26.4.07

José Afonso Ao Vivo Agora Aqui


Revi, na RTP-Memória, o espectáculo de José Afonso no Coliseu (29 de Janeiro de 83). Mas fiquei desapontado: a versão emitida, muito reduzida, excluiu vários temas (instrumentais e cantados) como "À Proa", "Comboio Descendente" (Pessoa trabalhado com graça e ironia), "Um Homem Novo Veio da Mata", etc. Felizmente, se as carteiras ainda o permitirem, poderemos reencontrar estas e todas as outras canções dessa noite mágica, registadas em José Afonso - As Últimas Gravações: 1983 /1985, uma edição limitada da Companhia Nacional de Música que, em 4 cd's, nos restitui o concerto de 1983, acompanhado pelas duas derradeiras obras do autor de "Era Um Redondo Vocábulo": Como Se Fora Seu Filho (de 83) e Galinhas do Mato (de 85). Tudo com coordenação e textos do João Carlos Callixto, esse amante incansável e minucioso da música portuguesa.

(Numa nota muito pessoal, deixem-me dizer ainda que, no filme do espectáculo, pude, de repente, dar de caras com o Hipólito, na plateia, a aplaudir, com emoção e entusiasmo, perto do Sérgio Godinho, do Vitorino e de outros... Que surpresa! Era bastante mais velho do que eu... Só vim a conhecê-lo em 86 ou 87, na faculdade, onde fomos colegas do mesmo curso, ainda que ele me levasse um ano de avanço. Depois ele terminou e nunca mais nos vimos. Soube, mais tarde, da sua morte, já não sei por quem. E ontem lá estava, de pé, de cachecol preto e barba a condizer, a aplaudir entusiasticamente...)

Uma PIDE toda modernaça ...

"Os funcionários públicos estão indignados com a última do Governo:
um manual para aprender a denunciar colegas corruptos."

in
Newsletter, SIC, Jornal da Noite

Madredeus : Ao longe o mar ... (*)




(*) a única versão que encontrei :-( ... não acho piada nenhuma a estes mixes ...

... mais Ary ...

Lisboa ...



Canta: Carlos do Carmo
Poema de: Ary dos Santos
Música de: Paulo de Carvalho

No Castelo ponho um cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar.

À Ribeira encosto a cabeça
Almofada na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem, tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto luz, bordada
Toalha à beira-mar, estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida.

No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar.

Um cavalo (em 3 andamentos)

Sou lindo, não sou?

Um pouco louco, eu sei...

Mas oooooodeio acordar cedo!


(fotos: J - Poceirão, Abril 2007)

Liberdade (ou o 26 de Abril contado pelos rapazes)

Depois do almoço, transporto os 3, presos pelos cintos de segurança no banco de trás. Passamos por uma rotunda e vemos os cães aninhados ao centro, na relva, adormecidos. Sempre em movimento, eles dizem então:
"Quem me dera ser cão!"
"Podes crer, não tínhamos que ir à escola."
"E dormíamos a sesta!"
"Era fixe."
"E andávamos livres por todo o lado."
"Podes crer. E entrávamos nas lojas e ninguém nos via."
Pura utopia.

25.4.07

Palavras, imagens e sons de Abril (sempre)

RTP1: Não me obriguem a vir para a rua gritar (17.45).

RTP-Memória: José Afonso ao Vivo no Coliseu (22.30).

sempre

A luta continua.

sempre

Capitão Salgueiro Maia, Largo do Carmo, Lisboa, 25 de Abril de 1974.

Al Pacino






















25 April 1940, South Bronx, New York, New York, USA

Ella Fitzgerald : Cherry Red



Date of Birth: 25 April 1917, Newport News, Virginia, USA more
Date of Death: 15 June 1996 Beverly Hills, Los Angeles, California, USA

sempre

José Afonso, Coliseu de Lisboa, 29 de Janeiro de 1983.

24.4.07

Girls & boys

Turma x do 7º ano, esta tarde. A meio da aula, enquanto trabalhamos (ó céus!) os grupos nominal, adjectival e verbal, intercepto e confisco uma folha que circula (clandestina, com o rabo de fora) de raparigas para rapazes, e vice-versa, cheia de palavras (ó alturas!) desenhadas em diversas caligrafias, cores e tamanhos. Nomes, adjectivos e verbos que, por pudor (dá-me, tu, gramática, a coragem!), me abstenho de transcrever. Mas que calculo que não deixariam de impressionar, pela criatividade poética, é óbvio, os ciclópicos autores aqui citados dias atrás! Ó infinitos! Ó universos desalmados!

Boys & girls

E, de súbito, a meio dos 9 anos (ou um pouco mais cedo, ou um pouco mais tarde...), os rapazes começam a mudar. A este que nos interessa tanto fomos encontrá-lo de manhã, concentradíssimo na casa de banho, em frente ao espelho, de desodorizante em punho:
"O que estás a fazer?"
"Estou a perfumar-me."
"Ah sim? E porquê?"
"Porque o P.B. também se perfuma. E as raparigas andam todas atrás dele..."
"Ah sim? Então tá bem."
O facto de estar a utilizar o desodorizante da mãe ("cuidado suave", "máximo conforto", "regula a transpiração com minerais") não me preocupou minimamente. Mas fiquei com a estranha sensação de que há algo que me está a escapar por entre os braços, por entre os dedos das mãos fechadas. E eu sei o que é. E é assim mesmo.

