21.3.07

Para que servem as palavras (5)

Abrir a boca e só sair um bocejo. Tentar de novo, mais tarde.

Para que servem as palavras (4)

Poesia, árvore, floresta e sono. Que dia prosaico, este.

Para que servem as palavras (3)

Tomar a palavra silêncio como se fosse um ansiolítico.

20.3.07

Para que servem as palavras (2)

Este é um bom programa. Garimpar versos e reversos.

Para que servem as palavras (1)

Partilho deste entusiasmo. Que escrita (in)tensa e desassombrada.

Notas Para Uma Biografia Impossível 35

Estava eu a passar os olhos por alguns sítios que, de quando em quando visito, e dei com este texto do JPN que, imediatamente, liguei a este outro texto, escrito por mim sem conhecimento prévio daquele. Não sendo plágio, nem paródia, o que resta? Duas (ou múltiplas) biografias impossíveis cruzando-se como num conto não escrito de Borges? Sim, eu sei: aquilo que eu escrevo aqui e agora já foi vivido por alguém, e aquilo que eu vivo aqui e agora também já está a ser escrito por alguém. Algures.

(com passagem pela linha do norte)

Notas Para Uma Biografia Impossível 34

A questão de sempre: querer falar, mas não ter as palavras. Não é que elas não existam, simplesmente não as tenho. E não é coisa que se resolva com dicionários.

Notas Para Uma Biografia Impossível 33

- Não percebo onde queres chegar.
- Isso significa que estou no bom caminho?

Notas Para Uma Biografia Impossível 32

(Travis/de Niro e o passageiro/Scorsese a dissertar sobre os danos causados por diferentes tamanhos de balas no corpo humano; Taxi Driver, 1976)

Notas Para Uma Biografia Impossível 31

("You talkin' to me?"; R. de Niro, Taxi Driver, 1976)

"(...) Travis, sozinho na sala a praticar com as armas. Achei que ele devia falar consigo mesmo enquanto fazia isso, e foi uma das últimas coisas que filmámos, numa casa desabitada num dos sítios piores e mais barulhentos de Nova Iorque. Não queria que se parecesse com outras sequências ao espelho que já tinhamos visto e, por isso, Bob passava a vida a perguntar-me, "Estás a falar comigo?". Porque eu estava sempre a dizer-lhe, "Diz isso outra vez!" Encontrava-me no rés-do-chão com auscultadores e mesmo assim ouvia-se muito do barulho da rua, e achei que não íamos conseguir fazer nada, mas afinal a cena acabou por ficar mesmo boa."

(in Scorsese por Scorsese, organização de David Thompson e Ian Christie, tradução de Ana Paula Magalhães, Edições 70, colecção Arte & Comunicação, Lisboa, 1991, pp. 91-92)

Airborne

Gosto do vento. Desta mão invisível que me empurra pela rua e arrasta pequenas partículas de nada, sem razão (ou talvez baralhe sementeiras – razão suficiente para gostar). A dado passo, um assobio, um roçagar, um tesão atmosférico. O encontro do mistério com a matéria, num tubo de uma antena de televisão, num toldo de uma loja fechada para almoço. Plásticos bailarinos em acrobáticas coreografias, como naquele filme dentro do filme, lembras-te? Este desejo: ser invisível, no vento. Voar, outra vez. Ser ventoso e leve. Partir.

Por mais que viaje, nunca deixo de me espantar com a facilidade com que os grandes aviões abraçam o céu. Toneladas aos ombros e upa!

Notas Para Uma Biografia Impossível 30

- Já viste os dois bancos de jardim que colocaram na rua?
- Já... mas não sei onde esconderam o jardim.

Notas Para Uma Biografia Impossível 29

- Estás a falar comigo?! Estás a falar comigo?!
- Contigo, comigo, com ele, com ela...

Não voltarei a dizer o teu nome

"Quando não temos nada para dizer devemos permanecer calados"

19.3.07

Notas Para Uma Biografia Impossível 28


- Grande sofrimento! E, no fim... grande golo do Petit!
- É bom poder sonhar durante 15 dias...

