosse para construção, estariam a fazer buracos para as fundações dos prédios. Ora o que vemos são os camiões a trazer terra. Estão a endireitar o terreno. Parece-me que deve ser para comércio. Fazem uma plataforma toda direita e montam as peças tipo-lego, estás a ver? Se der dá, se não der, arrumam e vão para outro sítio. Cá estaremos para ver."

(M., pedreiro reformado, setentas e tais, sobre as obras na Quinta do Cobra, já praticamente irreconhecível e delimitada por uma cerca metálica.)

19.5.07

Se as estátuas falassem

Ficariamos mudos de espanto.

(Rossio, Lisboa)

Duas Fotografias Sobrexpostas


Desejo a Crédito


ombros sem conta
a descoberto

deposito um
beijo que escalda


Exercício Físico

a silhueta de
(uma bicicleta no tejadilho)
calções justos
na medida
em que pernas
para que te quero


18.5.07

Vinil


No dia dos museus, uma sugestão via "Ípsilon"(pp.32-33): No Tempo do Gira-Discos, exposição no Museu da Música, em Lisboa, comissariada por António Tilly e João Carlos Callixto, "esse amante incansável e minucioso da música" nacional, como já aqui se escreveu. Agora que a colecção 50 Anos de Música Portuguesa, do Público, se aproxima do fim, esta é uma oportunidade de fazer nova viagem ao passado para confirmar pistas e (re)abrir caminhos sonoros. Eu já marquei na agenda a visita guiada com/pelo João. Bute?

17.5.07

El Laberinto del Fauno : Guillermo del Toro, México, 2006

Viagens


Todos os caminhos vão dar a Roma...


Precisas de uma certidão de nascimento do teu filho. Diriges-te à Conservatória e apresentas o teu pedido. A funcionária, calma e simpaticamente, faz e apresenta-te a fotocópia da página certa do Livro de Registos. Com o respectivo selo branco. Depois dá-se o seguinte diálogo (que se deve repetir dia após dia):
- São 8 euros.
- Desculpe, disse 8 euros? Por uma fotocópia?
- Sim.
- São caras, aqui, as fotocópias!
- É assim. Temos de contribuir para o Produto Interno Bruto. Já estamos com um crescimento de 2 por cento!
Portanto, é assim.
Descontas a ironia, pagas e sais. Tão simples como isto. Ou tão simplex. Ou tão Brutus (também tu!)

Construção Embargada

Sim, talvez não me falte o pão fresco – o que não é pouco, não é pouco –, mas faltam-me as forças para dobrar a realidade entre os dedos. Queria escrever sobre as espigas e Lisboa; sobre as minhas máscaras e o homem que acredito ser; sobre as mulheres que amei e aquelas que espreito, em trânsito, pelo retrovisor, enquanto sorriem ao telemóvel ou ajeitam cabelo; sobre o mundo que (eu sei) é um espanto doloroso e belo. Sem alegria para o gesto simples, rotina de ofício, nem mesmo para o puro abandono. Edital ambulante, uma sombra.


Radiohead : Knives Out

The Stranglers : Golden Brown

The Stranglers : La Folie

Carnivàle : I've Sin ...

16.5.07

Compay Segundo : Chan Chan

Hasta Siempre Comandante Che Guevara



Buena Vista Social Club


Soledad Bravo

Gustavo Santaolalla : De Usuahia a la Quiaca

Erik Satie : Gymnopédie N1 (2)

Folhas de Pó

para memória futura


Com dois vincos, dobrávamos o sonho em três. Festejávamos cada instante como se fosse o primeiro. O rio fez-se rápido, cada um a seu ritmo. Perguntaste porquê, uma, duas vezes. Pensei que tinha a resposta dentro de mim mas ela sempre esteve no rio. Salmões cheios de urgência antiga (é por ali, é por ali), lâminas pétreas, a frescura da água, troncos à deriva, alguma espuma, folhagem, frutos. Um dia, a calma curva de uma enseada reuniu-nos nesta margem, onde estendemos o sonho na erva. Discutimos o que fazer com ele, anoitecendo fogueira. Dizemos que queremos. Construir: dobrar a realidade entre os dedos. Anoitecendo, à fogueira, sombras bailarinas. Dançamos com elas?