25 de Abril ...




Rex Bloomstein : KZ



Passou na RTP 2 esta segunda feira.
KZ

Um poema (ao acaso?)

"Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Às vezes a tua boca ri e nada sabe,
ri porque prevê a hora certa da minha alegria.
Também eu mergulho no mar, porém
logo secos ficam meus cabelos quando
me lembro que hoje é outra vez dia de S. Nunca."

Helder Moura Pereira, in "Uma Questão Nervosa", A Tua Cara Não Me É Estranha, Assírio e Alvim, 2003

23.4.07

Notas de roda pé ao Dia Mundial que passou

desequilíbrio e sussurros

A biqueira do sapato, em choque frontal com o quase raso batente do portão, ia fazendo das boas mas chego inteiro ao anexo das traseiras. Voando sobre as capas como dois colibris, um rapaz e uma rapariga segredam. Porque segredam? Estamos poucos: eles, eu, um homem carregando livros como tijolos e um sorriso de Hannibal Lecter bibliófago, as duas raparigas da caixa, outros de saída – oxalá não tropecem, derramando a poesia no passeio onde, às vezes, há merda de cão. Três euros, cinco euros, quinze euros, mil folhas.

jogo com títulos à espera do talão do multibanco

A tua cara não me é estranha, dizes, com uma lágrima de coração independente. Trabalhaste o mel de sol a sol. E agora, o que vai acontecer? Biografia. Recebo o talão e um sorriso. Num pequeno terraço do prédio ao lado, camufladas por uma cortina de canas, há vozes de jantar tardio e alegre. Ai que prazer ter um livro para ler e não o fazer? Tomo cuidado com o batente, à saída. Não há merda de cão à vista. Não tenho nada contra os animais, ó Teixeira de Pascoaes! "O cão ladra e uiva, é já sábio e poeta.". Está uma noite de Verão, já viram isto?

todo o cuidado é pouco

É que está mesmo, de manga curta!
Os dois polícias surgem na esquina, três quarteirões adiante. Param de conversar e olham na minha direcção. Percebo que os olhos vasculham os sacos. Nem precisam daqueles óculos de visão nocturna, a rua está bem iluminada. Os sacos são transparentes, tenho o talão da compra, não vou em excesso de velocidade e também não atrapalho o trânsito a arrastar os pés, que diabo! Digo boa noite, como faço às vezes. Respondem-me na mesma moeda. A mercearia do Sr. Santos ainda tem luz. Podia levar um queijo e um pão regional. E braços?

Coisas sérias & de folgar

Vem lá de longe, do fundo dos tempos, o uso do palavrão na literatura e, particularmente, na poesia. É uma longa tradição que convive com a chamada literatura séria, coisa tão séria que gerou as "belas-letras" e confunde o escrever bem com essa aventura imprópria para pessoas sensíveis (cf. o poema de Sophia) que tem sido historicamente, tantas vezes, um acto de coragem e de contra-corrente. No caso português, talvez o começo se localize nos cancioneiros medievais (séculos XII a XIV), as colectâneas que garantiram a sobrevivência das belíssimas cantigas de amor e de amigo galego-portuguesas, mas também as de escárnio e mal-dizer, nas quais o folguedo, a sátira desbocada, o insulto empolado e a ofensa são reis & rainhas incontestáveis. Com a respectiva linguagem, curta e grossa, como neste exemplo obsceno de Afonso Eanes de Coton: "Marinha, en tanto de folegares / (...) tapo-t'ao primeiro sono / da mia pissa o teu cono (...)" (cf. Antologia da Poesia Galego-Portuguesa, organização de Alexandre Pinheiro Torres, Lello & Irmão, Porto, 1987, 2ª edição, p. 215). Talvez valha a pena lembrar que Natália Correia acolheu uma parte deste "tesouro" poético-linguístico na sua volumosa Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, reeditada em conjunto, em 1999, pelas editoras Antígona e Frenesi. Uma celebração e um prazer para o espírito e para os sentidos. Uma espécie de reencontro com uma das vocações essenciais do texto poético: a de nos confrontar com a nossa imperfeição, com o que queremos apagar, mas nos constitui essencialmente - um corpo no tempo, no espaço, à procura de outro corpo, da sua carne e do seu calor vital (portanto, da vida, da aura da vida, da alma). Por isso, para além da dimensão carnavalesca ou transgressiva (bem visível, por exemplo, através das experiências das crianças no uso das palavras feias que os adultos proibem), o recurso ao palavrão é também uma forma de recuperação de uma candura para sempre perdida. No fundo, uma tentativa impossível de voltar ao tempo em que as palavras não tinham ainda significados bem precisos, em que só havia palavras e palavrinhas. O tempo do jogo e do amor sem culpa nem pecado, como a água de um rio desconhecido ou o ar das montanhas agrestes. O tempo da inocência desaparecida, facto que o poeta lamenta num misto de ironia e tristeza infinda.