2.5.07

O Preço Certo

Um é um político quarentão, em pousio; o outro, mais velho, de cabelos brancos, nunca o vi mais gordo. Almoçavam na mesa do lado. Como se sabe, estas coisas podem dar azia. É por isso que levo sempre um livro, à defesa. O facto é que é difícil ignorar, por completo, uma conversa que se desenrola a metro e meio de distância, num tom de voz mediano. Dizia o dos cabelos brancos, a certa altura, referindo-se, pelo que percebi, a um episódio de uma campanha: “Há sempre um custo a mais que as pessoas têm e que nós ignoramos.”. O almoço não estava mau mas, com o café, pedi uma água com gás.

(você está aqui)

Esta manhã perdi-me. Tinha ido, de carro, a um sítio, nos arredores de Lisboa. Cheguei sem problemas. Perdi-me no regresso. Não tinha pressa e, quando assim é, gosto de me perder (estou a aprender esse prazer). Gostava até de me perder mais vezes - ter menos pressa, portanto. Ficar, calmamente, desnorteado. Encostar o carro ou encostar-me, andarilho, e apreciar aquele lugar inesperado, como se me descobrisse dentro de uns parênteses.

1.5.07

preciso que me digas

CANTO VIGÉSIMO TERCEIRO

Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.

Tonino Guerra, in O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira,
Assírio e Alvim, 2003

Cabaret Voltaire : Resonator




Os precursores da música electrónica de dança ... dizem os entendidos ... Formados em 1973 ...

Dia do Trabalhador (2)

Recupero pedaços do mundo, de ouvido, numa reinvenção da realidade. Open. Pulo das sete da manhã para as nove da noite com um click. Tomo notas. Faço zoom sobre o meio-dia. Isolo este instante de água e algumas palavras. Save. Com um bisturi, secciono o corpo do MP3, no momento em que me oferecem um copo de vinho tinto, uma fatia de pão alentejano e uma rodela de chouriço. Dá-me a fome. Vou almoçar. De carne e osso.

Dia do Trabalhador

Primeiro de Maio


Os meus filhos
trabalham com as plasticinas.

A minha mulher
trabalha com guardanapos
tintas e madeira.

Eu escrevo este trabalho.

O trabalho da natureza

(Fotos: J - Alentejo, Abril 2007)

A música concreta do corpo

Há um rumor, chamemos-lhe assim, que cresce e estala o corpo. A pele bronzeada destas mãos, por exemplo. O tempo que a prega de pele, suspensa por instantes entre o polegar e o indicador, demora a regressar à posição original. As maçãs que o sorriso acaricia, sulcadas pela memória do sal. Um rumor que se instala no corpo, gemendo, cordame de navio antigo.

Experimento escrever mulher, seis letras torneadas pelo desejo.

(Detalhe do cartaz do filme Identificação de Uma Mulher, de Michelangelo Antonioni, 1982)

Ainda inebriado pelo perfume da hortelã, escrevo silêncio, boca na boca do texto. Deixo as mãos, tisnadas, de unhas roídas e veias salientes, aqui suspensas. Um jogo de sombras sobre a pele em branco. Dispo-te de palavras e acaricio todos os teus sentidos. É outro, então, o rumor – música de sílabas desalinhadas: um pulsar de tambor; cordas tensas; um piano circular, em crescendo; cordas ritmadas; o piano intenso, intenso, numa teia hipnótica e depois mais calmo, envolto num zumbido; o tambor, pulsando ainda; sopros murmurados; um rumor, harpejando, que busca o silêncio, já o suor arrefece a pauta.


30.4.07

25 de Abril (sempre?)

D., 17 anos, aluno do 12º ano, esta tarde, a meio de uma aula: "Andei 2 meses a estudar a Revolução Francesa. Mas nunca estudei o 25 de Abril."
Pois.

Viagem

(Foto: J - Alentejo, Abril 2007)


O Derby

- Grrrrrrr! Grrrrrrr!
- Vriiuuuuuuiiiuuuuu!
- Ão, ão, ão, auuuh...
- Oinc, oinc, oinc!
- Yyyiiiiiiiiiiiii!
- Hinc hinc hinc!
- Zzzzrrrrruuuuummm!
- Catapum catapum catapum!
- Miauuu! Miauuummm!
- Piu piu piu piu piu piu piu....
Etc.
(E, no fim, ficou tudo na mesma).

