14.4.07

Ausência


Ausência

Ele ia escrever.

“Às vezes, acho que já enlouqueci.”

Depois, armou-se de certezas. Estava pendurado na varanda, a olhar a rua, e pensava como seria fácil, o eclipse. Consta que sentiu uma vertigem e recolheu-se, o cobarde! Acendeu mais um cigarro (sim, tinha recomeçado a fumar) e fumou-o à janela, para evitar encher a sala de tabaco frio. Repara só no detalhe patético! Ffffffffff…

Escreveu.

“Basta-me um sopro na vela do meu peito e sigo o vento”.

Tinha encontrado uma bifurcação nestas palavras que lhe permitiu adormecer nessa noite (evitava os químicos, drogava-se com letras ou coisa do género). Afinal, havia a possibilidade de um pano no lugar do pavio.

Escreveu.

“Pano e Pavio”

mas depois, algum tempo depois, trocou “pano” por “fio”. Malabarista! Que interesse têm estas merdas? Fffffffff…!

Uns dias depois, voltou a escrever.

“Às vezes, acho que já enlouqueci.”

Inquietou-se.

“E se eu for um psicopata?”

Responderam-lhe, das gavetas do congelador.

“Que disparate!”

Rasgou um sorriso misterioso, um pouco ausente

e desapareceu.

Ausência


13.4.07

Ausência

(Encontros de Fotografia, Coimbra, 2006)

6ª, 13

Os jornais mudam, tal como tudo o resto na vida. É normal. O DN voltou a mudar, desta vez sem grande espalhafato. Acertos gráficos, o fim do suplemento diário de economia, uma nova organização das secções. No dia em que chega às bancas, de cara lavada, apresenta como grande novidade uma revistinha de televisão com 100 páginas. Surge na mesma sexta em que desaparece o suplemento , de que era cliente regular. A era bem feita, inteligente, abria horizontes, lançava pistas. Bem sei que os assuntos que por ali passavam podem ter (algum) lugar no caderno principal mas não sei se continuarei a comprar, pelo menos com o mesmo gosto, este DN das sextas-feiras.


Actualiz. (23:30): Ainda não vi com atenção o conteúdo - confesso que tinha mesmo comprado por causa da e só dei pela falta depois - mas parece que a remodelação não foi apenas um arranjo e já há algum espalhafato... Mas desta vez não é marketing. Ou será?

Care For a Drink?

“The rats are running in the subway
the fat cats are choking on the cream
the roaches are creeping in the plumbing
and the dinosaurs are drinking gasoline.” *

TOM – Do you post, Jerry?
JERRY – Oh, yes! I love to post!
TOM – Let’s go to NYC! We could post from there.
JERRY – Yeah! Why not? From the subway!! Hiii!!
ROACH – Não há pachorra.
TOM – What?
Who the hell…?!
JERRY – Let it be, Tom… probably’s a freak scubadiver …
TOM – Oh… ok! Where were we?
JERRY – NYC… posting and .. you know.
TOM – Oh, yeah! Sure. Let’s GO!

* (Ben Godwin, Drinking Gasoline, do CD Skin and Bone – uma descoberta feita aqui, depois deste bom passa-palavra)

12.4.07

Post(a) Restante

Excelente correspondência, esta que acaba de me chegar às mãos. O César e a Julieta, que conheci há cerca de um ano, são os criadores do Chuchurumel, com raízes lá para as bandas de Trancoso. O novo disco, o segundo (que estará à venda em Maio), chama-se “Posta Restante” e mostra que o projecto (cruzamento de músicas tradicionais, recolhas e electrónica) vai de vento em popa. Talvez mais à frente dê outra conta da encomenda. Agora vou fechar os animais.



Realização do videoclip: Tiago Pereira
Música: Coquelhada Marralheira
Tradicional / Freixiosa (Trás-os-Montes)
César Prata: bandolim eléctrico, programações, samples
Julieta Silva: sanfona
Clementina Rosa Afonso: voz


Wim Mertens : Iris




Gustavo Santaolalla : Wings




11.4.07

Um Poema*

Colagem à maneira de Carlos de Oliveira
(com versos de Dante, Machado, Drummond e um cartaz de rua do PSD)


A meio do caminho
da nossa vida fez-se
todo o caminho
a caminhar. E

tinha uma pedra
(era eu, eras tu?)
a meio caminho
de lado nenhum.


