26.4.07

Liberdade (ou o 26 de Abril contado pelos rapazes)

Depois do almoço, transporto os 3, presos pelos cintos de segurança no banco de trás. Passamos por uma rotunda e vemos os cães aninhados ao centro, na relva, adormecidos. Sempre em movimento, eles dizem então:
"Quem me dera ser cão!"
"Podes crer, não tínhamos que ir à escola."
"E dormíamos a sesta!"
"Era fixe."
"E andávamos livres por todo o lado."
"Podes crer. E entrávamos nas lojas e ninguém nos via."
Pura utopia.

25.4.07

Palavras, imagens e sons de Abril (sempre)

RTP1: Não me obriguem a vir para a rua gritar (17.45).

RTP-Memória: José Afonso ao Vivo no Coliseu (22.30).

sempre

A luta continua.

sempre

Capitão Salgueiro Maia, Largo do Carmo, Lisboa, 25 de Abril de 1974.

Al Pacino






















25 April 1940, South Bronx, New York, New York, USA

Ella Fitzgerald : Cherry Red



Date of Birth: 25 April 1917, Newport News, Virginia, USA more
Date of Death: 15 June 1996 Beverly Hills, Los Angeles, California, USA

sempre

José Afonso, Coliseu de Lisboa, 29 de Janeiro de 1983.

24.4.07

Girls & boys

Turma x do 7º ano, esta tarde. A meio da aula, enquanto trabalhamos (ó céus!) os grupos nominal, adjectival e verbal, intercepto e confisco uma folha que circula (clandestina, com o rabo de fora) de raparigas para rapazes, e vice-versa, cheia de palavras (ó alturas!) desenhadas em diversas caligrafias, cores e tamanhos. Nomes, adjectivos e verbos que, por pudor (dá-me, tu, gramática, a coragem!), me abstenho de transcrever. Mas que calculo que não deixariam de impressionar, pela criatividade poética, é óbvio, os ciclópicos autores aqui citados dias atrás! Ó infinitos! Ó universos desalmados!

Boys & girls

E, de súbito, a meio dos 9 anos (ou um pouco mais cedo, ou um pouco mais tarde...), os rapazes começam a mudar. A este que nos interessa tanto fomos encontrá-lo de manhã, concentradíssimo na casa de banho, em frente ao espelho, de desodorizante em punho:
"O que estás a fazer?"
"Estou a perfumar-me."
"Ah sim? E porquê?"
"Porque o P.B. também se perfuma. E as raparigas andam todas atrás dele..."
"Ah sim? Então tá bem."
O facto de estar a utilizar o desodorizante da mãe ("cuidado suave", "máximo conforto", "regula a transpiração com minerais") não me preocupou minimamente. Mas fiquei com a estranha sensação de que há algo que me está a escapar por entre os braços, por entre os dedos das mãos fechadas. E eu sei o que é. E é assim mesmo.

25 de Abril ...




Rex Bloomstein : KZ



Passou na RTP 2 esta segunda feira.
KZ

Um poema (ao acaso?)

"Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Às vezes a tua boca ri e nada sabe,
ri porque prevê a hora certa da minha alegria.
Também eu mergulho no mar, porém
logo secos ficam meus cabelos quando
me lembro que hoje é outra vez dia de S. Nunca."

Helder Moura Pereira, in "Uma Questão Nervosa", A Tua Cara Não Me É Estranha, Assírio e Alvim, 2003

23.4.07

Notas de roda pé ao Dia Mundial que passou

desequilíbrio e sussurros

A biqueira do sapato, em choque frontal com o quase raso batente do portão, ia fazendo das boas mas chego inteiro ao anexo das traseiras. Voando sobre as capas como dois colibris, um rapaz e uma rapariga segredam. Porque segredam? Estamos poucos: eles, eu, um homem carregando livros como tijolos e um sorriso de Hannibal Lecter bibliófago, as duas raparigas da caixa, outros de saída – oxalá não tropecem, derramando a poesia no passeio onde, às vezes, há merda de cão. Três euros, cinco euros, quinze euros, mil folhas.

jogo com títulos à espera do talão do multibanco

A tua cara não me é estranha, dizes, com uma lágrima de coração independente. Trabalhaste o mel de sol a sol. E agora, o que vai acontecer? Biografia. Recebo o talão e um sorriso. Num pequeno terraço do prédio ao lado, camufladas por uma cortina de canas, há vozes de jantar tardio e alegre. Ai que prazer ter um livro para ler e não o fazer? Tomo cuidado com o batente, à saída. Não há merda de cão à vista. Não tenho nada contra os animais, ó Teixeira de Pascoaes! "O cão ladra e uiva, é já sábio e poeta.". Está uma noite de Verão, já viram isto?

todo o cuidado é pouco

É que está mesmo, de manga curta!
Os dois polícias surgem na esquina, três quarteirões adiante. Param de conversar e olham na minha direcção. Percebo que os olhos vasculham os sacos. Nem precisam daqueles óculos de visão nocturna, a rua está bem iluminada. Os sacos são transparentes, tenho o talão da compra, não vou em excesso de velocidade e também não atrapalho o trânsito a arrastar os pés, que diabo! Digo boa noite, como faço às vezes. Respondem-me na mesma moeda. A mercearia do Sr. Santos ainda tem luz. Podia levar um queijo e um pão regional. E braços?