Seguimos viagem, sabendo que não é possível mergulhar duas vezes na mesma exacta transparência.


O Papel e a Maçã

para o meu amigo PB


A música, a traço fino. Marcadores, de memória.
South Side Story a tinta-da-china. Um grupo de formigas carrega um lápis pelo estirador, em passos minúsculos mas muito rápidos (tic-tic-tic-tic-tic-tic), e desenha uma dentada. Muita pinta, pá!


Colheita Bilingue

para o meu amigo LP


Horas extraordinárias. Oficina de prazer. Traduzir um verso, como quem decifra chocolate e framboesas num tinto encorpado e misterioso. Esboçar um corpo, como quem degusta o néctar de um poema com final de boca prolongado.


15.5.07

Bobby Mc Ferrin & Yo Yo Ma : Ave Maria

Bobby McFerrin : Pink Panther

Hi - Hola - Hello - Olá ...

Asco

Uma rapariga de 17 anos, um milhar de homens, muitas pedras.

Segundo alguns relatos, durante o festim tradicional, um homem tapou as pernas da rapariga com um casaco. Que falta de decoro, as pernas assim à mostra, terá pensado o guardião dos bons costumes, salivando a vingança sanguinolenta.


As imagens, gravadas no local e depois colocadas na Internet, são uma faca de dois gumes. Um inaceitável registo, com eventuais propósitos exemplares mas, ao mesmo tempo, um testemunho do horror que deve repetir-se, tantas vezes, longe das câmaras dos telemóveis e dos nossos incrédulos olhares.


Por quanto tempo nos lembraremos da sombra de Dua Khalil Aswad?

12.5.07

Largar Amarras


(Fausto, Navegar, Navegar)

Santa genialidade (versão "saber de experiência feito")


(P., quase 5 anos, em diálogo com a mãe, enquanto passa na televisão O Diário de Bridget Jones)

"Os homens só pensam nas raparigas. E as raparigas só pensam nos homens."
"Ai é?"
"É."
"E como é que tu sabes isso, filho?"
"Sabendo."

Love Will Tear Us Apart Again


À atenção dos interessados: apenas alguns acordes de outra re-invenção de uma grande canção. Aqui.

Esta noite

Desfaz-se, quando lhe toco. Torrões, raízes, o cadáver de um desejo. Uma ínfima pulsação: a luz rasgando as trevas ou a sombra estrangulando a luz. Seja como for, um lugar-comum. Tal como, lá em baixo

uma música de sopros hidráulicos, batidas metálicas, vidros estilhaçados, um amarfanhar pastoso. É isto: lixo orgânico e mais qualquer coisa.

11.5.07

Marianne Faithful : As Tears Go By (1965)

David Bowie : Space Oddity (Original Video 1969)

Bom dia, Björk!

Acordar, assim, (ao) vivo, em Nova Iorque. A apresentação do novo disco da cantora islandesa, com Antony e outros amigos. O mundo imenso, minúsculo, espantoso. Mais uma boa pista sound+vision.

10.5.07

Sérgio Godinho : A Noite Passada

Elegia pela Quinta do Cobra

Foi o lugar da descoberta do prazer de roubar fruta. De tirar a casca às laranjas, limpar a pele das peras, e devorar tudo, com o sumo a escorrer pelo queixo abaixo. Foi o lugar das primeiras fugas, ao som de tiros de caçadeira para o ar ("Ah, filhos da puta, se vos apanho dou-vos uma carga de porrada!"), pernas para que vos quero. Foi o lugar das pedradas aos pássaros, das correrias, dos esconderijos, da crueldade, das nódoas negras por causa dos cromos da bola. Das disputas sobre quem lança mais alto, mais longe, mais forte o jacto de urina. Das cicatrizes inesquecíveis, dos primeiros cigarros, das primeiras bebedeiras, das primeiras ganzas, desilusões & dissidências. A casa já estava em ruínas, vai para anos. Hoje começaram as terraplanagens: alisar o que era acidentado, esventrar, entubar, parece que este pedaço de terra ficou, de súbito, doente. Onde havia hortas e pomares, haverá ruas, passeios, carros. E prédios, mais prédios. E haverá pessoas nesses prédios. Chegarão a casa, ligarão a televisão ou o computador. Farão o jantar, amor se for dia disso, dormirão bem ou mal. É assim, será assim: os alicerces dos prédios vão assentar sobre a terra. E os ossos da nossa inocência ficarão ainda mais soterrados debaixo do peso do betão.