*do livro Transportes Púbicos (bláblá...).

História familiar

O meu filho mais novo não quer entrar na banheira, faz birra para tomar banho. Banho tomado, não quer sair, faz birra para sair da banheira. Não há pachorra!

Dead Man Ray : Chemical




Laurie Anderson : Speak my language





Smog : Bathysphere




Jan Garbarek : Iceburn




Michael Andrews : Cellar_Door : Donnie Darko




Mercury Rev : Holes




U2 : Sunday Bloody Sunday




The Clash : London Calling




Joy Division : Love will tear us apart




Bauhaus : All we ever wanted ...




10.4.07

Fio e Pavio


Basta-me um sopro na vela do meu peito e sigo o vento.

Art of noise : Peter Gunn

Ou 30 por uma linha ;-)

Bill Murray : More than this : Lost in translation ;-)

Albinoni : Adagio




Arvo Pärt : Für Alina : Gerry (soundtrack)




Zbigniew Preisner : La Double vie de Véronique : Marionnettes




Leira

"Esta é a minha terra, que muitos rios inundam de sementes."
António Franco Alexandre



Sou chão, vão, probabilidade. Mas nunca fui bom a matemática.

Sobremesa



Uma amiga diz-me poemas, ao ouvido (notável invenção, o telefone portátil!). Até os morangos me parecem silvestres.

coisos ...

Nick Cave & P J Harvey : Henry Lee




The Righteous Brothers : U2 : Unchained Melody

Para Pati.





Righteous Brothers
from "Unchained Melody: The Righteous Brother's Greatest Hits"

Whoa! My love, my darling,
I hunger for your touch,
Alone. Lonely time.
And time goes by, so slowly,
And time can do so much,
Are you still mine?
I need your love.
I need your love.
God speed your love to me.

Lonely rivers flow to the sea, to the sea,
To the open arms of the sea.
Lonely rivers sigh, wait for me, wait for me,
I'll be coming home, wait for me.

Whoa! My love, my darling,
I hunger, hunger!, for your love,
For love. Lonely time.
And time goes by, so slowly,
And time can do so much,
Are you still mine?
I need your love.
I need your love.
God speed your love to me.

Shigeru Umebayashi : 2046 : Yumeji's theme

Shigeru Umebayashi : 2046 : Main theme

Hans Zimmer & Lisa Gerrard : Now we are free

Lisa Gerrard (Dead can dance) : Sanvean

Craig Armstrong & Elizabeth Fraser (Cocteau Twins) : This love

Meta Física (3)

Amanhecer mais, fora de mim.

Damas e Valetes

Jogo nocturno: traçar linhas entre gestos suspensos, alguns segredos e um mapa de poros. Sem cartas na manga.

The Departed em cinco segundos

Quem não viu o The Departed não deve ver este pequeno filme ...
quem fôr muito susceptível também não ...


musik

Monkeys

9.4.07

Um Poema*

Procura Novo Dono...

Poema ainda inédito
de carroçaria a brilhar sem pós modernos.
Em bom estado
de conservação estilística.

Métrica de tracção
a todas as sílabas
e motor turvo
de muitos cavalos solares.

ABS metafórico acrescido
de sistema de som & sentido
de última geração (dos novos
novíssimos!)

Facilidades de leitura & interpretação.
Trata o próprio
(931630690)
autor.


*do livro Transportes Púbicos (etc.)

8.4.07

Sigur Ros : Glosoli


Srª Ella Fitzgerald : St Louis Blues

Srª Ella Fitzgerald : Fever


Srª Billie Holliday : I'll Be Seeing You


Sr Yann Tiersen : La Valse d'Amelie


Sr Jacques Brel : Le Port d'Amsterdam


Srª Nina Simone : Since I feel for you


Exames Que Pareciam Finais

a)
O professor, conhecido pela sua relativa surdez, perguntou à aluna aplicada:
"Qual é a parte da Física que dominha melhor?"
"A acústica", respondeu, inocente, a aluna aplicada.
(E ainda hoje, passados tantos anos, se ouviram algumas sonoras gargalhadas causadas por essa inesperada segunda reprovação...).