18.3.07

Regresso (lentamente)

Viagens, também no tempo. A nova - hipnótica - música de Istambul e o anoitecer de Lisboa. Vinho alentejano e um livro de memórias com a seguinte epígrafe:

“The beauty of a landscape resides in its melancholy”
Ahmet Rasim

Banda sonora:
Nefes, Mercan Dede, DoubleMoon, Istambul, 2006

Letra:
Istanbul, Memories of a City, Orhan Pamuk, Faber and Faber, Londres, 2006

O livro está recheado de velhas fotografias, a preto e branco (os tons da cidade, segundo o autor). E para que servem elas, por exemplo, emolduradas sobre o piano mudo da casa da infância? Ou, dito de outra forma, pela voz de Pamuk: "if you plucked a special moment from life and frame it, were you defying death, decay and the passage of time, or were you submitting to them?".

Notas Para Uma Biografia Impossível 27

Imagino este filme. Fim do dia. Estendido na cama do meu filho mais velho saboreio a montagem de memórias de Scorsese por Scorsese, livro que trouxe ontem da Biblioteca Municipal. Aproveitei até à pouco a intensa luz da tarde, mas já baixei o estore e acendi o pequeno candeeiro amarelo em forma de scooter que está na mesinha de cabeceira. Do fundo da casa chegam as vozes dos rapazes e da televisão que os entretém. Da cozinha vem o perfume marinho dos medalhões de pescada estufados com camarões, vinho branco, salsa e molho de soja. C. chama-me para jantar, mas não tenho fome. A noite aproxima-se. E eu, se desligar a luz, fico completamente imerso na noite.

(Scorsese por Scorsese, organização de David Thompson e Ian Christie, tradução de Ana Paula Magalhães, Edições 70, colecção Arte & Comunicação, Lisboa, 1991)

17.3.07

dos filmes imaginados

Görüsmek Üzere (*)

(* até breve)

3 andamentos e várias pontes

Manhã:
Ao pequeno-almoço, o avô conta histórias de velhas batalhas à neta, enquanto rabisca postais ilustrados.

Tarde:
Um café turco no terraço de Ludwig, com a cidade aos pés.
“Freedom we find only if we are one with the heart in us”.

Noite:
Smoke? Nargile de maçã. Os barcos nas nuvens. Mármara. O corpo cansado. Quantas peles tem uma cidade?

dos filmes imaginados

Vozes

(click & bla: J)

16.3.07

Notas Para Uma Biografia Impossível 26

- Private jokes...
- ... public posts!

Notas Para Uma Biografia Impossível 25

- Porto de abrigo.
- Ponte de encontro(s)...
- Vocês dois com as vossas manias de complicar: mesa de café!

Como o tempo passa

Um ano, noutra cidade. Brindo com raki, pode ser? Nos últimos meses, este tem sido um verdadeiro porto de abrigo. Obrigado pela cumplicidade, amigos. Até breve.

15.3.07

dos filmes imaginados

A Rosa Púrpura de Istambul

(click & bla: J)

Notas Para Uma Biografia Impossível 24


- Grandes golos do Simão! Grande golo do Petit!
- E grande vitória do Fernando Santos...

All is full of love - Bjork

Hector Zazou & Björk - Vísur Vatnsenda Rósu

velvet underground - sunday morning

Notas Para Uma Biografia Impossível 23

- Tu e essa tua mania da perfeição que te persegue em todos os lados!
- Talvez seja o meu principal defeito.

Notas Para Uma Biografia Impossível 22

- Um ano depois, e está tudo na gaveta!
- E ainda tenho que esperar mais um ano.

Notas Para Uma Biografia Impossível 21

- Esticar a corda até partir?
- Pois!

Notas Para Uma Biografia Impossível 20

- Ou será que quem não tem nada para dizer agora deve procurar o que quer dizer um pouco mais tarde?
- Posso terminar o que estou a fazer? Obrigado.

Notas Para Uma Biografia Impossível 19

- Quando não temos nada para dizer devemos permanecer calados.
- Ena, hoje estás inspirado!

