6.5.07
Partilhar pontes
A Europa pode esperar?
(Foto: Raphaël d'Aboville, no site do Libération)O céu não pode esperar
5.5.07
O Arrumador de Destinos
Cara ou coroa? Roda a moeda sobre o capô brilhante ainda quente, disparada pelo indicador da mão direita e o polegar da esquerda, cada um para seu lado, como irmãos de unhas encardidas, subitamente desavindos. Gira. Cara? Feia, redonda, sardenta, linda de morrer, encovada, metade, pálida, de caso, de cu, carantonha. Rodopia. Coroa? De espinhos, diamantes, molar, canino, princesa ervilha-de-cheiro, sapo encantado, rei de paus, dama antiga no secador do cabeleireiro. Roda a moeda, roda sem fim, dançando louca na fibra de vidro ou lá de que é feito isto agora. Roda solteirona embriagada de volteio, roda sem parar, embalada por uma estranha energia, rebola agora em automobilístico plano inclinaaaaaaado… Merda!
4.5.07
Santa genialidade
"Eu tenho dois meninos génios na minha sala."
"Meninos génios!? Não são gémeos?"
"Não, são génios."
"Então porquê?"
"Então, são irmãos, têm os mesmos pais e nasceram no mesmo dia! São génios."
"Olha, pois são!"
Na dúvida
Bang!
(Foto: J)O Nome Certo
Será uma questão de probabilidades: nunca imaginei que o raio do restaurante – comida boa, preço justo – ia ter assunto com poucos dias de intervalo. Numa mesa, o responsável por uma conhecida empresa de sondagens. Na mesa do lado, um secretário de Estado, acompanhado por três jovens – dois homens e uma mulher, fardados com competência. Depois de saldar a conta, o homem das sondagens, com a gravata enfiada no bolso do lenço do casaco, abeira-se do governante. Primeiro, surgem algumas informações sobre a oscilação das intenções de voto, de uma forma geral. Depois, a conversa desliza para o buraco de Lisboa. Este e aquele e aqueloutro. “Neste momento, o apelido só o puxa para baixo” afiança o homem dos inquéritos, acrescentando que “o João sabe disso!”. Despede-se mas volta para picar o membro do governo: “Faça lá um exercício intelectual para descobrir o terceiro nome!” atira, da porta, fazendo o interlocutor saltar da cadeira e segui-lo para a rua. Faites vos jeux!
O tradutor errou
(Embora se mantenha viva a crítica política do poema...)
Vocábulos e Oração
com uma chapelada a Wim Wenders
A rapariga segue pelo passeio, com um saco colorido a tiracolo. Parece dançar. Feliz. Passa pela montra escura do cabeleireiro novo da rua e, um passo adiante, dois passos atrás. Espreita a montra. Depois, espreita-se na montra. Leva a mão ao cabelo e fá-la deslizar, pondo a cabeça um pouco de lado. Fica uns instantes. Ajeita o cabelo longo. Segue o caminho, ainda com passos de bailarina. Adivinho-lhe o pensamento escorrido, reflexo no vidro, aparando as pontas, talvez imaginando uma outra cor. Faço de anjo, com asas de desejo, como se estivesse pendurado nos céus de Berlim. Deixai-me cair em tentação.
3.5.07
A Medalha
Primeiro de Maio (outra vez?)
Fired with Enthusiasm*
This morning
the boss
came into work
bursting
with enthusiasm
and fired everybody.
Despedidos com entusiasmo
Esta manhã
o patrão
veio para o trabalho
a arder
de entusiasmo
e disparou sobre toda a gente.
Conservative Government Unemployment Figures*
Conservative Government.
Unemployment?
Figures.
Nem me atrevo a traduzir: ainda começo a confundir conservador com social-democrata, social-democrata com socialista, and so on. E nós, afinal, não estamos em Manchester. Vou mas é dedicar-me à prosa do Saramago. É portuguesa e castiça. E não precisa de tradução. E amanhã é dia de trabalho. E a minha política é o trabalho. And so on.
*in The State of Poetry, Roger McGough, Peguin Books, London, 2005.