b)
O velho professor de literatura pediu ao aluno que abrisse o livro numa certa página. Depois perguntou: "Conhece esse poema?"
"Conheço."
"Então leia."
O aluno não só conhecia, como tinha decorado o poema. Esse, e muitos outros. De olhos postos no velho professor de literatura, começou a recitar, com expressividade afinada, o poema. Quando terminou, o velho professor de literatura fez nova pergunta:
"Compreendeu o que acabou de dizer?"
"Perfeitamente."
"Então estou satisfeito. Está aprovado, pode sair."
(E ainda hoje, passados tantos anos, o ex-aluno recitou esses maravilhosos versos de Camões...).

Sr Tom Waits : Christmas Card From A Hooker In Minneapolis


Sr Tom Waits : How's it Gonna End


Sr Tom Waits : Martha


Um Poema*

Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 14 anos, declarei em família que ia começar a escrever poesia

"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
as tuas mãos."


*do livro Transportes Púbicos (que nunca, nem pensem, escreverei).

Mogwai : I Know You Are But What Am I?


Múm : We Have A Map Of The Piano

Jesus and Mary Chain : Just like Honey ...

Trabalhos de Casa

Ameaça chover. Como ser impermeável à tristeza dos dias? Procuro a minha etiqueta de origem. Evito seguir a roupa para dentro da máquina. Tomo duche e café, um de cada vez. Troco o disco. Tudo irrelevante. Então, por que escrevo aqui, 30% de algodão / 70% de melancolia?

Meta Física (2)

Acordo, outra vez, definitivamente. Rodo as pernas para fora da cama. Ergo-me e espreguiço-me bem, como se esticasse uma fisga ao limite, para me projectar no infinito. Uma dor no ombro esquerdo. Reumático? Bom, o infinito está ao virar da esquina: 3 laranjas e um espremedor.

The Departed (nota 9) : Martin Scorsese ao seu melhor nível


Deste filme e de Martin Scorsese já se disse quase tudo.
Para mim nota 9 em quase tudo.
Gostei particularmente do Leonardo Dicaprio.

L'amour? C'est une embuscade!

(Carla Bruni, L'amour)

Caro amigo PB,

Prossigamos então com a universal linguagem da música. Como a descodificação da BD francófona parece não ser razão suficiente para te levar a uma alliance française, e com o devido respeito pela nossa amiga P., aqui te deixo um outro argumento para reflectires sobre as vantagens de investires na chamada “língua do amor”. Para já, imagino, terás que te entreter com os bonecos.

Toma lá um abraço,

do j

Louis Armstrong : What a wonderful world

Talvez a mais conhecida de todas as músicas postadas aqui ... e também uma das mais belas da história da música (digo eu) ...


Louis Armstrong & Ella Fitzgerald : It Had To Be You

6.4.07

dos filmes imaginados

Uma Para o Caminho

the end ...

Um Poema*

Último Poema

Este é o primeiro verso do poema.
Este é o segundo: o poema sou eu.
Este é o terceiro: o poema existe.
Este é o meu quarto: tu não existes.
Portanto este é o último verso do poema.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

o TAL poema Ilustrado mesmo aqui à porta de casa ...

Não é que haja grande diferença nas "políticas" do PS ou PSD ... acho mesmo que a única diferença é que uns teem o D outros não ...
{Foto: PC a pedido de PB ;-)}

5.4.07

Três Poemas*

1. Cesariana

Pisada por toda a gente
a erva daninha nasce
por entre as pedras
da calçada portuguesa.


2. Monanarquia

Vou nu, senhora,
mas de si sei que
jamais serei rei.


3. Custo de Vida

Cara
só a poesia.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

"Turquesa", de Zuca Sardan (para J.)

"Noite desdambul
azul durgueza
a lua gorducha
sbedada zezboroa
num minarete da mesguida
de Zanta-Zofia...
o vento azovia
azovia... bzzz...
bzz... noite...
noite desdambul..."

Zuca Sardan (pseudónimo literário de Carlos Felipe Saldanha. Rio de Janeiro, 1933). "Turquesa" é um dos poemas do autor, sempre acompanhados de um desenho, incluídos na antologia Boa Companhia: poesia, Companhia das Letras, São Paulo, 2003, p. 109. Escrito, quem sabe, depois de algum exagero no consumo de raki...