China Blue


(Imagens do documentário China Blue, de Micha X. Peled, 87', EUA 2005)

Quanto custam, realmente, as calças de ganga que temos vestidas? Quanto custam a quem as faz, sem regras de trabalho, sem tempo para dormir, sem tempo nem dinheiro para viver? O filme, que foi projectado no DocLisboa do ano passado, passa amanhã no Jardim da Estrela, em Lisboa, integrado na programação do Fórum de Comércio Justo. Como já tinhamos sido alertados, em boa hora, também há debates, música, jogos, histórias e sabores do mundo.

Cálculo da Felicidade

1.

“Estavas tão linda, naquela fotografia! Com 54 anos eras 1 mulher de fazer parar o trânsito!”. A voz aveludada, nocturna, é de 1 homem, diria 60s e tais, ao telemóvel, sozinho, na entrada de um prédio.

2.

Vêm pela rua, com mochilas e roupas largas. Falam alto dos mecanismos de comunicação online. Quando nos cruzamos, 1 das amigas garante às outras 2, com entusiasmo: “Eu tenho 271 amigos!”.

3.

Colocou na Internet a petição de casamento à namorada. Espera reunir "10.000 assinaturas de apoio, oficiais, até ao Verão". Escreve, no email: “Isto não é spam. Passem palavra, com muito amor.”

8.5.07

Tom & Jerry (excerto do episódio 7361)

(Tom: 9 anos; Jerry: 4 anos)
(...)
Tom - O brinquedo é meu!
Jerry - Mas eu quero. Dá-mo!
Tom - Nem penses!
Jerry - És mau, não gosto de ti!
Tom - Deixa-me em paz.
Jerry - Vou dizer ao pai.
Tom - Então vai, ó queixinhas.
Jerry - Queixinhas és tu, parvo.
Tom - Pai, o mano chamou-me parvo.
Jerry - Não chamei nada!
Tom - Chamaste sim!
Jerry - És mentiroso!
Tom - Tu é que és.
Jerry - Pai, o mano chamou-me mentiroso.
Tom - Pai, é mentira.
Jerry - Dá-me o brinquedo.
Tom - O brinquedo é meu!
(...)
E assim, todos os dias, com emissão especial aos fins de semana, até adormecerem. Como dois anjos.

UNKLE [Ian Brown] - : - Be there

Banda Sonora

Primavera, Verão: uma menina corre pela calçada com uma flor amarela a domesticar o cabelo cavalinho. Bate com as sandálias brancas no chão - tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap

Café com letras

- Adoçante?
- Não, um aforismo.

"Andamos e não chegamos. O andar é tudo: princípio e fim."

(Teixeira de Pascoaes)

Fala do engenheiro melancólico

Atravessar a ponte, pode ser em vão.

7.5.07

Love will tear us apart : vários ...















Stina Nordenstam : Little Star


DAAU (Die Anarchistische Abendunterhaltung) : A Radical Chinese Duke




Aconselho o album: We need new animals

Pensando melhor...

(Sara. Técnica mista: amor e marcador azul sobre parede. Lisboa, um destes dias)

6.5.07

Os Combates

A minha irmã passou por cá, deixando aquele rasto de optimismo que a caracteriza, quando não está pessimista. Pegou num livro que estava em cima da mesa, enquanto bebericávamos chá, em família. Marcou uma página e disse: depois lê, é um dos meus favoritos. Quando ela saiu, voltei a ler. Também gosto muito. Não sei, caro amigo, se terão algum exemplar na biblioteca de Deadwood.