Notas Para Uma Biografia Impossível 18

- Quem tem pouco tempo vai escrevendo umas notas para uma biografia impossível...
- Muito gostas tu de te queixar! Não tens vergonha? E talento?

dos filmes imaginados

The Perfect Belly

(click & bla: J)

14.3.07

... com orgão de igreja em chamas como fundo ...

... My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key ...

Notas Para Uma Biografia Impossível 17

- Sabes, é como entrar sem mapa numa cidade desconhecida...
- É esse o teu problema: não aprendes com os erros!

Notas Para Uma Biografia Impossível 16

- Não me saem da cabeça os candeeiros derrubados, as árvores arrancadas, as pedras removidas...
- Nunca menosprezes a força das águas!

Notas Para Uma Biografia Impossível 15

- Só escrevo ficção.
- Mas, afinal, queres enganar quem?

Time ...

Notas Para Uma Biografia Impossível 14

- Tudo o que dizes já foi dito por alguém...
- Claro! Mas isso também já foi dito por alguém.

Istambul em Lisboa

Yasemin vai passar o próximo fim-de-semana a Lisboa. Pede-me uma opinião sobre um bom local para ouvir o fado. “Mas não um daqueles sítios para turistas!”. Eles sabem que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos...

dos filmes imaginados

Taksi Driver
(click & bla: J)

13.3.07

Notas Para Uma Biografia Impossível 13

- Viste os putos na rua a jogar à bola com a garrafa meio cheia de coca-cola?
- Vi... mas a mim pareceu-me que a garrafa estava meio vazia.

Notas Para Uma Biografia Impossível 12

- Se eu deixar estes espaços em branco...
- ... sim, eu preencho-os.

Notas Para Uma Biografia Impossível 11

- Vou criar uma lei que te proíba de olhar para mim!
- Mais uma lei para eu não cumprir...

Notas Para Uma Biografia Impossível 10

- Normalmente só me apetece escrever quando estou a fazer outra coisa, urgente e obrigatória, com prazos que não podem esperar.
- Mais uma das tuas desculpas esfarrapadas para não escreveres nada...

Lisboa em Istambul

Passa o eléctrico vermelho na Istiklal Caddesi, enquanto o vendedor apregoa castanhas (quentes e boas?), colocando-as com cuidado, lado a lado, num tabuleiro. Passam duas ou três gaivotas. Passam mulheres bonitas. Passa tempo.

12.3.07

Notas Para Uma Biografia Impossível 9


- Grande golo do Simão! Grande golo do Petit!
- Sim, ao menos nisso estamos de acordo...

Notas Para Uma Biografia Impossível 8

- Lês os textos dos outros e não os meus...
- Bom, a verdade é que não escreveste ainda uma palavra e eu já sei o que vem a seguir!

Notas Para Uma Biografia Impossível 7

- Vou passar a escrever textos curtos...
- Mas assim não vou ter desculpa para não te ler na íntegra!

Notas Para Uma Biografia Impossível 6

- Agora queria estar em Istambul...
- Eu preferia Constantinopla!

Hermenêutica de uma canção 3

- É a canção mais feliz do disco...
- É a única canção feliz do disco.

Hermenêutica de uma canção 2

- Já reparaste que no EP de 2003, Arcade Fire, "No Cars Go" é a terceira canção?
- Sim. No Neon Bible é a décima, e penúltima.
- No disco de 2003 tem uma duração de 6 minutos e 4 segundos.
- E neste, 5 minutos e quarenta e três segundos.
- Mas é a mesma canção!
- Não. Não é a mesma canção.

A Bíblia de Néon


"(...)
Estava uma noite calma no vale, e os pinheiros do monte abanavam ao de leve. Lá em baixo, na cidade, as luzes das casas iam-se apagando, até só ficar aceso um anúncio de néon na Main Street. Conseguia ver a grande bíblia de néon iluminada na igreja do pregador. Talvez hoje esteja também acesa, com as páginas amarelas e as letras encarnadas, e uma grande cruz azul ao meio. Talvez a acendam, mesmo que o pregador não vá lá.
(...)"