Coração Enjaulado


The Strokes, Heart In A Cage, First Impressions of Earth, 2006

"Well I don't feel better
When I'm fucking around
And I don't write better
When I'm stuck in the ground
So don't teach me a lesson
Cause I've already learned
Yeah the sun will be shining
And my children will burn

Oh my heart beats in its cage

(...)

Now it's three in the morning and you're eating alone

Oh my heart beats in its cage"

O Humor é Uma Arma (de todas as cores)

"O cartaz do Partido Nacional Renovador, colocado na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, já não está sozinho. José Pinto Coelho, fundador e presidente do partido nacionalista, tem como companhia quatro ilustres conhecidos: Ricardo de Araújo Pereira, Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela. À semelhança do que acontece com os partidos políticos, os Gato Fedorento decidiram instalar um "outdoor" mesmo ao lado do cartaz do PNR, assumindo a sua oposição contra a mensagem xenófoba daquele partido político. E fazem-no parodiando Pinto Coelho, o homem que disse querer "conquistar as ruas". M.J.O. Foto: Sérgio B. Gomes/PUBLICO.PT"

Actualização (22:00): Leio aqui que a CML exigiu aos gatos que retirem o cartaz ou então paguem a acção de "despejo", a ser executada pela autarquia. Parece que não estava legal mas o outro sim, porque é de um partido. Até pode estar tudo certo, pela bitola dos regulamentos, mas não deixa de ser uma piada de mau gosto.

Bom, daqui ninguém o tira.

O Estranho Mundo de Lynch (3)

No regresso da viagem, dei por mim a pensar neste outro império dos sentidos. Uma mulher devorada pela câmara e uma mulher que devora o mundo com as palavras.

Sumário

Depois de muitas reticências, aprender a lição dos pontos finais.

O Estranho Mundo de Lynch (2)


A propósito da estreia do novo filme de David Lynch, há festa no Santiago Alquimista, em Lisboa. Logo mais, pelas 23h.

O Estranho Mundo de Lynch

“Já passa da meia-noite?”.
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
Deitas a mão à porta e passas o corpo para o outro lado. Esquece o cinema paraíso. Aplaude os coelhos. Afinal, estamos na Páscoa. (Risos). Alice? Não, Laura. Desculpa lá as nódoas negras. Estás magnífica, pareces um anjo, depois do purgatório do plateau. “Toma!”. Doeu-te, este pontapé nos tomates? No passeio das estrelas: um coro de raparigas não é o mesmo que raparigas do coro. “Ela tem um buraco”. Sangue. “Tens que nos contar essas merdas?”.


“Acende um cigarro e queima a seda.” Espreita. O que vês?
Está aí alguém? Experimenta afastar a cortina de veludo vermelho. E agora? Ela sobe as escadas e desabafa com o funcionário dos óculos tortos.
("Lembras-te do que aconteceu amanhã?")
“Tens um relógio?”. Abre esta porta. E a outra. E a outra. E a outra. E a próxima. “Sim, ela ainda está aqui.”Acreditas que tens um fantasma nos bastidores da tua pele?

(Escrito depois de uma “viagem” de quase três horas. INLAND EMPIRE, realização de David Lynch, com Laura Dern. EUA/FR/POL, 2006. Estreia hoje.)

4.4.07

Dois Poemas*

1. Líricovigilância

Sorria
está a ler
este poema.


2. Saída de Emergência

Escrever
só em caso
de absoluta
necessidade.


*do livro Transportes Púbicos (que nunca escreverei).

poesia social democrata

Eu, que nunca votei, nem me vejo a votar PSD, bloqueado ao fim da tarde no trânsito de Alcântara, não pude deixar de admirar esta magnífica síntese de Dante, Machado, Drummond de Andrade e Pedro Mexia, num cartaz de rua sobre os "2 anos de governo sócrates":

"A meio caminho
de lado nenhum".

E, como me acontece sempre que leio grande poesia, não sei se chore se ria.

Uma nota pessoal às "notas sobre o 2º programa da série "Portugal, um Retrato Social", de António Barreto" de J.

Uma aposta ganha?