“(…) Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos). (…)”

Gonçalo M. Tavares, in “energia e ética”, 1, Relógio D’Água, 2004

DARFUR

(Fotografia)

Sim, tens razão: não há tempo a perder. Esta é uma verdadeira urgência e não custa nada dizer isso em voz alta.

Será que vivo em Deadwood?


Ontem, com o sol a cair no horizonte, depois de um jogo qualquer das camadas juvenis, no Centro de Estágio mesmo aqui ao lado, dois automobilistas mais frustrados, por causa da regra da prioridade, quase sacaram dos colts... Ainda bem que não passou tudo de pólovra seca, encosto eu peito, encostas tu agora, e de um uso mais varonil das mui belas expressões do português raçudo. No fim, mais ou menos saliva para o ar, montaram nos ginetes e puseram-se a andar. Vvvrrrummmm!
Hoje, enquanto vou ali já venho ao barco levar a minha sogra, deixo o filho mais velho a tomar conta de bolas & bicicletas. De regresso ao bairro, com o filho mais novo pela mão, que vejo? O rapaz, cheio de medo, escondido atrás de um carro. E, a dois passos, uma cena de cabo de esquadra. Homem, ex-mulher, mulher actual e a filha dos dois primeiros, esta bem grávida. Paus e punhos levantados, murros, chapadas, gritos, insultos & outros pormenores pouco dignificantes ("Até nua te deixaram à porta de casa, minha grande puta!", etc.), travados a custo por dois civis mais destemidos, clientes do café da esquina. Hora de recolher a casa, rapazes! O Seth Bullock que trate do assunto!
Antes, já passara por nós um pescador, os dois remos aos ombros (como a vida? os dias?), galochas verdes, balde de plástico cheio até cima. "Correu bem a pescaria?" Resposta lacónica, do género mete-te na tua vida: "Mais ou menos." E seguiu caminho. Ok. Cada um na sua. E eu vou só ali já venho beber um copo ao Saloon do Al e espreitar as raparigas... É que a vida é dura e dura pouco, aqui, nas terras de fronteira do velho oeste! À vossa!

Albert Watson : Fotógrafo II

Albert Watson : Fotógrafo




Albert Watson

Partilhar pontes

Faço-o pelo prazer da partilha e não para cumprir o ritual, enquanto os companheiros assobiam às três tabelas. Sim, há muitos lugares, nesta rede, que me fazem pensar. Alguns, numa visita que se foi tornando quotidiana, pelo desenho de cumplicidades: respiração, leituras, viagens. Mas há outras, tantas!, novas descobertas (quase) todos os dias, esta e aquela que vou somando a uma lista onde me apetece voltar, sempre que possível: bandeiraaovento, origemdasespecies, anaturezadomal, sound--vision, aterceiranoite.

A Europa pode esperar?

(Foto: Raphaël d'Aboville, no site do Libération)

Há imagens que são uma autêntica encruzilhada. Esquerda, direita? Porque é que puseram o miúdo a fazer esta figura? Será baptizado? Bem, pelo menos livra-se do limbo.

O céu não pode esperar

"O limbo morreu" informa-nos hoje o jornal. António Marujo escreve no Público um interessante artigo, onde enquadra e esclarece o assunto. A decisão formal foi ontem publicada numa revista do Vaticano, pela Comissão Teológica Internacional. A comissão concluiu que "os bebés não baptizados serão salvos". É sempre bom saber que a Igreja Católica adopta a cadeirinha para a alma, na atribulada viagem. Mas parece que continua a discussão em torno do pecado original. Estas coisas não se resolvem com dois dedos de conversa.

