6.5.07

Partilhar pontes

Faço-o pelo prazer da partilha e não para cumprir o ritual, enquanto os companheiros assobiam às três tabelas. Sim, há muitos lugares, nesta rede, que me fazem pensar. Alguns, numa visita que se foi tornando quotidiana, pelo desenho de cumplicidades: respiração, leituras, viagens. Mas há outras, tantas!, novas descobertas (quase) todos os dias, esta e aquela que vou somando a uma lista onde me apetece voltar, sempre que possível: bandeiraaovento, origemdasespecies, anaturezadomal, sound--vision, aterceiranoite.

A Europa pode esperar?

(Foto: Raphaël d'Aboville, no site do Libération)

Há imagens que são uma autêntica encruzilhada. Esquerda, direita? Porque é que puseram o miúdo a fazer esta figura? Será baptizado? Bem, pelo menos livra-se do limbo.

O céu não pode esperar

"O limbo morreu" informa-nos hoje o jornal. António Marujo escreve no Público um interessante artigo, onde enquadra e esclarece o assunto. A decisão formal foi ontem publicada numa revista do Vaticano, pela Comissão Teológica Internacional. A comissão concluiu que "os bebés não baptizados serão salvos". É sempre bom saber que a Igreja Católica adopta a cadeirinha para a alma, na atribulada viagem. Mas parece que continua a discussão em torno do pecado original. Estas coisas não se resolvem com dois dedos de conversa.

5.5.07

O Arrumador de Destinos

Cara ou coroa? Roda a moeda sobre o capô brilhante ainda quente, disparada pelo indicador da mão direita e o polegar da esquerda, cada um para seu lado, como irmãos de unhas encardidas, subitamente desavindos. Gira. Cara? Feia, redonda, sardenta, linda de morrer, encovada, metade, pálida, de caso, de cu, carantonha. Rodopia. Coroa? De espinhos, diamantes, molar, canino, princesa ervilha-de-cheiro, sapo encantado, rei de paus, dama antiga no secador do cabeleireiro. Roda a moeda, roda sem fim, dançando louca na fibra de vidro ou lá de que é feito isto agora. Roda solteirona embriagada de volteio, roda sem parar, embalada por uma estranha energia, rebola agora em automobilístico plano inclinaaaaaaado… Merda!

Cai a moeda no chão e desliza sobre a linha do perfil, circular monociclista de misteriosa cotação. Arredonda-se sobre a grelha da sarjeta. Clinck!

4.5.07

Santa genialidade

(Um diálogo entre P., quase 5 anos, e o pai)

"Eu tenho dois meninos génios na minha sala."
"Meninos génios!? Não são gémeos?"
"Não, são génios."
"Então porquê?"
"Então, são irmãos, têm os mesmos pais e nasceram no mesmo dia! São génios."
"Olha, pois são!"

Na dúvida

(Foto: J)

Fechou as janelas. Desligou a água e o gás. Escreveu cinco frases no blogue. Não regou as plantas e saiu. Afastou-se, a passos largos, como se tivesse uma certeza.

Bang!

(Foto: J)

O tiro ecoou pela rua. O homem com o cão amarelo estacou, parecendo farejar a trajectória do som. A mulher da loja das flores espreitou pela porta, com um cacto entre as mãos. Na varanda de um último andar, um tipo com barba por fazer escrevia banalidades num pequeno caderno de capa preta. Depois de algumas averiguações, os dois polícias puseram de parte a explicação balística e a hipótese do rebentamento de um pneu. Não aceitaram como razoável o testemunho de um transeunte, que garantia ter-se tratado do estoiro de um sonho, com origem indeterminada. O caso foi arquivado.

Dead Man

Down by Law ...