Coração de Asfalto

(Lisbon, by sadness - um destes dias)

As mãos no volante, abrindo caminho. Estabilizo o conta-quilómetros do peito e disparo o pensamento, veloz. Quanto tempo? Vamos! Saímos da cidade quando todos se guerreiam nos semáforos, tentando chegar primeiro ao semáforo seguinte, tentando chegar ao mini-mercado, antes que feche – falta pão, pode ser do bimbo, torra-se, também fica bom. Algumas horas, dizes. Não importa, vamos. As mãos no volante, indo, no largo prazer de atravessar este mar de palha, para sul; de cruzar a serra lusco-fusco, para norte. Esquece a bússola. Vamos, vamos já! Espera, falta-me acabar isto. Trabalho, compreendes? Sim, impaciência. Vamos logo depois? Sim. Três cuecas, uns pares de meias, duas camisolas lavadas. A pasta dos dentes e a escova e o gel do duche. Leva um casaco, pode arrefecer! Saímos quando todos estiverem a regressar? E o gorro! Ah, que prazer! Sim, só mais um pouco. Voa, imaginação. Desejo. Vou já. Repito: já. As mãos adivinhando o mapa, o silêncio e o sorriso. Escolhe: o mar, a montanha, a embriaguez da planície? Por ali. Vamos? Sim. Até já. Vou apanhar-te. Dá-me um toque, que eu desço. Um saco pequeno, roupa para três-quatro dias, vontade para um mês inteiro. As mãos, adiante, abrindo caminho para a velocidade do desejo. Leva aquele CD. No limite, um pouco para além, sim. Escreve, para matar o tempo. Pum! Escreve, ainda. Vou já. Adiante? Sim. O pára-brisas cinemascope. Deixamos os outros para trás, como se deixássemos a nossa própria sombra, estilhaçada num passeio. Pum! À velocidade do desejo, sem limites. As mãos, nuas, tuas. A rir, com a música alta. E os olhos e a boca. A rir, a rir, a rir! Vou, a imaginar isto tudo, com a música alta, as mãos no volante e a tristeza à pendura. Não dizes nada, amargura? E um saco de roupa para três-quatro dias. E o desejo de nunca nunca mais voltar? Procuro a resposta no caminho. Não quero saber, agora, que portagens ficaram por pagar. Sei que foram muitas. As rodas à berma. Adiante, coração de asfalto. Chora, não faz mal. Acelera!

Um dia destes.

Baú das Músicas 2 : Anos 80 : Echo & The Bunnymen - Killing Moon

Baú das Músicas 1 : Anos 80 : House Of Love : Christine



LP, O Shine On não está disponível online :-(

"Ganhar o Pão" (uma aposta ganha)

Algumas notas sobre o 2º programa da série “Portugal, Um Retrato Social”, de António Barreto, que passou esta noite na RTP.

Gostei muito (obrigado pela lembrança, amigo LP!). Uma excelente radiografia (vai mesmo ao osso, literalmente) do “tecido produtivo” de Portugal nos últimos 50 anos, com uma narrativa sóbria e clara, cruzando com mestria o material de arquivo com as imagens da actualidade. Exemplar, a história contada por José Bento dos Santos, da Quinta do Monte D’Oiro, de como o padre se inquietou e espalhou inquietação, pelo facto de ele estar a mandar para o chão as uvas, durante cinco anos, seguindo as indicações técnicas mais avançadas, para alcançar um grande vinho e assim garantir o futuro de um projecto (consta que o vinho é mesmo bom, by the way). Exemplar também (obrigando a uma certa compostura para evitar o vómito), a declaração de Cabrita Neto, em 1978, de como estavam a seguir “um certo critério” na urbanização turística do Algarve, “tendo em conta o ambiente”. Muito bom, retratar o país ouvindo alguns protagonistas mais mediáticos mas também gente como Rosa Passão, a lembrar a atracção que o Barreiro exercia sobre os alentejanos, nos anos 50/60, porque “isto para nós era o Brasil!”. Bons testemunhos dos empresários que "deram a volta", mostrando como é possível vencer o fado de ser pequeno. Dura, mas realista, a este propósito, a declaração de um empresário (de quem não retive o nome) quando diz que "a morte ronda as empresas que só pensam no dia-a-dia". Uma óptima realização de Joana Pontes; excelentes os planos aéreos sobre as vinhas, no Alentejo e o olhar pausado sobre as ruínas das fábricas. As ruínas que deixam a nu a pequenez da maioria dos políticos portugueses dos últimos 30 anos, na definição de uma estratégia para a modernização e formação. Tantas oportunidades perdidas! Boa nota para a música de Rodrigo Leão, como sempre. A. Barreto garantiu mais um telespectador, que ainda não perdeu a esperança de ver o primeiro episódio. Curiosidade final: que audiência terá este programa, em horário nobre do serviço público?