John Kennedy Toole, A Bíblia de Néon, Tradução de Ana Barradas, Terramar, Lisboa, 1992, p. 49.

(John Kennedy Toole nasceu em Nova Orleães, em 1937; suicidou-se em 1969. Tinha 31 anos. Escreveu, para além de A Bíblia de Néon, o romance Uma Conspiração de Estúpidos, também editado pela Terramar.)

The Arcade Fire, Neon Bible 2007, Ocean Of Noise

Cada vez que oiço este albúm há sempre uma música que passa a ser a melhor de todas!
Ontem foi, My body is a cage ... mais tarde a Neon Bible ... mas Ocean of Noise é MESMO fantástica! (até descobrir outra ...) esta (também) tem um não sei quê de Western ... um duelo em que alguém vai acabar por morder o pó ...

Notas Para Uma Biografia Impossível 5

- Devias falar menos e fazer mais.
- Mas, repara, neste caso, falar e fazer coincidem!

Notas Para Uma Biografia Impossível 4

- Devias levar-te um pouco menos a sério...
- Tens razão. Mas, em contrapartida, tu devias levar-te um pouco mais a sério!

Notas Para Uma Biografia Impossível 3

- Estou tão obcecado com a ideia da escrita que, na prática, não escrevo nada.
- A quem o dizes!

Notas Para Uma Biografia Impossível 2

"- Há coisas que tu escreves que eu não entendo...
- Nem eu..."

Notas Para Uma Biografia Impossível

- Não, o que tu escreves não faz raccord com o que tu és!
- Mas tinha de fazer?

11.3.07

Hermenêutica de uma canção

- Deve ser uma private joke...
- O quê?
- Esse lugar onde os carros não vão. Onde é esse lugar?
- Ele diz: "Between the click of the light and the start of the dream".
- Isso é onde?
- Ele diz: aí.

Ouver para Crer!

Arcade Fire, 3 de Julho, no Super Bock Super Rock.

The Arcade Fire ... (2005)

My Body is a Cage




(o vídeo não é oficial claro)

... words...

"(...)
I know a time is coming
All words will lose their meaning
(...)"

"Black Mirror", Neon Bible, Arcade Fire (2007)

Arcadas a arder!


Depois do Funeral (2004), eu vi a Ressurreição do rock: Neon Bible, Arcade Fire. Aos cinco dias de Março, como não podia deixar de ser. Bem vindos ao fogo!

10.3.07

dos filmes imaginados

Duplex

(click & bla: J)

cãocomcaudaemvírgula. para J.

Podia Ser Uma Arte Epistolar

Em silêncio, no coração da tarde azul, uma vespa agoniza sobre a laje morna. De regresso a casa - de partida. O musgo nos relógios rastejantes. Os braços, abandonados ao longo dos dias. O veneno da solidão a comprimir-me o peito, na tarde azul. Volta não volta, apetece-me dizer-te para regressares.

Boca de Cena

"Os actores são pessoas que encontram os desejos dos outros, e eu nunca encontrei os desejos dos outros."

Jorge Silva Melo, Expresso, 10.03.07

Polaroids

O sol quente nas pernas cruzadas, num banco de jardim primaveril. Uma caminhada alternativa.

Uma menina que ensaia os primeiros passos e me sorri (a mãe, bonita, também).

Alguns cães com caudas de vírgula: nem sempre os mais pausados.

Na cintura de uma mulher, um porta-chaves com um enorme urso de peluche.

As mesas de jogo sobrelotadas. Reis, valetes e jokers a fazerem tempo para o almoço.

9.3.07

Podia Ser

Por momentos, sinto-me em LA – escuto um helicóptero na noite. Mas, afinal, pode ser a palavra moscardo a fazer voz grossa para a palavra libelinha.

(click & click)

O Ocidente do Oriente

Dir-se-ia uma partida do destino. Mas o sol nada tem a ver com o meu coração árido. Trocava já o passaporte por um beijo teu, para prolongar a alegria breve de há pouco.