5.5.07

O Arrumador de Destinos

Cara ou coroa? Roda a moeda sobre o capô brilhante ainda quente, disparada pelo indicador da mão direita e o polegar da esquerda, cada um para seu lado, como irmãos de unhas encardidas, subitamente desavindos. Gira. Cara? Feia, redonda, sardenta, linda de morrer, encovada, metade, pálida, de caso, de cu, carantonha. Rodopia. Coroa? De espinhos, diamantes, molar, canino, princesa ervilha-de-cheiro, sapo encantado, rei de paus, dama antiga no secador do cabeleireiro. Roda a moeda, roda sem fim, dançando louca na fibra de vidro ou lá de que é feito isto agora. Roda solteirona embriagada de volteio, roda sem parar, embalada por uma estranha energia, rebola agora em automobilístico plano inclinaaaaaaado… Merda!

Cai a moeda no chão e desliza sobre a linha do perfil, circular monociclista de misteriosa cotação. Arredonda-se sobre a grelha da sarjeta. Clinck!

4.5.07

Santa genialidade

(Um diálogo entre P., quase 5 anos, e o pai)

"Eu tenho dois meninos génios na minha sala."
"Meninos génios!? Não são gémeos?"
"Não, são génios."
"Então porquê?"
"Então, são irmãos, têm os mesmos pais e nasceram no mesmo dia! São génios."
"Olha, pois são!"

Na dúvida

(Foto: J)

Fechou as janelas. Desligou a água e o gás. Escreveu cinco frases no blogue. Não regou as plantas e saiu. Afastou-se, a passos largos, como se tivesse uma certeza.

Bang!

(Foto: J)

O tiro ecoou pela rua. O homem com o cão amarelo estacou, parecendo farejar a trajectória do som. A mulher da loja das flores espreitou pela porta, com um cacto entre as mãos. Na varanda de um último andar, um tipo com barba por fazer escrevia banalidades num pequeno caderno de capa preta. Depois de algumas averiguações, os dois polícias puseram de parte a explicação balística e a hipótese do rebentamento de um pneu. Não aceitaram como razoável o testemunho de um transeunte, que garantia ter-se tratado do estoiro de um sonho, com origem indeterminada. O caso foi arquivado.

Dead Man

Down by Law ...

Down by Law (Jim Jarmusch 1986)



"buzz of to for you too ..." ;-)

O Nome Certo

Será uma questão de probabilidades: nunca imaginei que o raio do restaurante – comida boa, preço justo – ia ter assunto com poucos dias de intervalo. Numa mesa, o responsável por uma conhecida empresa de sondagens. Na mesa do lado, um secretário de Estado, acompanhado por três jovens – dois homens e uma mulher, fardados com competência. Depois de saldar a conta, o homem das sondagens, com a gravata enfiada no bolso do lenço do casaco, abeira-se do governante. Primeiro, surgem algumas informações sobre a oscilação das intenções de voto, de uma forma geral. Depois, a conversa desliza para o buraco de Lisboa. Este e aquele e aqueloutro. “Neste momento, o apelido só o puxa para baixo” afiança o homem dos inquéritos, acrescentando que “o João sabe disso!”. Despede-se mas volta para picar o membro do governo: “Faça lá um exercício intelectual para descobrir o terceiro nome!” atira, da porta, fazendo o interlocutor saltar da cadeira e segui-lo para a rua. Faites vos jeux!

Sinto-me muito tentado a concordar com José Miguel Júdice, que hoje escreve, no jornal Público, um artigo intitulado “Um António para salvar Lisboa”. Talvez António Mega Ferreira (actualmente no CCB) ou António Gomes de Pinho (Fundação Serralves) fossem boas soluções. Desde que, como defende o articulista, “tivessem total liberdade para formar a sua equipa.” Hoje não pedi água com gás. As utopias ajudam a fazer a digestão.

Tom Waits : It's All Right With Me (Red Hot + Blue)

Tom Waits : Goin Out West

Tom Waits : For No One (Animated 1979 John Lamb)

O Escritor Amador

(Foto: J - Alentejo, Abril 2007)

Naquela Primavera, encheu cadernos de garatujas. Nortada, suão, brisa-beijo. Fazia coincidir o fio do horizonte com a lâmina da navalha. Andava sem destino embora soubesse que o Verão se aproximava, com a sua época de incêndios devastadores.