Adenda: encontrei aqui uma pista para começar a esclarecer a dúvida.

3.4.07

Madrigal

Confesso: Julieta é, de entre os nomes de mulher, um dos meus favoritos. Por vezes, assobio baixinho Menina Estás à Janela. Mas isso sou eu, fora de moda, que nem me chamo Romeu. Olha, rimou!

2.4.07

Polpa

Umas vezes, brincalhão. Outras, deprimido. Hoje comprei maçãs de Alcobaça e umas pêras grandes. Doces!! (O corrector ortográfico do Word assinala erro quando exclamo em duplicado. “És muito amargo, estupor! Espécie de fascista…”). Ah, e também laranjas! Aposto que fico com outra fibra.

Lápis Hemostático

Apareceu-me no espelho, esta manhã, quando escovava os dentes e decidia não fazer a barba. Pareceu-me um rosto conhecido. “Deixa de escrever disparates e vê se fazes alguma coisa com a tua vida!”. Anotei o conselho no vapor, bochechei e fiz a barba.

1.4.07

Ainda o Olhar (2)

Ainda o Olhar

Olhar e ver. Nem sempre juntos, sabemos. Do totalitarismo das imagens que nos submergem, o que retemos para a construção do nosso olhar? Para que nos serve olhar, para lá do sentido utilitário de ver?

O jornal Público reproduziu, na edição de ontem, algumas das imagens que fazem a perturbadora exposição “O Olhar dos Cegos”, organizada pelo fotógrafo Georges Pacheco. Os auto-retratos estão no Silo, Espaço Cultural do Norte Shopping, até 22 de Maio (juntamente com a exposição “A Memória das Lágrimas” – um outro projecto de auto-retratos, do mesmo autor).

Numa entrevista a Sérgio B. Gomes, publicada no blog Arte Photographica, Georges Pacheco diz que partiu para o projecto com a seguinte pergunta: “de que forma o olhar dos cegos toca quem vê as imagens?”. Todo o trabalho pode até ser algo polémico mas, talvez por isso, provoca reflexão. A mim, deixa-me a pensar no modo como nos relacionamos com esse sentido vital e ao mesmo tempo tão banalizado.

Afinal, de que forma o olhar do outro, o cego ou aquele que vê, toca quem o encontra? E, talvez mais importante, de que forma somos capazes de ver o mundo, pelos olhos do outro? Ou, por outras palavras, mais simples e mais bonitas: "Imagina que levas os meus olhos a passear. Serias capaz de me contar o mundo a partir deles?".

Jardinagem

Pega-se num molho de sacos de plástico, daqueles das compras, do mini, do super, do hiper, do talho, seja lá do que for. Cortam-se às tiras e enrolam-se em novelo. Com uns passes de croché, nascem umas bolsas de alças, duráveis, resistentes e originais. Está consumada a reciclagem e a criatividade. É apenas um dos exemplos do que se pode encontrar por aqui, todos os primeiros e últimos domingos de cada mês, numa feira-festa que vem crescendo desde Setembro.

Também há aguarelas, velas, tixartes com muita pinta, plantas aromáticas e bijutaria a perder de vista. Este domingo, dei com uns tipos que se propõem decorar, como nós quisermos, os monótonos electrodomésticos brancos lá de casa. É a cidade, no seu melhor. Ponto de encontro das diferenças, das ideias, de novos e velhos, da música e da cor. Desci do bairro, a desentorpecer as pernas do trabalho. Fui lá beber um chá, na esplanada. O sol estava na brincadeira mas acabou por aquecer. Foi fixe. Obrigado, (m)Ana.

Cafeína : PB©2002

Allhandra, 31 de Março de 2007


Foto: PC