Podia Ser uma Arte da Leitura

Enquanto esperava na rua, de livro aberto, encostado à parede do prédio, o insecto leitor veio aterrar no intervalo entre a primeira e a segunda estrofes do poema. Uma espécie de salpico preto: deu uns saltinhos minúsculos na página e, como chegara, assim desapareceu no ar. Mas eu vi algumas palavras a quererem eriçar as asas: preparavam-se, de certeza, para o seguirem tarde fora... Zás, tive de fechar o livro!

(Agora as palavras são formadas por letras que me fazem lembrar pequenos insectos esmagados contra as páginas... E os poemas!? Não os vêem? Pois parecem verdadeiros enxames!)

(bla & bla)

- Mas afinal tu queres o quê?
- Se soubesse dizia-te!

Podia Ser uma Arte da Vertigem

Escrever também para te contar isto: surgiram do sul, de repente. Um bando de pássaros brancos de gestos lentos (gaivotas?), lá bem no alto, reflectindo as luzes da cidade. Umas três dezenas de pares de asas, desenhando novas constelações sobre a ardósia sem nuvens onde brilham as poucas estrelas que o clarão urbano deixa ver (não, nenhuma estrela cadente...). Deram uma volta, suave, rumo a ocidente, deixando no vento esta breve alegria, como se fosse o filme perfeito para Os Nocturnos de Chopin, que Maria João Pires vai acariciando no piano. Dou por mim a sorrir, inebriado pela magia da música e dos pássaros.

nostresemlinahresdabeira

8.3.07

dos filmes imaginados

You Name It

(click & bla: J)

Os sentimentos no lixo

(Varandas de Avô, 2007)

Escrever para quê?

dos filmes por imaginar

Escrever ainda para quê? Para partir da biografia e inventar outra vida. Para partir a biografia em dez mil pedaços.

Podia Ser Ainda Outra Arte Poética

Escrever para quê? Por exemplo, para dar significado a acontecimentos insignificantes. Por exemplo, uma criança pedir que apaguem as luzes do corredor para poder adormecer. Na noite da tua casa. Por exemplo.

Tricky > Pumpkin ...

Podia Ser Uma Arte da Salvação

Que tolo! Enganado pelas palavras! Como uma criança numa história infantil lançava-as ao chão, uma a seguir a outra, enquanto avançava pelo interior da floresta obscura - deixava assim, atrás de si, um fio de luz que permitiria o regresso seguro a casa. Mas já não é uma criança, nem isto é uma história infantil. E não está escrito em lado nenhum que as palavras servem para salvar o que quer que seja.

Podia Ser Outra Arte Poética

Falhado o projecto de fotografar os pardais resta-me o consolo de olhar os ramos nos quais estiveram, por instantes, pousados. Vistas de baixo, sem folhas nem flores, as pontas esguias parecem querer tocar o céu. Mas são as raízes, que não se deixam ver, que (nos) estão mais próximas.

O Espelho

Eis uma ideia clara que apetece transportar pelo reflexo dos dias mas, às vezes, tudo o que o espelho nos devolve é uma imagem vaga.

dos filmes imaginados

Fado

(click & bla: J)

7.3.07

dos filmes imaginados

Tri

(click & bla: J)

6.3.07

Chapéus há muitos?

Alguém tinha avisado: é preciso passar palavra, o auditório está quase às moscas! Nas vésperas do concerto, tinham-se vendido menos de cem bilhetes. A mesma voz do alerta insistia: eh pá, os gajos que esgotaram a sala para o Keith Jarrett (eu ajudei…), que arrumem os discos do homem na prateleira e venham ouver o que se está a fazer hoje, de mais original, na área do jazz. Bem, o Jarrett será sempre um excelente companheiro, digo eu, mas o mundo não pára, já se sabe.
O Washington Post escreveu que The Bandwagon é um grupo composto pelos “três melhores músicos de jazz da geração sub-35” e este é apenas um dos muitos elogios que lhes têm sido feitos. Pelos vistos, acabaram por vender-se mais alguns bilhetes mas a sala estava apenas composta. No palco foi assim: energia, ritmo (swing, funk, essas coisas, you know!), sensibilidade, criatividade, técnica impecável, experimentação, surpresa. Um destaque, por exemplo: o piano de Jason Moran a traduzir, com notas, as palavras gravadas de uma mulher (uma amiga artista que vive em Berlim, explicou a dado compasso…) revelando a música de uma conversa telefónica e de outros blá-blás, com a cumplicidade de Tarus Mateen (baixo flamejante, na cor e não só) e Nasheet Waits (bateria bem carregada). Yeah! E mais! Depois do bis, os músicos aplaudiram o público, desceram do palco, atravessaram a plateia e misturaram-se com os espectadores, distribuindo conversa, autógrafos e sorrisos para as máquinas fotográficas dos mais entusiastas. Até pode ser estilo, como os chapéus, mas também lhes fica muito bem.