O tradutor errou

Tradutor traidor - arriscar e errar. Quem brinca com o fogo... As minhas colegas de Inglês confirmam o meu erro de tradução: "fired everyone" só pode ser "despediu toda a gente". Fica o pedido de desculpas ao autor e aos (eventuais) leitores. Quanto ao tradutor, está despedido! Dedique-se à pesca!

(Embora se mantenha viva a crítica política do poema...)

Carnivále : Séries 1 e 2



A não perder ...

Vocábulos e Oração

com uma chapelada a Wim Wenders

A rapariga segue pelo passeio, com um saco colorido a tiracolo. Parece dançar. Feliz. Passa pela montra escura do cabeleireiro novo da rua e, um passo adiante, dois passos atrás. Espreita a montra. Depois, espreita-se na montra. Leva a mão ao cabelo e fá-la deslizar, pondo a cabeça um pouco de lado. Fica uns instantes. Ajeita o cabelo longo. Segue o caminho, ainda com passos de bailarina. Adivinho-lhe o pensamento escorrido, reflexo no vidro, aparando as pontas, talvez imaginando uma outra cor. Faço de anjo, com asas de desejo, como se estivesse pendurado nos céus de Berlim. Deixai-me cair em tentação.

3.5.07

A Medalha

São suculentas postas como esta, aqui em baixo, que me fazem sentir menos constrangido ao verificar esta simpatia. O que é que se faz? Agradece-se, claro! Ergue-se o chapéu com a ponta dos dedos e inclina-se levemente a cabeça, sim. E mais? Devolve-se a gentileza? Parece que é suposto indicar outras cinco pontes, rapazes. Larguem lá os bilhares e sentem-se aqui. Ó Sr. Silva, é uma rodada de imperiais e uns tremoços, sefaxavor!

Primeiro de Maio (outra vez?)

1. Reincido. Mas é que isto anda tudo ligado. Meto-me em trabalhos desnecessários, a fazer leituras em inglês (e o Saramago ali, à espera de ser relido!) e descubro um poema do Roger McGough no dia em que vejo mais um episódio da série documental de António Barreto e Joana Pontes, Portugal, um Retrato Social. E que vejo eu no programa de AB e JP? Entre muitas outras coisas, isto: um depoimento de um médico a trabalhar há muitos anos no distrito de Setúbal e a lembrar, a quem se esqueceu, ou quer esquecer, a crise dos anos 80 aqui vivida, o desemprego, os salários em atraso, a fome, o desespero, os suicídios. Palavras desse ilustre profissional de saúde, podem confirmar, se não viram. Pois, e isto que tem que ver com os poemas do McGough, que nunca deve ter posto os pés em Setúbal nos anos 80 (nem nos 90, nem nestes de agora, nem no Vale do Ave, nem por aí fora)? Eu acho que tem alguma coisa a ver. Talvez queiram conferir. Diz assim:


Fired with Enthusiasm*

This morning
the boss
came into work
bursting
with enthusiasm

and fired everybody.


2. Vou traduzir este poema, mas não pretendo maçar-vos com as minhas muito íntimas questões sobre a tradução de poesia (podes saltar esta parte, J.). Só preciso de dizer algumas coisas. Primeiro que tudo, evidenciar que a energia significativa desta micro-narrativa poética se vai concentrando até atingir o clímax do último verso: "fired everybody". Depois, notar que este clímax é o nó górdio da ambiguidade poética do texto, porque "fired" pode, em inglês, significar, pelo menos, despediu e disparou. Por conseguinte, deixar claro que a eliminação de qualquer uma destas opções implica reduzir drasticamente o alcance estético (poético) e ético (político) do texto. Neste sentido, atraiçoar sem remédio o poema. Traduttore traditore sempre, claro. Mas o menos possível. Por isso proponho a manutenção do duplo sentido, inscrevendo no título e no último verso, isto é, nos topos inicial e final do texto, cada uma das interpretações permitidas. Quanto à opção de reforçar a noção de "disparo" ou "fazer fogo" sobre "toda a gente", colocando-a a fechar o poema, ela decorre não só da decisão de traduzir "bursting" como "a arder" (o fogo como elemento de ligação lógica e imagética), como ainda da constatação de que o último verso se separa do corpo estrófico anterior, aparecendo isolado. Talvez isso possa ser interpretado como uma estratégia do poeta: sugerir ao leitor que o último verso tem um alcance distinto do que atrás se disse (circunscrito ao mundo do trabalho e das relações laborais). Um alcance mais vasto: a ideia de que o mundo do trabalho espelha afinal, de forma enviesada, a violência do mundo contemporâneo. Leia-se: da sociedade capitalista contemporânea e das suas relações (des) reguladas pelo lucro a qualquer preço. "A qualquer preço?", esta poderia ser a pergunta do poeta.