Cavalo e Árvore com Nevoeiro

(Foto: J - São Cristóvão, Abril 2007)

29.4.07

O derby

(Foto: J - São Cristóvão, Abril 2007)

- O quê?
- O derby.
- Isso não é aquela corrida de cavalos de Epsom?
- Sim. E nos Estados Unidos é um chapéu de coco.
- Estou a ver...
- Olha lá, tens a baliza toda aberta!
- Eu acho que é melhor acautelarmos aqui a esquerda, pá!
- E a extrema direita?
- Já te disse, é a esquerda!
- Estás a ser mula...!
- Mula era a tua mãe.
- Bem, vamos lá a ver os insultos...
- Isto é um derby, é normal...
- Um chapéu de coco?
- Eh! Eh!
- Parece que o Puro Sangue das Antas tropeçou...
- Isso é bom... Como foi?
- Que te interessa? A cavalo dado não se olha o dente!
- Ah! Ah! Tu tens graça, pá! Onde é que aprendeste isso?
- Foi em Epsom.
- No derby?
- Não. No Derby.
- Estou a ver...
- Isto está cheio de moscas.
- Pois está.

28.4.07

Um Poema*

Condomínios fechados

Dá-se o caso de a minha vasta experiência me ensinar
que nos entenderemos
A preocupação prioritária dos nossos serviços
é o seu bem-estar
É claro que aconselhamos a aceitação incondicional
das condições propostas
De resto, as melhores do mercado,
sem nenhuma reserva ou dúvida
O condomínio será rigorosamente fechado,
como o negócio
A garantia é para toda
a vida
Vigiamos electronicamente, temos a tecnologia,
entradas & saídas
Pode dar-se ao luxo de ser cego surdo e mudo
à vontade
Tratamos de tudo, vale-nos (creia) a sua palavra
de honra
Serão incontáveis os benefícios para todo o agregado
familiar
Dá-nos o grande prazer de nos acompanhar
agora ao gabinete?
Leia por favor até ao fim
o contrato (não enganamos ninguém)
Sim, mesmo as letras mais pequenas, temos as lentes
adequadas, não paga mais nada, ao seu caso
Não receie, não vamos deixar embaraçado o futuro,
não é verdade?
Resolvemos tudo sem demora, estamos cá
para isso
E chaves na mão
É só assinar aqui


*do livro Transportes Púbicos (que nunca será escrito, pelo menos por mim).

26.4.07

José Afonso Ao Vivo Agora Aqui


Revi, na RTP-Memória, o espectáculo de José Afonso no Coliseu (29 de Janeiro de 83). Mas fiquei desapontado: a versão emitida, muito reduzida, excluiu vários temas (instrumentais e cantados) como "À Proa", "Comboio Descendente" (Pessoa trabalhado com graça e ironia), "Um Homem Novo Veio da Mata", etc. Felizmente, se as carteiras ainda o permitirem, poderemos reencontrar estas e todas as outras canções dessa noite mágica, registadas em José Afonso - As Últimas Gravações: 1983 /1985, uma edição limitada da Companhia Nacional de Música que, em 4 cd's, nos restitui o concerto de 1983, acompanhado pelas duas derradeiras obras do autor de "Era Um Redondo Vocábulo": Como Se Fora Seu Filho (de 83) e Galinhas do Mato (de 85). Tudo com coordenação e textos do João Carlos Callixto, esse amante incansável e minucioso da música portuguesa.

(Numa nota muito pessoal, deixem-me dizer ainda que, no filme do espectáculo, pude, de repente, dar de caras com o Hipólito, na plateia, a aplaudir, com emoção e entusiasmo, perto do Sérgio Godinho, do Vitorino e de outros... Que surpresa! Era bastante mais velho do que eu... Só vim a conhecê-lo em 86 ou 87, na faculdade, onde fomos colegas do mesmo curso, ainda que ele me levasse um ano de avanço. Depois ele terminou e nunca mais nos vimos. Soube, mais tarde, da sua morte, já não sei por quem. E ontem lá estava, de pé, de cachecol preto e barba a condizer, a aplaudir entusiasticamente...)

Uma PIDE toda modernaça ...

"Os funcionários públicos estão indignados com a última do Governo:
um manual para aprender a denunciar colegas corruptos."

in
Newsletter, SIC, Jornal da Noite

Madredeus : Ao longe o mar ... (*)




(*) a única versão que encontrei :-( ... não acho piada nenhuma a estes mixes ...

... mais Ary ...

Lisboa ...



Canta: Carlos do Carmo
Poema de: Ary dos Santos
Música de: Paulo de Carvalho

No Castelo ponho um cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar.

À Ribeira encosto a cabeça
Almofada na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem, tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto luz, bordada
Toalha à beira-mar, estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida.

No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar.

Um cavalo (em 3 andamentos)

Sou lindo, não sou?

Um pouco louco, eu sei...

Mas oooooodeio acordar cedo!


(fotos: J - Poceirão, Abril 2007)