(Jason Moran and the Bandwagon, CCB, Lisboa, 6 de Março de 2007)

5.3.07

PARA
BÉNS
L!!!!!!

2.3.07

Um café e um poema

"EPÍGRAFE PARA A NOSSA SOLIDÃO

Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos"


(Ruy Belo, "Aquele Grande Rio Eufrates",
Todos Os Poemas, Assírio e Alvim, 2004)

1.3.07

Elogio da Lentidão

(Labrador, Canadá, 2005)
Todos tirávamos fotografias. A mulher de cabelo azul desenhava, prolongando o instante decisivo. No último dia de viagem, sorridente, mostrou-nos os blocos – traços, sombras, certas cores. Definitivamente, uma outra profundidade de campo.

(actual. a 2.3.07)
Leio, por sugestão de uma amiga, a entrevista da escritora Nélida Piñon à do DN, da semana passada. “Gosto muito do sentimento da perda de tempo. É um luxo. É um luxo perder tempo. (…) É ganhar tempo de outra maneira.” É lamentável como, às vezes, demoramos tanto tempo a perceber isto.

Podia Ser uma Arte da Amizade

"Mas tu não conheces os teus limites!", disse-lhe o amigo, a sorrir. Os amigos dizem estas coisas a sorrir. Os sorrisos dos amigos não têm limites.

Podia Ser uma Arte do Desaparecimento

O acerto do dia no mostrador do relógio foi feito manualmente: de 28 de Fevereiro a 1 de Março, em brevíssimos segundos. Para onde vão estes dias que nos desaparecem por entre as pontas dos dedos?

dos filmes imaginados

Blogout

(click & bla : J)

A política das partilhas

“Levo uma colher de pau, um garfo de madeira e o salazar, está bem?”
Como poderia discordar?

Podia Ser uma Arte da Despedida

O último texto que escreveu só tinha título: ficou, portanto, tudo em aberto.

Podia Ser uma Arte da Desistência

Ao contrário de muitos que escreviam porque sabiam bem de onde vinham e para onde iam (tinham encontrado a sua "voz própria", diziam), ele não sabia de onde vinha, nem para onde ia. Na verdade, ele não sabia nada. Nada de nada. Embora saber isto já fosse alguma coisa.

Podia Ser uma Arte da Sobrevivência

À partida parecia-lhe possível dizer que usava as palavras; o que se passava, porém, era que, escrevendo, se sentia obrigado a reconhecer que nada do que dizia era verdadeiramente seu, porque nenhuma palavra lhe pertencia. "As palavras são o lastro comum, o que é de todos", diziam-lhe os amigos. Por isso ele escrevia aceitando que escrevia com as palavras dos outros, procurando torná-las, digamos assim, suas. Esforço vão, claro! o que era por demais evidente para toda a gente, a começar por ele mesmo. Cada texto escrito revelava-se o eco mais ou menos palpável de outros textos... "Sim, o melhor é remeter-me ao silêncio", pensou ele, como se tivesse encontrado a solução. Na verdade, "remeter-se ao silêncio" era apenas uma metáfora estafada (mais uma!) a que não conseguiu escapar. "Como é difícil escapar às metáforas!", pensou então ele. Se é que se pode dizer que isto seja um pensamento.