3. E tudo por causa de uma simples (e má?, errada?) tradução:


Despedidos com entusiasmo

Esta manhã
o patrão
veio para o trabalho
a arder
de entusiasmo

e disparou sobre toda a gente.


É que, em alguns casos, despedimento e desespero podem significar a mesma coisa. Parece que aconteceu aqui em Setúbal (já não acontece algures?) É como colocar uma arma de fogo nas mãos de alguns que, não sabendo o que fazer com ela, a viram contra si próprios. Mas isto não deve ter nada a ver com a poesia. A poesia é beleza e só devia falar da primavera e do amor. Então para quê isto? Tem algum jeito? Vejam só se podemos chamar poema a uma coisa destas:


Conservative Government Unemployment Figures*

Conservative Government.
Unemployment?
Figures.

Nem me atrevo a traduzir: ainda começo a confundir conservador com social-democrata, social-democrata com socialista, and so on. E nós, afinal, não estamos em Manchester. Vou mas é dedicar-me à prosa do Saramago. É portuguesa e castiça. E não precisa de tradução. E amanhã é dia de trabalho. E a minha política é o trabalho. And so on.


*in The State of Poetry, Roger McGough, Peguin Books, London, 2005.

Joy Division : (Live 1979) Transmission & She's lost control



Joy Division
Ian Curtis

2.5.07

Nós / Voz


Portugal, um retrato social é um extraordinário cometimento televisivo e cultural. Deve ser isto o serviço público de televisão. Algumas observações críticas podem, sempre, fazer-se (por exemplo, demasiada atenção ao urbano, ou a Lisboa, como no episódio de ontem), contudo parece ser consensual, junto da imensa minoria (?) que tem seguido o programa, que se trata de um trabalho de grande nível. Noto, porém, da parte dos meus amigos e colegas, mais ou menos fiéis à série, uma reserva clara e unânime em relação à qualidade da voz de António Barreto para fazer a locução. Uma voz, dizem-me, monótona, monocórdica, pouco expansiva, nada expressiva. Não tenho a mesma opinião. Na verdade, acho que a visão de Portugal que Barreto apresenta (é a sua visão, não a de outro) se expressa essencialmente através da sua voz, elemento tão importante como as imagens e as informações (ideias, dados estatísticos, interpretações, etc.) veiculadas ao longo dos programas. O Portugal de Barreto é o Portugal expresso pela natureza distanciada dessa sua voz não-televisiva: um país que mudou muito, para melhor, em múltiplos aspectos, mas marcado por profundas desorientações, dificuldades, problemas. A voz de Barreto é, no fim de contas, 33 anos depois do 25 de Abril, a voz melancólica, e nada sofisticada ou cativante, de um país sem ilusões.


(Ainda a propósito de vozes, faço minhas as palavras de M. e sugiro que a excelente banda sonora da série, composta por Rodrigo Leão, seja complementada com a audição da colecção de cd's do Público sobre os últimos 50 anos de música portuguesa. Muitas vozes, muitos retratos de Portugal.)