Down by Law (Jim Jarmusch 1986)



"buzz of to for you too ..." ;-)

O Nome Certo

Será uma questão de probabilidades: nunca imaginei que o raio do restaurante – comida boa, preço justo – ia ter assunto com poucos dias de intervalo. Numa mesa, o responsável por uma conhecida empresa de sondagens. Na mesa do lado, um secretário de Estado, acompanhado por três jovens – dois homens e uma mulher, fardados com competência. Depois de saldar a conta, o homem das sondagens, com a gravata enfiada no bolso do lenço do casaco, abeira-se do governante. Primeiro, surgem algumas informações sobre a oscilação das intenções de voto, de uma forma geral. Depois, a conversa desliza para o buraco de Lisboa. Este e aquele e aqueloutro. “Neste momento, o apelido só o puxa para baixo” afiança o homem dos inquéritos, acrescentando que “o João sabe disso!”. Despede-se mas volta para picar o membro do governo: “Faça lá um exercício intelectual para descobrir o terceiro nome!” atira, da porta, fazendo o interlocutor saltar da cadeira e segui-lo para a rua. Faites vos jeux!

Sinto-me muito tentado a concordar com José Miguel Júdice, que hoje escreve, no jornal Público, um artigo intitulado “Um António para salvar Lisboa”. Talvez António Mega Ferreira (actualmente no CCB) ou António Gomes de Pinho (Fundação Serralves) fossem boas soluções. Desde que, como defende o articulista, “tivessem total liberdade para formar a sua equipa.” Hoje não pedi água com gás. As utopias ajudam a fazer a digestão.

Tom Waits : It's All Right With Me (Red Hot + Blue)

Tom Waits : Goin Out West

Tom Waits : For No One (Animated 1979 John Lamb)

O Escritor Amador

(Foto: J - Alentejo, Abril 2007)

Naquela Primavera, encheu cadernos de garatujas. Nortada, suão, brisa-beijo. Fazia coincidir o fio do horizonte com a lâmina da navalha. Andava sem destino embora soubesse que o Verão se aproximava, com a sua época de incêndios devastadores.

O tradutor errou

Tradutor traidor - arriscar e errar. Quem brinca com o fogo... As minhas colegas de Inglês confirmam o meu erro de tradução: "fired everyone" só pode ser "despediu toda a gente". Fica o pedido de desculpas ao autor e aos (eventuais) leitores. Quanto ao tradutor, está despedido! Dedique-se à pesca!

(Embora se mantenha viva a crítica política do poema...)

Carnivále : Séries 1 e 2



A não perder ...

Vocábulos e Oração

com uma chapelada a Wim Wenders

A rapariga segue pelo passeio, com um saco colorido a tiracolo. Parece dançar. Feliz. Passa pela montra escura do cabeleireiro novo da rua e, um passo adiante, dois passos atrás. Espreita a montra. Depois, espreita-se na montra. Leva a mão ao cabelo e fá-la deslizar, pondo a cabeça um pouco de lado. Fica uns instantes. Ajeita o cabelo longo. Segue o caminho, ainda com passos de bailarina. Adivinho-lhe o pensamento escorrido, reflexo no vidro, aparando as pontas, talvez imaginando uma outra cor. Faço de anjo, com asas de desejo, como se estivesse pendurado nos céus de Berlim. Deixai-me cair em tentação.

3.5.07

A Medalha

São suculentas postas como esta, aqui em baixo, que me fazem sentir menos constrangido ao verificar esta simpatia. O que é que se faz? Agradece-se, claro! Ergue-se o chapéu com a ponta dos dedos e inclina-se levemente a cabeça, sim. E mais? Devolve-se a gentileza? Parece que é suposto indicar outras cinco pontes, rapazes. Larguem lá os bilhares e sentem-se aqui. Ó Sr. Silva, é uma rodada de imperiais e uns tremoços, sefaxavor!

Primeiro de Maio (outra vez?)