Coisas sérias & de folgar

Vem lá de longe, do fundo dos tempos, o uso do palavrão na literatura e, particularmente, na poesia. É uma longa tradição que convive com a chamada literatura séria, coisa tão séria que gerou as "belas-letras" e confunde o escrever bem com essa aventura imprópria para pessoas sensíveis (cf. o poema de Sophia) que tem sido historicamente, tantas vezes, um acto de coragem e de contra-corrente. No caso português, talvez o começo se localize nos cancioneiros medievais (séculos XII a XIV), as colectâneas que garantiram a sobrevivência das belíssimas cantigas de amor e de amigo galego-portuguesas, mas também as de escárnio e mal-dizer, nas quais o folguedo, a sátira desbocada, o insulto empolado e a ofensa são reis & rainhas incontestáveis. Com a respectiva linguagem, curta e grossa, como neste exemplo obsceno de Afonso Eanes de Coton: "Marinha, en tanto de folegares / (...) tapo-t'ao primeiro sono / da mia pissa o teu cono (...)" (cf. Antologia da Poesia Galego-Portuguesa, organização de Alexandre Pinheiro Torres, Lello & Irmão, Porto, 1987, 2ª edição, p. 215). Talvez valha a pena lembrar que Natália Correia acolheu uma parte deste "tesouro" poético-linguístico na sua volumosa Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, reeditada em conjunto, em 1999, pelas editoras Antígona e Frenesi. Uma celebração e um prazer para o espírito e para os sentidos. Uma espécie de reencontro com uma das vocações essenciais do texto poético: a de nos confrontar com a nossa imperfeição, com o que queremos apagar, mas nos constitui essencialmente - um corpo no tempo, no espaço, à procura de outro corpo, da sua carne e do seu calor vital (portanto, da vida, da aura da vida, da alma). Por isso, para além da dimensão carnavalesca ou transgressiva (bem visível, por exemplo, através das experiências das crianças no uso das palavras feias que os adultos proibem), o recurso ao palavrão é também uma forma de recuperação de uma candura para sempre perdida. No fundo, uma tentativa impossível de voltar ao tempo em que as palavras não tinham ainda significados bem precisos, em que só havia palavras e palavrinhas. O tempo do jogo e do amor sem culpa nem pecado, como a água de um rio desconhecido ou o ar das montanhas agrestes. O tempo da inocência desaparecida, facto que o poeta lamenta num misto de ironia e tristeza infinda.

Orquídea Sobre Tecido

("O Tempo é tudo." Marx.)

A franja

Cruzo-me com ela no corredor. Jovem, bem disposta, sorridente. Noto-lhe o cabelo diferente (cortou-o) e vou dizer que lhe fica bem mas a frase é, digamos, tesourada pelo detalhe. Ela solta o riso e desfaz o equívoco: “Não, não foi um deslize da cabeleireira!”. E ri-se mais, riso fresco, a franja ligeiramente mais curta sobre o olho esquerdo do que sobre o direito. “Chama-se franja assimétrica. Está na moda!”. E eu rio e digo-lhe que está muito bem. E penso como faz sentido uma franja assim, a rimar com a vida quase sempre assimétrica, desigual, na moda ou fora dela.

E.

Novidades editoriais


1. Uma pequena desilusão. A começar pela redução do tamanho dos desenhos (?) e a terminar na ideia de ficarmos a conhecer, inesperadamente, o pai biológico do herói. Eu sei que é preciso ir desvendando parcelas da identidade de XIII, mantendo ou aumentando (o que seria o ideal) o mistério à volta da personagem. Mas revelar (?) que Sean Mullway, o irlandês ruivo que parece o seu irmão mais velho, é o pai de Kelly Brian, ou antes de Jason Mac Lane, ou antes Jason Fly, ou antes de El Cascador, etc., parece-me, no mínimo abstruso. Veremos como Vance e (sobretudo) Van Hamme descalçam esta bota irlandesa.

2. Um endereço útil. Ainda não as conheço, mas estas moradas prometem muito. Aguardo, impaciente, notícias pelo correio.

22.4.07

O Ciclópico Acto* (uma brevíssima antologia temática da poesia portuguesa contemporânea)


Quarto poema: "Eu quero foder foder", de Adília Lopes, in Florbela Espanca espanca, Black Son Editores, Lisboa, 1999, pp. 7-8:

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

(Adília Lopes / Maria José Fidalgo. 1960-...)


*O amor como foda na poesia portuguesa contemporânea. O Ciclópico Acto é um livro que começou por ser um "poema" de Luiza Neto Jorge para um "livro-objecto de Jorge Martins, Livraria-Galeria 111", publicado em 1972.

O Ciclópico Acto* (uma brevíssima antologia temática da poesia portuguesa contemporânea)


Terceiro poema: "Nós somos mais divinos se fodemos", de Amadeu Baptista, in "Signo de Vénus" / Antecedentes Criminais - Antologia Pessoal (1982-2007), Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007, p. 93:

Nós somos mais divinos se fodemos.
Provavelmente mais castos,
mais autênticos.
É pela carne que o amor é verdadeiro

e falso qualquer temor por o fazermos.
Fodo-te e fodes-me.
Uma espécie de música nesta troca
põe-nos a salvo de qualquer liturgia

e beneficia mais a nossa alma.
Não queremos ser salvos.
Apenas respiramos

e sabemos o sal que vem do sexo
e da nossa inocência.
Monto-te e fodo-te. Eis a felicidade -

(Amadeu Baptista. 1953 - ...)


*O amor como foda na poesia portuguesa contemporânea. O Ciclópico Acto é um livro que começou por ser um "poema" de Luiza Neto Jorge para um "livro-objecto de Jorge Martins, Livraria-Galeria 111", publicado em 1972.