Uma saída


(R.E.M. - Everybody Hurts)

Sid Vicious - My way

Swell : Make me nothing

Vizinhança

As duas raparigas lavam a montra, empoleiradas em escadotes. Conversam e soltam risos. No beiral do topo do edifício de quatro andares, uma gaivota sacode vigorosamente o cadáver de um pombo. A cena repete-se. O mundo é um lugar perigoso também para os pombos. Quando a gaivota aplica uma bicada mais vigorosa, o que resta do corpo da ave cinzenta é projectado para o vazio. Num abrir e fechar de olhos tomba no passeio, entre os dois escadotes. As raparigas assustam-se e uma delas dá um grito agudo. Life is like a box of chocolates.

O Preço Certo

Um é um político quarentão, em pousio; o outro, mais velho, de cabelos brancos, nunca o vi mais gordo. Almoçavam na mesa do lado. Como se sabe, estas coisas podem dar azia. É por isso que levo sempre um livro, à defesa. O facto é que é difícil ignorar, por completo, uma conversa que se desenrola a metro e meio de distância, num tom de voz mediano. Dizia o dos cabelos brancos, a certa altura, referindo-se, pelo que percebi, a um episódio de uma campanha: “Há sempre um custo a mais que as pessoas têm e que nós ignoramos.”. O almoço não estava mau mas, com o café, pedi uma água com gás.

(você está aqui)

Esta manhã perdi-me. Tinha ido, de carro, a um sítio, nos arredores de Lisboa. Cheguei sem problemas. Perdi-me no regresso. Não tinha pressa e, quando assim é, gosto de me perder (estou a aprender esse prazer). Gostava até de me perder mais vezes - ter menos pressa, portanto. Ficar, calmamente, desnorteado. Encostar o carro ou encostar-me, andarilho, e apreciar aquele lugar inesperado, como se me descobrisse dentro de uns parênteses.

1.5.07

preciso que me digas

CANTO VIGÉSIMO TERCEIRO

Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.

Tonino Guerra, in O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira,
Assírio e Alvim, 2003

Cabaret Voltaire : Resonator




Os precursores da música electrónica de dança ... dizem os entendidos ... Formados em 1973 ...

Dia do Trabalhador (2)

Recupero pedaços do mundo, de ouvido, numa reinvenção da realidade. Open. Pulo das sete da manhã para as nove da noite com um click. Tomo notas. Faço zoom sobre o meio-dia. Isolo este instante de água e algumas palavras. Save. Com um bisturi, secciono o corpo do MP3, no momento em que me oferecem um copo de vinho tinto, uma fatia de pão alentejano e uma rodela de chouriço. Dá-me a fome. Vou almoçar. De carne e osso.

Dia do Trabalhador

Primeiro de Maio


Os meus filhos
trabalham com as plasticinas.

A minha mulher
trabalha com guardanapos
tintas e madeira.

Eu escrevo este trabalho.

O trabalho da natureza

(Fotos: J - Alentejo, Abril 2007)

A música concreta do corpo

Há um rumor, chamemos-lhe assim, que cresce e estala o corpo. A pele bronzeada destas mãos, por exemplo. O tempo que a prega de pele, suspensa por instantes entre o polegar e o indicador, demora a regressar à posição original. As maçãs que o sorriso acaricia, sulcadas pela memória do sal. Um rumor que se instala no corpo, gemendo, cordame de navio antigo.

Experimento escrever mulher, seis letras torneadas pelo desejo.

(Detalhe do cartaz do filme Identificação de Uma Mulher, de Michelangelo Antonioni, 1982)

Ainda inebriado pelo perfume da hortelã, escrevo silêncio, boca na boca do texto. Deixo as mãos, tisnadas, de unhas roídas e veias salientes, aqui suspensas. Um jogo de sombras sobre a pele em branco. Dispo-te de palavras e acaricio todos os teus sentidos. É outro, então, o rumor – música de sílabas desalinhadas: um pulsar de tambor; cordas tensas; um piano circular, em crescendo; cordas ritmadas; o piano intenso, intenso, numa teia hipnótica e depois mais calmo, envolto num zumbido; o tambor, pulsando ainda; sopros murmurados; um rumor, harpejando, que busca o silêncio, já o suor arrefece a pauta.