1. Reincido. Mas é que isto anda tudo ligado. Meto-me em trabalhos desnecessários, a fazer leituras em inglês (e o Saramago ali, à espera de ser relido!) e descubro um poema do Roger McGough no dia em que vejo mais um episódio da série documental de António Barreto e Joana Pontes, Portugal, um Retrato Social. E que vejo eu no programa de AB e JP? Entre muitas outras coisas, isto: um depoimento de um médico a trabalhar há muitos anos no distrito de Setúbal e a lembrar, a quem se esqueceu, ou quer esquecer, a crise dos anos 80 aqui vivida, o desemprego, os salários em atraso, a fome, o desespero, os suicídios. Palavras desse ilustre profissional de saúde, podem confirmar, se não viram. Pois, e isto que tem que ver com os poemas do McGough, que nunca deve ter posto os pés em Setúbal nos anos 80 (nem nos 90, nem nestes de agora, nem no Vale do Ave, nem por aí fora)? Eu acho que tem alguma coisa a ver. Talvez queiram conferir. Diz assim:


Fired with Enthusiasm*

This morning
the boss
came into work
bursting
with enthusiasm

and fired everybody.


2. Vou traduzir este poema, mas não pretendo maçar-vos com as minhas muito íntimas questões sobre a tradução de poesia (podes saltar esta parte, J.). Só preciso de dizer algumas coisas. Primeiro que tudo, evidenciar que a energia significativa desta micro-narrativa poética se vai concentrando até atingir o clímax do último verso: "fired everybody". Depois, notar que este clímax é o nó górdio da ambiguidade poética do texto, porque "fired" pode, em inglês, significar, pelo menos, despediu e disparou. Por conseguinte, deixar claro que a eliminação de qualquer uma destas opções implica reduzir drasticamente o alcance estético (poético) e ético (político) do texto. Neste sentido, atraiçoar sem remédio o poema. Traduttore traditore sempre, claro. Mas o menos possível. Por isso proponho a manutenção do duplo sentido, inscrevendo no título e no último verso, isto é, nos topos inicial e final do texto, cada uma das interpretações permitidas. Quanto à opção de reforçar a noção de "disparo" ou "fazer fogo" sobre "toda a gente", colocando-a a fechar o poema, ela decorre não só da decisão de traduzir "bursting" como "a arder" (o fogo como elemento de ligação lógica e imagética), como ainda da constatação de que o último verso se separa do corpo estrófico anterior, aparecendo isolado. Talvez isso possa ser interpretado como uma estratégia do poeta: sugerir ao leitor que o último verso tem um alcance distinto do que atrás se disse (circunscrito ao mundo do trabalho e das relações laborais). Um alcance mais vasto: a ideia de que o mundo do trabalho espelha afinal, de forma enviesada, a violência do mundo contemporâneo. Leia-se: da sociedade capitalista contemporânea e das suas relações (des) reguladas pelo lucro a qualquer preço. "A qualquer preço?", esta poderia ser a pergunta do poeta.

3. E tudo por causa de uma simples (e má?, errada?) tradução:


Despedidos com entusiasmo

Esta manhã
o patrão
veio para o trabalho
a arder
de entusiasmo

e disparou sobre toda a gente.


É que, em alguns casos, despedimento e desespero podem significar a mesma coisa. Parece que aconteceu aqui em Setúbal (já não acontece algures?) É como colocar uma arma de fogo nas mãos de alguns que, não sabendo o que fazer com ela, a viram contra si próprios. Mas isto não deve ter nada a ver com a poesia. A poesia é beleza e só devia falar da primavera e do amor. Então para quê isto? Tem algum jeito? Vejam só se podemos chamar poema a uma coisa destas:


Conservative Government Unemployment Figures*

Conservative Government.
Unemployment?
Figures.

Nem me atrevo a traduzir: ainda começo a confundir conservador com social-democrata, social-democrata com socialista, and so on. E nós, afinal, não estamos em Manchester. Vou mas é dedicar-me à prosa do Saramago. É portuguesa e castiça. E não precisa de tradução. E amanhã é dia de trabalho. E a minha política é o trabalho. And so on.


*in The State of Poetry, Roger McGough, Peguin Books, London, 2005.